Você está em ‘filmes’

De tudo que se ouviu no Brasil sobre a Crise que atingiu os Estados Unidos em 2007/2008, nada chegou perto da realidade. É o que mostra o excelente filme “The Company Men”. A crise que dizem os especialistas ter começado no ramo imobiliário (muito forte nos EUA) pela grande facilidade com que se concedia crédito; atingiu todo o país, afetou todos os setores da economia e elevou a taxa de desemprego para um nível maior que a de países subdesenvolvidos.

Você pode ser o jovem mais talentoso da empresa, o mais antigo executivo ou amigo pessoal do presidente; isso não lhe garante segurança.

Eu comecei a blogar em 2008 e lembro da quantidade de artigos que via sobre carreira, desemprego, networking, recomeço e coisas do tipo. Em uma grande crise como essa, ninguém está seguro. Até presidentes e CEOs podem cair se não souberem satisfazer os acionistas. Para evitar que isso aconteça, muitos vestem a camisa dos acionistas e jogam contra seus funcionários, preferindo diminuir custos de pessoal do que de novos empreendimentos ou algumas operações. Isso culminou em uma grande revolta do povo americano, quando os ganhos anuais de vários executivos foram divulgados; mostrando valores maiores do que antes. Ou seja, alguns ganhavam fortunas enquanto muitos estavam vendendo tudo que tinham. Mas como o filme faz questão de enfatizar um pensamento comum de alguns homens de negócios: “são negócios, não caridade”.

Milhares de pessoas eram demitidas das empresas de uma vez só, sem um critério definido e, às vezes, até sem o conhecimento do seu superior direto. Como o volume de pessoas era muito grande, as empresas criavam “departamentos” onde os ex-funcionários poderiam trabalhar em busca de uma nova colocação profissional, incluindo cursos e salário por um tempo determinado. O problema é que a maioria não conseguia um novo emprego nesse. Quem não era altamente qualificado tinha poucas chances e  os  que tinham ótimos currículo precisavam se submeter a salários bem menores — o que sua falta de humildade não permitia. Um diálogo do filme que ilustra bem a arrogância desses profissionais, entre o protagonista Ben Affleck e sua esposa:

— Preciso parecer bem-sucedido. Não posso parecer como qualquer idiota com currículo.

— Você é um idiota com currículo!

A lição

Ser demitido é capaz de levar a auto-estima ao nível mais baixo possível.  Quando é de uma empresa na qual você  dedicou 10 anos da sua vida, é difícil se reerguer, principalmente se você é um alto executivo. Mesmo sem emprego, esses profissionais insistem em viver uma vida que não é mais real, por isso escondem da família (o quanto podem), dos amigos e vizinhos, continuam frequentando os mesmos lugares, consumindo os mesmos produtos e sem cortar gastos domésticos.

Términos geram medo porque marcam o início de uma nova etapa. E mudanças geram medo. Nem tudo é sobre dinheiro, o recomeço é algo realmente assustador. Mas ele faz parte da vida. Querendo ou não, você será forçado a mudar várias vezes durante a sua vida adulta. Esse número aumenta consideravelmente se você está no mundo dos negócios. 4 anos atrás eu não tinha um blog, era recém-formado, morava em outro estado na casa dos pais e ainda era um garotão.  Mudar para mim significa evoluir, se o ano acaba sem pelo menos duas pequenas mudanças, sinto que não me esforcei o suficiente.

Economistas acreditam que crises tornam os consumidores melhores, fortalecem marcas e que são o melhor momento para inovar (embora não pareça). Nunca li nada sobre como crises podem melhorar a carreira, mas uma vez que é preciso um esforço colossal para se manter no mercado, isso é algo evidente. Acontece que em uma forte crise, um bom currículo, networking e auto-confiança não são suficientes, é preciso ter também muita humildade, insistência e fé. Mas acima de tudo existe uma coisa ainda mais valiosa: coragem para recomeçar.

300509_futebol_clough Basta dar uma passada na seção de drama de uma videolocadora pra ver a quantidade de filmes sobre superação nos esportes. Técnicos durões, que no começo dão raiva, mas no final levam o timeco que nunca ganhou nem jogo de bairro a vencer o campeonato estadual ou nacional. Mark Ritson comentou sobre o filme The Damned United (que pela nota 8 no IMDB deve ser muito bom), que conta a história de Brian Clough e sua passagem relâmpago pelo time de futebol da cidade de Leeds. Brian era daqueles técnicos difíceis de engolir, mas conseguiu o feito inédito de levar outro time, o Nottingham Forest, à conquista do campeonatos Inglês, Liga Inglesa, Supercopa da Inglaterra, Copa do Campeões por dois anos consecutivos e Supercopa Européia. Tudo isso entre 1978 e 1980.

Em seu artigo, Ritson comentou 4 fundamentos que levaram Clough ao sucesso com o time de Nottingham: Manter as coisas simples, Escolher um inimigo e Engajamento. O 4° em específico me chamou atenção: O que você tem, não o que falta.

Se você for gastar seu expediente pensando o que seu concorrente faz de melhor, saiba que ele estará gastando o mesmo tempo para fazer ainda melhor e deixar você ainda mais pra trás. Da mesma forma, reclamar da incompetência dos funcionários não leva a lugar nenhum. Incompetente é aquele que gere um departamento sem conhecer todo o potencial—de seus funcionários. Eu aprendi que as pessoas são capazes de se superar quando recebem motivação na dose certa.

Brian Clough não gastava pensando coisas do tipo “ah, se eu tivesse um atacante bom de cabeça”… ele simplesmente trabalhava com o que tinha nas mãos. Detectava os pontos fortes e fracos de seus jogadores e trabalhava em cima disso. O próprio técnico diz: “Eu acreditava que podia tirar o máximo deles. Eu nunca fantasiava sobre o que faltava neles”.

Esse é um valioso conselho pra todo gestor e também para gerentes e analistas de marca e produto. Muitas empresas tem sérios problemas de auto-estima, se consideram inferior e por isso se comportam como inferior, utilizando estratégias “eu-também”—baixando os preços e tentando parecer o máximo com o concorrente. Acreditar que o seu produto pode ser bom o suficiente para disputar com uma Unilever é o primeiro passo para chegar lá.  Vemos isso o tempo todos em filmes —baseados em fatos reais—, o Nottingham Forest era um time da 2ª divisão que conseguiu ganhar do Real Madrid por 4 a 1.

A bolha estoura de dentro

29 de setembro de 2008 • TEMAS: Carreira / /

Um filme que retrata as angústias e temores de forma visceral e incontida de um jovem executivo promissor. É assim que descrevo o filme August, com Josh Harnett. Achou minha descrição um tanto obscura — ou enfeitada? Então assista o filme.

Neste momento deixo de ser apenas crítico e me torno crítico DE cinema…

O filme não tem exatamente um enredo, ele tem cenário, personagens e um contexto interessantíssimo — além de palavrões. Tom Sterling junto com seu irmão, abriu um portal quando o negócio mais promissor do mundo era a internet, a famosa bolha da internet . Assim como muitas outras empresas entre 1996 e 2001, sua empresa cresceu rápido  e chegou a valer quase 400 milhões de dólares na Nasdaq — e assim como muitas dessas empresas, elas quebraram tão rápido quanto cresceram. A de Tom estava muito perto disso. O filme se passa em um momento crítico para os EUA, algumas semanas antes dos ataques de 11 de setembro e bem no meio da tempestade causada pelo estouro da bolha. Em outras palavras, o mercado estava um caos!

Tom é um jovem CEO de lábia e colhões de aço, conquistador e de pulso forte, ainda jovem experimentou o que é valer milhões. Seu talentoso irmão, junto com outros dois jovens executivos, compõem a parte prudente e profissional da empresa, que vinha enfrentando crises e mais crises com o declínio de suas fontes de renda, sem saber o que fazer, Tom enfrenta todos os tipos de dificuldades, profissionais e emocionais.

Daqui pra frente, o filme é inexplicável. Não necessariamente bom, mas vale assistir pelo contexto e diálogos interessantes. O que eu consegui extrair do filme é que assim como uma pessoa pode construir uma empresa, ela pode destruir. Atente para o seu jeito, seu comportamento, meça suas palavras; em suma, seja profissional. Você pode ter muito talento, mas ninguém está disposto a aturar sua arrogância em troca dele.