Se você está por fora do mercado de games atual, saiba que videogames não são mais aquelas caixas de plástico que se conectavam à TV, era comandado por 2 controles de poucos botões e os jogos, de aparência infantil, eram curtos e simples. As coisas mudaram muito desde então. Quero dizer, ainda é feito de plástico e ainda se liga à tv, mas são as únicas semelhanças com aquele brinquedinho de criança chamado videogame.
Hoje, está mais para o que a Microsoft chamou de “centro de entretenimento”. Eles armazenam músicas e videos, possuem alto poder de processamento (já foram usados pela ciência), dispositivo Wi-Fi, baixam filmes via NetFlix, acessam Twitter, Facebook e MSN. Não é à toa que empresas de fora da indústria de games resolveram entrar nesse mercado. O sucesso do PlayStation tem salvo a Sony de resultados negativos. O mercado ficou muito mais maduro, criando nichos de mercado e necessitando de uma estratégia realmente sólida para obter sucesso em um mercado tão caro como esse. O Nintendo Wii fez adultos e mulheres que nunca foram fãs de games terem um no rack da sala. O Kinect, da Microsoft, se tornou o gadget vendido mais rapidamente da história. Em 2007, a indústria de games superou a de cinema e, no Japão, superou até a automobilística. Isso sem o gigantesco mercado da China, onde games atualmente são proibidos. É quase impossível imaginar o quanto esse mercado crescerá quando a China legalizar videogames por lá.
Com o amadurecimento da indústria e entrada de mega-corporações nesse mercado, um novo perfil de consumo ocupou lugar. Enquanto antigamente o público era basicamente composto de crianças e jovens, hoje não há barreiras. Seja na sala de casa, no smartphone ou em um notebook, centenas de milhões de pessoas estão jogando. Mas será que videogames são mero entretenimento vitual ou podem nos ajudar a lidar com problemas na vida real?
Uma das poucas lembranças que tenho da minha infância é de jogar Pitfall no Atari com a minha irmã e morrendo 200 vezes antes de passar de uma fase. Eu não sabia, mas 20 anos depois eu ainda estaria jogando videogame. Não mais com a minha irmã, mas com a namorada, colegas de trabalho e até com pessoas que eu nem conheço — via internet. Não depois da escola, mas depois do trabalho. E ao invés de algumas horas por dia, apenas algumas horas por semana. Com videogames tão presentes na minha vida desde criança, eu comecei a me perguntar se eles tiveram alguma participação no meu desenvolvimento pessoal. Nunca tive certeza, mas de um tempo para cá mais indícios têm surgido para sustentar essa teoria.
No começo da minha adolescência, eu me viciei em um jogo de estratégia chamado Age of Empires. Não demorou muito até eu me interessar por idade medieval, civilizações antigas e grandes batalhas. De lá pra cá, vieram Age of Empires 2, Age of Empires 3, Medieval Total War e outros como SimCity (onde você tem que gerir uma cidade). Na faculdade, conheci o verdadeiro lado da estratégia. Coincidência ou não, essa é uma das áreas que mais me fascina. Sempre achei o máximo ser responsável pelo futuro de uma cidade, um povo ou uma vida. Ainda hoje, meus games favoritos são os que oferecem a maior liberdade possível.
O que a ciência diz
Recentemente, cientistas descobriram que jogar Tetris aumenta a massa cinzenta do cérebro, especificamente o córtex central — responsável pelo planejamento de movimentos complexos e coordenados, bem como pela integração multisensorial entre visão, tato, audição e informação fisiológicas internas. Existem uma porção de jogos estilo Tetris, que estimulam várias áreas do cérebro, deixando você mais “afiado” em certas coisas.
Para tentar responder essa questão e aprender a utilizar os videogames a nosso favor, Jane McGonigal lançou o livro “Reality Is Broken”. Jane diz que psicólogos chamam de “recompensas intrísecas” as habilidades que as pessoas desenvolvem ao jogar games. Como uma melhor capacidade de planejamento ou coordenação motora. A autora defende também a ideia de que os gamers lidam melhor com o fracasso, pois estão acostumados a lidar com eles no mundo virtual (quem tem mais de 25 anos sabe que alguns jogos de antigamente eram quase impossíveis). Além disso, gamers têm mais probabilidade de persistirem em busca de seus objetivos de vida e são mais resilientes.
Abaixo um trecho do artigo da autora publicado no The Washington Post:
“Quando nós jogamos, temos um senso urgente de otimismo. Nós acreditamos do fundo do coração que estamos preparados para qualquer desafio, e nos tornamos fortemente resilientes ao se deparar com o fracasso. Pesquisas mostram que gamers passam em média 80% do tempo fracassando no mundo dos games, e em vez de desistir, eles persistem na dificuldade e usam o feedback do jogo para melhorar. Com alguma dedicação, nós podemos aprender a aplicar esta resiliência aos desafios do mundo real que encontramos.”
Definitivamente, videogame não é coisa de criança. É um mercado consolidado e que rende bilhões de dólares todos os anos, gera milhões de empregos direta e indiretamente, e ajuda a economia a crescer. Assim como beber vinho, jogar videogame é uma daquelas coisas que requer moderação para se obter o benefício. Rola muita polêmica sobre a influência dos jogos violentos em certas pessoas. Não cabe essa discussão aqui. Mas assim como o vinho que você bebe e a comida que você come, é preciso saber escolher e ter a cabeça no lugar.