Você está em ‘polêmica’

Já faz algum tempo desde que eu publiquei meu último post com exemplos de publicidade. Com o passar dos anos, tentei direcionar o blog mais para lições do que para exemplos. Não quero dizer como você deve fazer o seu trabalho, mas fornecer conhecimento e insights que lhe ajudem neste processo. É com esta intenção que eu trago um péssimo exemplo do mercado publicitário brasileiro.

Como brinde de final de ano, uma agência de Goiânia deu caixas com pintinhos para seus principais clientes, o que gerou uma grande comoção na internet pelo absurdo da ideia.

A criatividade é um campo quase sem limites, e um dos raros limites é a ética. Dar uma vida é absurdo em qualquer situação, como desabafa o autor deste post. Não faz nem uma semana que o Brasil repudiou o ato de uma enfermeira que espancou seu yorkshire até a morte, também em Goiás. A agência tuitou que poderia dar um cachorro, mas optou pelo pintinho por fazer referência ao símbolo da propaganda, o galo. Boa ideia se não estivéssemos falando de um ser vivo. Uma vida é para ser amada, não para brincar, decorar, expor ou comer (na minha opinião, mas esse é outro assunto).

A dona da agência disse que é vegetariana. Não quero julgar, mas quem realmente compartilha dos preceitos do vegetarianismo jamais faria isso. Na verdade, isso transcede o vegetarianismo, já que é possível ver todo o tipo de pessoa condenando a ação. Ela também disse que é melhor dar um pintinho do que dar um chester de supermercado, mas se contradisse ao falar que sua intenção não era que ele virasse alimento quando adulto. Vamos ser francos, as pessoas não costumam ter galos como animais de estimação. Além disso, como esse animal poderia ter uma vida boa longe do seu habitat natural em meio a loucura do clima urbano? Resumindo: o animal não era para comer, não era para ser animal de estimação, era um simples souvenir.

Não vamos confundir criatividade com “tudo pode”, existe algo acima da inovação e avanço tecnológico ou corporativo, e isso se chama amor.

O problema é o “rock” e o “Rio” do nome.  Essas duas palavras acabam limitando as possibilidades do evento tanto em gênero musical como localidade. E é justamente por esse “limite” ter sido rompido, que o Rock in Rio vem sendo alvo de duras críticas, o que provavelmente terá algum impacto na imagem do maior festival que o Brasil já viu.

Como nome de marca, Rock in Rio é um nome forte pois carrega dois elementos com muitos valores e associações. O primeiro é o gênero musical mais tocados no mundo todo. O segundo é uma das mais belas cidades tropicais do planeta, e que o mundo todo deseja visitar ao menos uma vez na vida. Então, como um festival de rock em uma das cidades mais atraentes do mundo poderia dar errado? Quando o rock é colocado em segundo plano e o Rio não é o único palco desse festival. Para quem não sabe, até a edição deste ano, o Rock In Rio aconteceu mais vezes em Lisboa do que no Rio de Janeiro.

O Rock in Rio poderia entrar para a lista dos maiores festivais do mundo se tivesse trabalhado bem a sua marca — mantendo a identidade que o tornou famoso e agradando seu público apaixonado. A escolha do nome, para qualquer marca, é importantíssimo. Consumidores assumem coisas de forma inconsciente e criam expectativas mais rapidamente do que você pode imaginar. Então, se você diz Rock in Rio, as pessoas assumem que é um festival de rock no Rio de Janeiro. E não Shakira em Lisboa. O que poderia ter acontecido sem problemas, se o nome fosse diferente.

Nome é coisa séria para um negócio assim como música é coisa séria para amantes da música. Obviamente, também é sério para os organizadores e patrocinadores do festival que querem obter retorno financeiro e obter sucesso suficiente para render outras edições futuras. Sob a perspectiva desses caras, faz sentido colocar Ivete Sangalo e Claudia Leite no palco principal do evento para atrair outros públicos (e faturar mais). Tudo isso seria perfeitamente possível… se o nome não fosse Rock in Rio.

Peguemos 6 dos maiores festivais do mundo: Glastonbury, Coachella, Lollapalooza, T in the Park, Bonnaroo, Benicassim. Quatro festivais têm nomes associados ao lugar que acontece –  como o Glastonbury, uma cidadezinha a 200km de Londres ou o Coachella em um dos vales californianos –  e 2 têm nomes inventados ou sem fortes associações. É normal associar um festival a um lugar, desde que ele só aconteça nesse lugar. Você nunca verá um Glastonbury acontecendo em Seattle, e nem acho que seja porque ele não teria sua atmosfera inglesa, mas porque o nome é tão forte que seria quase como um insulto aos britânicos, que há décadas vão a esse festival, vê-lo em terras estrangeiras.

Não podemos dizer que o Rock In Rio “deu errado”. Mas do ponto de vista do branding, ele fracassou. Sua marca certamente vai perder força com a edição deste ano, enquanto outras como SWU e o Lollapalooza (que terá sua 1ª edição brasileira em 2012) se fortalecem.

Espero que entendam que eu me refiro exclusivamente à marca do evento, respeito o gosto das pessoas e cada um é livre para escolher se gosta de Ivete Sangalo,  Slipknot ou dos dois. Mas com tanta gente criticando a “falta de identidade” (pra não falar coisa pior) do evento, fazendo paródias e piadas, além do assustador número de assaltos por dia… acho que a menor preocupação que os organizadores devem ter é se vai chover.

Muita coisa tem se escrito sobre como redes sociais podem impulsionar os negócios, e muito pouco sobre tudo que já foi escrito foi dedicado ao que não fazer. Particularmente, considero o que não fazer tão ou mais importante quanto o que fazer. Em uma área onde (quase) tudo é possível como propaganda e marketing, é fundamental que haja um bom filtro. Esse filtro deve ser composto por experiência, senso crítico e alta capacidade de análise. Isso vale não apenas para redes sociais, mas para toda sua vida profissional. Reflita sobre tudo que você lê (incluindo este blog)e não assuma como uma verdade absoluta, pondere. E eu vou ilustrar isso com um exemplo.

Você está navegando pela internet quando cai em um blog que nunca viu  e lê um dos posts em que se sugere usar o Twitter para divulgar tudo que a empresa  faz, onde todos os funcionários estão falando, incluindo a implementação de um “Twitter interno” onde rolarão mensagens como “A Carol chegou com um carregamento de donuts. Eles estão na sala de suprimentos, enquanto durarem” ou “que as crianças não vejam isso… existe um site que captura sua própria letra e transforma em fonte”.  Então, você assume que aquilo é uma ótima coisa a se fazer só porque leu em um blog americano, teve 9 comentários e 217 reações na internet. Até ler um especialista falando que aquilo é besteira em um tom bastante indignado.

Foi exatamente isso que aconteceu. Jonathan Salem Baskin é um dos especialistas que eu mais gosto de ler na internet, um profissional com grande experiência, argumentos fortes e três livros publicados. E se ele falou que o post “Deploying Volunteer Marketing Armies with Internal Social Media” — citado no parágrafo de cima — não é marketing, então eu acredito nele. Baskin disse em seu blog que estava furioso e sentia vergonha de profissionais de marketing por serem tão crédulos; disse que não queria ofender o autor do post, mas que aquilo não é fazer negócios, não é ciência e nem mesmo racional. De fato, li post e achei muito exagerado. Fazer com que todo funcionário twitte a respeito de tudo que está acontecendo na empresa não vai tornar a empresa mais humana ou inovadora. Twitter, assim como qualquer outra rede social, é apenas uma ferramenta que não serve para nada sem uma boa estratégia.

Antes de sair usando Twitter ou Facebook feito louco para promover uma empresa, esqueça o burburinho das redes sociais e pense como um profissional de marketing. Tenha em mente os conselhos de um especialista:

Ninguém acorda querendo ouvir mais sobre marcas.

“Desculpe. Eu sei que a tecnologia torna possível, mas não significa que isso se tornou uma necessidade ou um desejo.”

“O mundo  não precisa mais de conteúdo. O seu desafio não é encontrar um jeito de produzir mais, e sim fazer o que você diz importar mais”

A massa não é exatamente confiável.

“A humanidade realmente não sabe (ou se importa) como gerir o seu negócio, então ‘a próxima grande ideia’ de que seus consumidores devem cuidar do seu design, da sua propaganda e propor novos processos, ou apenas falar de si próprio em vez dos seus produtos ou serviço… tem a ver com recompensa imediata. Não é estratégia de negócios.”

Estabelecer diálogos não é tão simples assim.

“Toda vez que alguem lhe disser ‘apenas comece a gerar conteúdo’ ou ‘crie uma conta e converse’, eles deviam ser convidados a se retirar”.

“A ideia de que você pode esquivar da responsabilidade pela sua marca é perigosamente atraente, mas é uma mentira. Respeitar os mecanismo da conversa um a um tem muito pouco a ver com lançar campanhas digitais que se espalham pela rede.”

Sua empresa tem que fazer algo de concreto para existir.

“Não confunda o meio com a mensagem e não confunda o buzz da conversa com o conteúdo do que está sendo discutido.”

“Grandes chances das mais celebradas campanhas sociais serem realmente as melhores, mais inteligentes, mais rápidas ou possuírem os produtos e serviços mais competitivos. Fazer bonito no digital geralmente significa grande realidade. Se não há nada de real ali, não passa de um grande barulho”

Eu ainda não tenho um bom histórico de previsões, mas parece que acertei quando disse que o mercado de netbooks não iria longe. Agora,  irei arriscar mais uma: 90% dos sites de compras coletiva de hoje morrerão dentro de 1 ano. [nota: segundo a Forrester Research, os tablets devem tirar os netbooks do mercado norte-americano dentro de 2 anos.]

Quando eu descobri o Groupon não dei muita bola até a Forbes denominá-la “A empresa com crescimento mais rápido da história”, que deve romper a barreira de $ 1 bilhão de dólares de faturamento em apenas dois anos. Foi depois de ler o artigo e visitar o site (Clube Urbano, no Brasil) que percebi a genialidade da ideia de um jovem de 29 anos.

Devido seu conceito simples e baixo investimento inicial, o mercado teve um boom de novos entrantes de forma sem precedentes. Já perdi as contas de contas de quantos sites  de descontos coletivos diferentes eu vi nos últimos 2 meses (só no Brasil). Embora o modelo de negócios seja o mesmo, esses sites são muito inferiores ao original. Quando o Groupon lançou seu Clube Urbano no Brasil, ele trouxe experiência de outros países, portanto, não era apenas uma boa ideia, era uma empresa bem-sucedida que saiu na frente por ser o primeiro, ser inovador e possuir mais experiência. Já suas cópias vão na onda munidas apenas da ideia — que é boa, mas conhecida — sem acrescentar nada e com uma execução fraca . Em outras palavras, parabéns ao Groupon, eu os admiro; mas para quase todas as outras cópias brasileiras, vocês deviam rever seu modelo de negócio.

Na minha opinião, a única estratégia viável para quem quer entrar neste mercado hoje é segmentar, por região ou segmento de atuação.  Ao invés de dominar o Brasil, que tal ficar só em um estado? Ou se especializar em saúde — com academias, lojas naturais, farmácias, restaurantes orgânicos? Mas as empresas não conseguem sequer segmentar suas ofertas, o que dirá segmentar a empresa. Por exemplo, eu já recebi ofertas de depilação. Se fosse ao menos de corte de cabelo…

Não há espaço para todos. É com base nessa premissa que o marketing se desenvolveu, a estratégia se tornou o cérebro de toda empresa e as marcas passaram a valer uma fortuna. Não vai ser diferente neste setor, como é confirmado pelo professor da Wharton School, Kartik Hosanagar, “para superar a concorrência, um site de compras em grupo precisa ter uma marca de respeito e boa reputação”.

Como lojas podem tirar vantagem

Tanto para as empresas de compra coletiva como para as pequenas e médias empresas que anunciam, é preciso haver uma estratégia por trás. Para quem vende, a estratégia ajudará a sobreviver neste mercado ultra-competitivo. Para quem contrata, a estratégia ajudará a não quebrar, uma vez que o lucro obtido das ofertas anunciadas nesses sites são irrisórios. É preciso saber o que está fazendo.

Para garantir o sucesso a longo-prazo, os sites de compra coletiva também precisam ajudar as lojas a crescerem. Caso contrário, elas anunciarão uma vez e depois nunca mais. Uma pesquisa mostrou que apenas 15% dos clientes que resgataram seus cupons, voltaram à loja depois. Ou seja, é preciso diferenciar quem só está atrás do desconto e quem está disposto a conhecer uma boa empresa.

De uma maneira geral, há 4 objetivos principais para uma empresa anunciar nesses sites:

  1. Atrair novos clientes
  2. Atrair novos públicos
  3. Divulgar novos produtos
  4. Mudar a opinião dos clientes acerca de um produto/serviço (que foi melhorado e merece uma segunda chance)

Como os sites podem sobreviver neste mercado

O mercado é como um campo de batalha, milhares surgem para disputar e, aos poucos, a maioria vai abandonando ou morrendo. Isso é ainda mais visível em mercados emergentes, por exemplo quando um surge um produto de grande sucesso e todo mundo quer tirar proveito. Aconteceu com os netbooks, vai acontecer com os tablets (2011 promete) e está acontecendo com os sites de compras coletivas.

O Groupon/Clube Urbano inventou um mercado, criou uma categoria,  fazendo exatamente o que Al Ries e vários outros especialistas em marketing propõem. Isso garantiu uma enorme vantagem competitiva. O que os concorrentes podem fazer para compensar isso? Evitar ser uma marca “eu-também”, copiando o líder. E é exatamente isso que a maioria está fazendo.

Acredito que as empresas poderiam aumentar suas chances de sucesso se seguissem seu próprio caminho, como:

  1. Especializar-se em uma região ou ramo de atuação. Funcionando como um guia para os moradores daquela cidade, turista ou ávidos consumidores de determinados produtos
  2. Conhecer profundamente seus usuários, oferecendo ofertas específicas a partir do histórico de compra, sexo, idade e preferências
  3. Estimular o clima de comunidade. Gerando conteúdo útil, interagindo com os usuários e os premiando por isso.
  4. Ofertar coisas interessantes, não uma sobremesa em um restaurante que ninguém conhece.

[Baseado neste artigo da Wharton School]

Tenha um pé atrás quando uma marca que investe pouco em publicidade começar a aparecer em todo lugar. É o caso do Santander, cujo investimento publicitário em 2010 é de R$ 150 milhões, maior do que a soma da verba do Banco Real e o do próprio Santander dois anos atrás, resultado da estratégia de consolidação da marca Santander e extinção da marca Banco Real — um dos melhores bancos que o Brasil já teve.

Eu sou cliente do Banco Real  há uns 8 anos. E não devo chegar ao meu 2º ano de correntista do Santander. Tive mais problemas em 1 ano do que tive em 8. Problemas como dinheiro sumindo da conta que ninguém sabe explicar, atendentes que ficam passando um pro outro sem resolver o problema, demora no atendimento e taxas abusivas. Para mim, a causa mortis é cultural.  O Banco Real, um banco brasileiro-holandês sempre pareceu ter o foco nas pessoas, ao contrário do espanhol Santander, onde respeito aos clientes praticamente inexiste. Clientes esses, que em muitos casos nem queriam estar ali, como eu.

O Santander é como um vilão grandalhão que vai engolindo os menores bonzinhos. Quando o banco espanhol comprou o Banespa, foi um “deus nos acuda”. Pelas histórias que ouvi, o Banespa era um daqueles bancos que você passa a vida toda nele, não porque não consegue sair, mas porque quer ficar. O Santander tirou isso de muita gente e até hoje tem processos trabalhistas correndo contra o banco espanhol. Com o Real não está sendo diferente, o grandalhão é rude com os clientes, agressivo na comunicação e está fazendo tudo sem se importar com nada ou ninguém. Demitiu 400 funcionários de uma tacada só quando comprou o Real.

Empresas que investem muito dinheiro em propaganda podem estar colocando sua credibilidade a prova,  veiculando mensagens vazias, uma vez que o serviço/produto não combinam com o discurso anunciado. Um grande problema do Santander é que o que vemos na mídia não reflete a realidade da empresa.  Como disse a diretora do sindicato e funcionária do Santander: “É uma situação inadmissível [demitir 400], principalmente para um banco em excelente situação no Brasil e no mundo, que anuncia ‘sinergias de integração que devem atingir R$ 2,7 bilhões’. Ou seja, para os banqueiros, brasileiros ou espanhóis, a fusão trará ganhos, mas para os bancários, pais e mães de família, sobra a tragédia do desemprego”.

Completementando o desabafo: não são apenas os bancários, pais e mães de família que estão sofrendo com a chegada do Santander, mas os clientes viúvos do Banco Real. A boa notícia: é que esses podem mudar facilmente, enquanto, para os ex-funcionários, infelizmente, a mudança é mais dolorosa.

Eu perguntei para algumas pessoas o que elas achavam do Santander e não ouvi uma única resposta positiva, inclusive aparecendo, mais de uma uma vez, a expressão “o pior banco do mundo”. Realmente não entendo o que há nessas empresas que parecem não se importar com a sua reputação. Acho que elas pensam que conseguem compensar aumentando a verba publicitária. Abaixo estão algumas opiniões extraídas do Twitter pra reforçar.

Como profissional de marketing e amante dessa área, fico triste quando vejo empresas admiráveis como o Banco Real sair do mercado, dando lugar a megacompanhias que não buscam solucionar os problemas dos seus clientes, tampouco tornar a vida das pessoas mais fáceis. Não sou contra fusões nem compartilho das críticas mirabolantes de pessoas anti-capitalismo. Acho que é possível unir interesses de investidores e executivos sem prejudicar os consumidores. Algo parecido com o que fez o Itaú com o Unibanco.

Assim como escrevo artigos dando exemplos de boas empresas, escrevi este artigo para mostrar o contrário. O Santander não é uma empresa que mereça ser vista como exemplo de marketing e, nunca, jamais, de CRM. É uma grande empresa multinacional que só visa numeros e que conseguiu destruir tudo que 2 grandes marcas brasileiras construíram nas últimas 2 décadas.

Agora, estou orfão, em busca de um banco que não queira só o meu dinheiro. Uma tarefa dificílima em uma época em que, cada vez mais, boas empresas desaparecem porque não acompanham o crescimento do mercado e acabam sendo abocanhadas por outras maiores. E o pesadelo continua com um Santander faminto por novas aquisições. Salve-se quem puder!

O ser-humano é fascinado pelo 3D. A possibilidade de se sentir dentro de um universo novo — como um show ou um filme –, ou de poder interagir como objetos –através da realidade aumentada– seduz as pessoas há um bom tempo. Mas só agora a tecnologia parece ter evoluido o suficiente para oferecer uma experiência satisfatória em 3D. Pelo pouco que já podemos ver, filmes realmente ficam mais emocionantes; shows nos dão a sensação de estar na platéia e produtos podem ser testados antes da compra.

Além das telas

A era das telas parece estar chegando ao fim. Nos últimos 10 anos, os televisores ficaram da espessura de uma folha de papel, passaram a gravar programas,  triplicaram o tamanho da tela e até acessam à internet. Tudo isso, gastando menos energia e exibindo uma imagem infinitamente mais nítida. Através da TV, é possível comprar produtos e até pular comerciais. Se não tem mais como melhorar dentro da telinha, o jeito é ir pra fora dela. E é isso que pretendem os maiores fabricantes de eletrônicos.

Na Copa do Mundo da África, a Sony sugere que imaginemos o futebol em 3D. Uma frase fantástica que mostra os pés no chão da japonesa, porque a Sony sabe que a tecnologia ainda engatinha. Talvez em 2014, talvez em 2018, mas em 2010, futebol em 3D ainda não é uma realidade pro consumidor, então, imagine. Outra japonesa aproveitou pra anunciar seu mais novo produto em 3D, a Nintendo. A primeira a lançar um videogame em 3D e que não precisa de óculos, o novo Nintendo 3DS.

Muito buzz e pouca venda

Lançada no final de fevereiro no mundo e em abril no Brasil, as TVs 3D ainda são muito mais buzz do que um mercado lucrativo. Apesar de não atender a demanda dos revendedores, a  Samsung esperava vender 600.000 unidades até junho. Até maio de 2010, o volume de vendas foi de 270.000 (das 300 mil vendidas no mundo todo). No Japão, país mais early-adopter do mundo, o volume de vendas representa apenas 0,9%. do total de TVs.

Faz 1 ano que as emissoras brasileiras fizeram investimentos pesados para se adaptar ao High-definition. E ainda está longe da alta-definição ser uma tecnologia popular. Isso é natural no mercado: tecnologia nova é extremamente cara. 4 anos atrás, na Copa da Alemanha, ter uma TV de plasma era luxo. Hoje, luxo é  LED. Mas não é essa a questão. A questão é: será que os consumidores querem assistir tudo em 3D?

Eu consigo ver as pessoas na frente de uma TV 60″, fascinadas pela imagem do LED conectado a um aparelho blu-ray e admirando cada textura da imagem. Consigo vê-las se desfazendo das TVs de tubo por uma fina que cabe em qualquer mó, gravando programas no HD interno e até fazendo compras com o controle remoto. Afinal, as pessoas sempre desejaram fazer tudo sem sair da frente do televisor. Mas eu realmente não consigo ver as pessoas assistindo 3D sentadas no sofá. Não apenas é estranho e caro, é trivial, nada prático e pode até ser prejudicial à saúde.

O grande salto tecnológico

A dificuldade que a TV 3D enfrenta é diferente do que a Plasma enfrentou anos atrás e  mais semelhante ao que aconteceu com a mudança da TV preto e branco para TV em cores. As pessoas estavam satisfeitos com programas sem cor, afinal, elas não sabiam como era TV colorida. Isso é algo interessante no comportamento humano, as pessoas não acham que o atual é ruim até ver a propaganda do mais novo lançamento.

TV em cores é muito melhor que em preto e branco, você pode diferenciar uma laranja de um limão. Da mesma forma, TV LCD é muito melhor que TV de tubo porque, como disse o Rafinha Bastos em um evento da LG, é possível ver detalhes que não são vistos na de tubo. Já a TV 3D, o que tem de melhor que uma LCD ou LED? É mais divertida, só isso.

Mas isso não é questão de ser melhor e sim de ser percebida como melhor. E não acho que consumidores percebam esse novo recurso como algo muito superior do que eles já têm na sala de casa.

Eu acho que o 3D veio finalmente para ficar, mas não vai mudar a forma como assistimos televisão. Não nos próximos anos. Acredito que o 3D vai ser fantástico para a publicidade, ajudando as empresas a venderem mais e os consumidores a comprarem melhor através da realidade aumentada. Várias empresas já utilizaram o poder dessa tecnologia. Como a Lego e a loja de departamentos Macy’s que está estudando algo parecido com isso, um provador virtual, onde a pessoa é escaneada e vê como fica a roupa e cada tamanho, sem precisar tirar nenhuma peça. Acho que o 3D também vai fazer bonito nos games, contribuindo para aumentar a imersão no jogo. Mas quando diz respeito à assistir filmes e programas de televisão, acredito que o 3D deve continuar recluso a ocasiões especiais como alguns filmes, alguns shows, alguns jogos de futebol… ou você se sentiria à vontade com o William Bonner no meio da sua sala?

Update 02/07/10: “67% dos japoneses não se interessam por TV 3D que necessita de óculos”

Update 27/08/10: “Apenas 2% dos britânicos pensam em comprar televisor 3D”

Aqui vai uma polêmica: o Brasil é do jeito que é por causa de pessoas como Eike Batista. Eike tem grandes lições a nos ensinar. É um empreendedor nato, tem uma excelente formação, é eficaz, traz retorno aos acionistas e suas empresas saíram do zero para bilhões em poucos anos. Mas tem uma coisa que não devemos aprender com ele:  seu senso de filantropia.

Há uma diferença gritante entre empreendedores como Eike Batista e Bill Gates, por exemplo. Ambos se tornaram os homens mais ricos do mundo a partir de quase nada (embora tenham vindo de família de classe média e tiveram bom estudo) e se tornaram exemplos a serem seguidos. Um doa bilhões o outro nem 1 centavo.

Há uns três anos, li uma entrevista com o Carlos Slim. O primeiro a tirar o posto do homem mais rico do mundo de Bill Gates em quase uma década. Slim é um magnata das telecomunicações no México e é dono de muitas empresas, como NET e Claro, pra citar algumas. Voltando à entrevista, a repórter peguntava o que ele achava sobre responsabilidade social, se ele fazia algo e tal. O homem mais rico do mundo respondeu: “eu já ajudo empregando milhares de pessoas”. A pergunta é: quem está ajudando quem? Que escolha ele teria se não empregar pessoas, contratar robôs?

Eike Batista recentemente falou a mesma bobagem em uma entrevista concedida à Exame. Quando perguntado sobre o que ele iria fazer com sua fortuna de $27 bilhões de dólares, Eike respondeu mais ou  menos o seguinte “quando você cria empresas do zero, como são as minhas, você emprega muita gente… Essa é a minha contribuição com o meu país.” Em outro  momento Eike também diz que paga muito bem… Confesso que eu sempre admirei o Eike, mesmo antes da OSX (empresa de petróleo responsável por triplicar a fortuna de Eike), mas isso me fez pensar que o Brasil está mesmo lascado.

Enquanto o homem mais rico do Estados Unidos doa $3 bilhões por ano, Eike e Slim dão dinheiro em troca de trabalho.  Eike disse que prefere “dar a vara e ensinar a pescar”, contradizendo outra afirmação sua “só contrato os melhores”. Se ele contrata os melhores, alguém os ensinou a pescar, e não foi ele. Por que não investir em projetos de capacitação?

Enquanto Carlos Slim suga o México e a América Latina pagando salários medíocres, Warren Buffet planeja para onde vai sua fortuna de $44 bilhões após sua morte.

Todo mundo sabe que o Brasil não vai se tornar um país melhor só com a ajuda do Governo. Sem a iniciativa privada e a conscientização dos empresários, o Brasil vai demorar muito pra se tornar um país justo e que oferece oportunidade para a população. Desculpem-me se estou sendo idealista demais, mas fico triste quando vejo casos assim. Dizem que o que é dos outros é sempre melhor,  mas a culpa é toda nossa.

Note que eu disse sem gastar nada em propaganda, não em marketing. Tem muita gente aí usando marketing como sinônimo de publicidade, o que é um grande erro.

Eu sou publicitário de formação e talvez o único — que conheço — a defender a “não-propaganda”, uma espécie de movimento contra o paradigma de que só é possível aumentar vendas e fortalecer marca gastando rios de dinheiro em publicidade. É justamente por ter trabalhado em agência, e hoje em um grupo de comunicação, que sei o quanto as empresas investem errado em publicidade.

O que eu chamo de movimento (que está mais para uma filosofia) provavelmente surgiu com Al Ries e sua filha no livro “A Queda da Propaganda”, no qual, os Ries defendiam o uso do RP como a nova onda de marketing — assim como foi a propaganda na década de 60.

Lendo uns materiais, tive a (suicida) ideia de escolher 5 livros que dizem o que é preciso saber para se promover a sua empresa (ou seu trabalho ou mesmo você) sem gastar nada com agência, criação de peças e veículos de massa. A propaganda convencional ainda é fantástica, mas é apenas uma entre as inúmeras ferramentas que as empresas têm à  disposição.

Como disse Philip Kotler não muito tempo atrás, hoje não temos mais tempo para “preparar, apontar, fogo”, hoje é “fogo, fogo, fogo”. E a menos que a empresa tenha grana pra investir pesado em publicidade o tempo todo, é preciso descobrir outros meios de não cessar fogo. Vamos aos livros!

Blog Marketing

A importância: Disney, GM, Boeing e Microsoft são algumas das empresa que aprenderam a usar blogs a seu favor. Milhares de outras micro e pequenas estão utilizando a ferramenta para promover seus produtos e criar envolvimento com seus clientes atuais e futuros. A propaganda convencional é uma comunicação de uma via só, o blog veio pra mudar isso. Acrescentando a interação que faltava para criar um diálogo, fortalecer relações e obter feedbacks.

Twitter – influenciando pessoas e conquistando mercado

A importância: assim como no início dos blogs, o Twitter bombou na mídia especializada em negócios. 2009 foi definitivamente o ano em que o Twitter passou a fazer das estratégias e planos de marketing das empresas. O Twitter é uma ótima maneira de informar os consumidores das suas novidades, bem como mais uma forma de diminuir a frieza entre a marca e o consumidor. Se sua empresa ainda não deu bola pro Twitter, em breve os clientes podem não dar bola pra você.

Buzz Marketing & Ponto da Virada

A importância: a propaganda mais valiosa hoje é o boca a boca. Na era de blogs e Twitter, é muito fácil disseminar o seu produto ou a sua ideia. Peraí.. eu disse fácil? De fácil não tem nada, é difícil pra caramba! Mas esses dois livros dão dicas preciosas de como fazer as pessoas falarem de você.

Unleashing the Power of PR

A importâcia: embora não exista similar em português, o que você precisa entender é a ideia contida neste livro. Utilize mais relações públicas, procure fazer brechas para fazer seu produto obter mídia espontânea através de um bom RP. Uma alternativa para este livro é o já citado “A Queda da Propaganda”.

Estratégia Starbucks

A importância: não adianta querer estar na boca dos consumidores se não tem nada de bom a espalhado.  A importância deste livro está em criar uma experiência extraordinária para o cliente, e nada melhor que a Starbucks pra nos ensinar. Ao contrário de 100 anos atrás, as pessoas voltaram a fazer a diferença nas empresas, e essa é a receita de uma cafeteria que tem mais de 10 mil lojas espalhadas no mundo, colaboradores mais felizes do mundo e os clientes mais encantados que já ouvi falar.

Eu não trabalho por dinheiro!

18 de novembro de 2009 • TEMAS: Carreira / /

Sério. Se eu trabalhasse por dinheiro, estaria vendendo ônibus e caminhões (vocês não têm ideia da comissão desses caras). Obviamente, eu tenho que pagar contas, então eu também trabalho por dinheiro.

Dinheiro, dinheiro, dinheiro. É só que o que as pessoas pensam. Where’s the love? Eis o por quê o sonho de muitos jovens hoje em dia não é ter uma carreira de sucesso, mas passar em concurso público –seja ele qual for. Que bobagem a utopia da vida fácil no serviço público. Estabilidade profissional em troca da realização pessoal demonstra ser nada vantajoso quando o sujeito chega aos 40.

Talvez por nascer no auge da geração Y e ter pais que trabalharam a vida inteira para o Governo, felicidade e trabalho pra mim estão diretamente ligados. Impossível ser feliz trabalhando em uma empresa com valores diferentes dos seus, numa área que você não gosta ou em algo que você não acredita.

Nunca tive medo de mudar de emprego, de experimentar algo novo (desde que eu me interesse) ou de fazer o que eu acho certo — seja como o chefe pensar. Não tenho o perfil de funcionário modelo da maioria das empresas. Essa é uma das vantagens de se ganhar pouco (ou não o suficiente), você pisa mais no acelerador. Ser muito bem pago, em muitas empresas, requer que você agrade o chefe. E aí vem a questão: você trabalha por dinheiro? A maioria das pessoas que eu conheço sim. A maioria também lê menos de 5 livros por ano, não acompanha jornais nem lê artigos na internet. Bem, eu não seguiria essa maioria…

Eu trabalho em troca de realização profissional,  reconhecimento, aprendizado e por que não dizer por diversão? Vários amigos meus já me disseram que concordariam trabalhar em um lugar com salário menor, desde que fosse um ambiente agradável e pessoas bacanas.

Ainda não tenho que sustentar uma família, o que é bom, e posso me dedicar quase que integralmente à minha carreira. Eu escrevo de graça e o blog não me rende um centavo, pois esse nunca foi o objetivo. Aceito ser pago em e-mails de reconhecimento, que elogiam o blog e agradecem pelos artigos.

Chegará o dia que eu realmente precisarei trabalhar por dinheiro, mas até lá, eu espero ter trabalhado o suficiente para alcançar o lugar que todos, sem exceção, buscam. Trabalhar fazendo o que se gosta e ser bem pago por isso.

Não entenda isso como  uma crítica ou juízo de valor. Eu realmente admiro quem consegue trabalhar no que não gosta pelo dinheiro. You are my heroes! Eu não sou o melhor, mas estou certo de que só pensando assim, um dia posso me tornar o melhor.

Quando a Asus lançou seu Eee PC (o 1º netbook do mercado), dois anos atrás, eu imagino que ela tinha um objetivo muito claro, do tipo “criar um produto para o consumidor final”. [A ASUS sempre foi uma fabricante de componentes, ou seja B2B.] Muito antes de 2007, a Asus já era uma fabricante de hardware respeitável e sinônimo de qualidade quando se falava em placas-mãe. Basta dizer que se seu computador não tivesse uma placa-mãe ASUS, ele não era tão bom assim. De fato, a Asus acertou em cheio quando lançou o Eee PC — que o mundo todo viria batizar de netbooks.

Quando uma empresa lança um produto de sucesso, não necessariamente significa que esse mercado terá sucesso. A concorrência imita, isso faz parte do jogo, mas geralmente a nº1 é quem rege a orquestra.  No entanto, todos estão abocanhando uma considerável fatia desse mercado e a ASUS está perdendo mercado.  Nos EUA, ela ocupou o melhor lugar na mente dos consumidores, a de Nº1, e como só existe mais um lugar sobrando (segundo os ensinamentos de Al Ries), as demais marcas estão numa guerra selvagem. E o pior: canibalizando as já consolidadas vendas de laptops.

Em 2007, foi vendido somente 1 milhão de unidades. Esse número aumentou 14 vezes no ano passado e tende a dobrar em 2009. No entanto, eu acredito que esse número deva chegar ao limite mais rápido do que se imagina.

Os netbooks estão em algum lugar entre um celular e um laptop. Mas peraí, esse não é o mesmo lugar dos smartphones? Os smartphones cresceram 12,7% no primeiro trimestre deste ano, os netbooks 40% e laptops 22%, mas é difícil acreditar que as pessoas tenham os três. As pessoas compram smartphones porque querem receber e-mails, navegar na internet e abrir planilhas. Compram netbooks porque querem usar mensagens instantâneas, navegar por mais tempo na internet e usar recursos básicos de multimídia — mas também querem uma tela maior. Uma tela maior não é diferencial bastante pra sustentar esse mercado. Tanto smartphones como netbooks são computadores que eu chamo de “monotarefas”, ou sejam você usa uma coisa de cada vez.

Existe laptops de 12 pol. com duas ou três vezes mais potência e capacidade que os netbooks. Mas aí você pode pensar “são muito caros”. Sim, são. Mas quem realmente precisa de tanta mobilidade assim? Executivos, empresários, produtores… esses caras são o público de smartphones e laptops ultra-compactos. Não de netbooks.

O netbook não é um produto que já nasceu morto, ele tem seu espaço, mas exceto pela Asus, eu não acho que alguma marca conseguirá se consolidar nesse mercado de nicho. Talvez focando no público de baixa-renda. Mas o desempenho fraco –similar a um celular de última geração—não substitui um PC Desktop ou laptop. Tão logo os consumidores descubram que a tela minúscula, teclado mínimo e processamento medíocre é o mesmo dos celulares modernos e que não substituem o computador convencional, o segmento morrerá. O netbook é um produto muito pequeno para um mercado tão grande e com tantos monstros tecnológicos.

*UPDATE 1 *(08/12): Conheci 3 pessoas que possuem netbooks e 2 me disseram que jamais comprariam de novo. Também perguntei a algumas pessoas se elas comprariam e a grande maioria me disse “acho que não”.

**UPDATE2* (08/12): Encontrei uma utilidade. Vi bares e restaurantes agilizando seus processos através do uso de netbooks. Como acontecia com PDAs pouco tempo atrás.