Você está em ‘jornalismo’

Algum dia, não muito distante de hoje, você chegará no seu trabalho deixará a pasta na mesa, se servirá de um café bem quente e pegará seu jornal para ler. Não um maço de papel de 2kg, mas um dispositivo eletrônico de 1cm de espessura — provavelmente flexível — que automaticamente terá feito o download da edição mais recente do seu jornal favorito via rede 3G.

Eu nunca acreditei no fim dos jornais até ter um estalo no meio de uma reunião ao ouvir a frase “o jornal pode não existir mais em 10 ou 15 anos”. Esse não é um assunto exatamente novo, ouço isso desde antes de entrar na faculdade. Mas o estalo rapidamente inundou minha mente com imagens de pessoas lendo jornais em iPads, Kindles, Nooks e QUEs. Pela primeira vez, eu consegui enxergar o fim do jornal.

Não apenas o jornal que está ameaçado. Mas a mídia impressa e livros como um todo. No começo da semana, a loja virtual mais famosa do mundo, Amazon, anunciou que vendeu mais livros digitais do que capa-dura (formato padrão nos EUA). A proporção foi 180/100. Ou seja, pra cada 1 livro impresso, foram vendidos quase 2 em formato Kindle. E olha que o aparelho está longe de ser popular, estima-se que até 2009 tenham sido vendidos “apenas” 3 milhões. A título de comparação, o iPhone4 vendeu isso em 3 semanas.

Há exatamente três anos, ZERO era o número de readers no mercado. Eu me refiro a um bom reader, não protótipos fracassados. Os números de hoje são bem diferentes e ajudam a explicar porque só agora eu consegui ver a extinção do jornal de papel (e talvez revistas).

  • Kindle: 3 milhões vendidos em até 2009
  • Kindle DX (última versão lançada): ZERO em estoque 1 mês depois do lançamento
  • iPad: 1 milhão de unidades vendidas em 28 dias
  • Nook: 300 mil unidades é a quantidade aproximada que a livraria Barnes&Nobles deve ter vendido do seu leitor nos primeiros 4 meses de vida

Com a exceção do iPad, todos os outros leitores esgotaram seus estoques no lançamento. E só não aconteceu com o aparelho da Apple, porque a empresa de Steve Jobs sabe como se preparar para uma grande demanda .

Tablets (iPad) e readers (Kindle) estão prestes a entrar na vida das pessoas como mp3 players e notebooks fizeram anos atrás. É um grande mercado e empresas gigantes como Sony e Cisco estão se preparando para entrar na briga. O iPad tem se mostrado uma ótima ferramenta de trabalho e o Kindle uma verdadeira biblioteca. No entanto, eles são as estrelas do mercado, ainda são caros e possuem pouco conteúdo em português disponível. Mas isso está prestes a mudar.

Dentro de 10 ou 15 anos, todos nós teremos nossos próprios readers; cafés, consultórios e empresas disponibilizarão os aparelhos para uma leitura rápida e o papel não mais será um elemento essencial para a nossa vida. Da mesma forma que cartas viraram e-mails e documentos  saíram das pastas para dentro do computador. Isso não é o fim da indústria (embora seja o fim das bancas de revistas, sorry guys), o jornal não vai acabar, vai apenas mudar para um modelo que há muito tempo se fala, mas que nunca ninguém viu.

Este jornalista de cabelo desgrenhado e longe de ser um guru, se tornou o segundo mais influente sujeito do mundo dos negócios em 2009, a frente de nomes como Steve Jobs, Michael Porter e Philip Kotler. Sua experiência de jornal – ex-Washington Post e atualmente no New Yorker torna os livros de Gladwell um grande sucesso, alcançando facilmente o topo dos livros mais vendidos.

Depois de Blink, Ponto-da-Virada e Outliers, em 2009 lançou “What’s the Dog Saw” que traz diversas histórias muito ricas e divertidas sobre o comportamento humano.

Pela influência que Malcolm Gladwell exerce no mundo hoje, resolvi traduzir esta entrevista concedida à revista britânica New Statesman.

Você tem escrito sobre praticamente tudo, de sala de aula à ketchup. Havia ou há um plano?
Eu tenho uma vaga idéia de onde estarei na terça, mas além disso é um pouco vago. Planos são uma maneira de se sentir melhor, eles não têm nenhuma função a não ser que você trabalhe no departamento de planejamento urbano.

Será que planejamento poderia prejudicar o seu jeito de escrever?
Sim. Descobrir coisas ao acaso é muito importante. O universo das coisas que não conhecemos é muito maior do que das coisas que conhecemos, e há benefícios em não seguir um caminho reto.

Como é ver seus ensaios do New Yorker juntos em uma coletânea.
Faz-me sentir velho. É bom ver que eles ainda são bons de ler; parece que faz tanto tempo que os escrevi.

Existem tantos formas de publicar trabalhos jornalísticos hoje em dia. Você se preocupa com o futuro?
Isso valoriza ainda mais, não é? Storytelling é uma necessidade humana. Eu não me preocupo com o New Yorker, me preocupo com os outros lugares. Mas é só um modelo de negócios. Eu estou mais preocupado com lojas que vendem fitas de vídeo, que não conseguem gerar demanda.

Como você lida com os críticos que dizem que você simplifica ou rouba idéias acadêmicas?
O meu livro Outliers assume uma posição bem clara nessa discussão, então os extremistas de QI dizem que estou errado. Mas tudo bem. Eu me vejo como RP do departamento de sociologia e psicologia. E esse é o papel que eu desempenho sem muito apego. Então, talvez esses críticos existam, mas ninguém nunca veio e me disse que está insatisfeito.

Você tem escrito bastante sobre herança cultural e racial. Isso não é um terreno perigoso?
Se você acredita em cultura, você tem que levar a sério, não pode apenas ignorar. Eu não acho perigoso se você usa pra entender o que faz as pessoas serem como elas são. Você tem que ter cuidado, mas é muito mais perigoso fingir que cultura não existe.

A sua cultura é um pouco jamaicana, inglesa, canadense e americana. Como isso influencia você?
É muito mais fácil falar sobre cultura se você é meio negro, e isso aumentou o meu interesse. Mas meus pais são bem parecidos, os dois tiveram educação de classe-média, são evangélicos, tem descendência inglesa, um de uma família branca e o outro uma versão jamaicana.

Quem são seus heróis?
Eu tenho heróis, mas eles não são muito relevantes no meu trabalho. Existem influências cruciais do meio acadêmico. E eu li muitos livros de investigação (ficção). Eu estou no ramo de storytelling de negócios, mas você pode aprender um monte lendo ficção, autores como Iain Pears, Michael Lewis ou Janet Malcolm.

(A entrevista vai pro lado da política, pouco interessante pra quem não mora nos Estados Unidos…)

O Jornal eleitoral

3 de outubro de 2008 • TEMAS: Propaganda / / / /

A reputação é para um jornal o que a segurança é para os carros. a coisa mais importante do negócio. Aonde foi parar a reputação deste jornal?

E mais, se a capa de um jornal é como a embalagem de um produto. A principal coisa que deveríamos ver é o seu conteúdo.

E esta foi a edição de hoje do ZH: