Você está em ‘empregos’

Pra que serve o seu emprego?

16 de março de 2010 • TEMAS: Carreira / Filosofando /

Conheço duas pessoas que recusaram empregos em duas grandes empresas brasileiras. Talvez isso não fosse grande coisa se ambas não tivessem 20 e poucos anos e trabalhassem em pequenas empresas. Dois jovens profissionais muito bons no que fazem e que, certamente, teriam crescido dentro dessas empresas se tivessem aceitado a proposta.

Mesmo tomando a mesma decisão, o motivo foi diferente. Aliás, os dois são bem diferentes no que diz respeito a formação acadêmica, cultura, objetivo profissional e até estado civil. Enquanto um deles não aceitou por ter que ganhar menos (mesmo tendo grande chance de crescimento), o outro recusou um alto salário (e grande chance de crescimento) pra continuar perto da família e dos amigos.

Esses 2 casos me marcaram, talvez porque são de pessoas próximas a mim, ou talvez porque eu agisse completamente diferente se estivesse na pele deles. Seja qual for o motivo, isso me faz refletir toda vez que penso na minha carreira.

Uma coisa eu sempre tive bem claro: um emprego não é só um contra-cheque feio ou bonito  no final do mês. Também não é um chefe que pega no seu pé, um colega fofoqueiro, ou um cargo que lhe obriga fazer sempre a mesma coisa 365 dias por ano. Um emprego é algo que lhe projeta, de alguma forma o ajuda a alcançar seus objetivos. Qualquer outra coisa é perda de tempo.

Elaborando a minha velha teoria, esbocei três coisas que considero vitais para saber se estamos no lugar certo ou só perdendo tempo:

O que você pode aprender
Esse talvez seja o item de maior peso no começo da carreira de todo mundo e é justamente por negligenciar ele, que muitos jovens profissionais nunca chegarão “lá”.

O que a empresa onde você trabalha pode te ensinar? Algumas oferecem cursos de graça, parcerias com instituições e treinamentos que podem tornar seu currículo mais atraente. Mas bom mesmo é ter a oportundiade de trabalhar com um grande profissional que pode lhe passar um pouco da experiência e do conhecimento dele. Isso não tem preço.

Pense em como você poderia aprender mais na sua atual empresa, com os clientes e com os fornecedores dela. Nem que precise trocar de área ou de função. Na pior das hipóteses, você muda de emprego.

Aonde ele pode te levar
Quando estava no 3º ano da faculdade de propaganda decidi que não queria trabalhar com propaganda.  Dois anos depois, estava eu sentado com o meu dupla pensando em ideias para uma campanha de natal.

Alguns anos e umas agências depois, comecei a trabalhar com marketing em  uma grande empresa. Tudo que eu queria! A questão aqui é: um emprego pode não te ensinar nada de novo, pode pagar mal, mas te levar ao emprego que você sempre quis.

Talvez o melhor fruto que um emprego pode render sejam os relacionamentos. Colegas de trabalho viram amigos da família, clientes tornam-se patrões, fornecedores formam sociedades com ex-funcionários. No mundo dos negócios, tudo é possível e até o impossível depende de você. Trate bem as pessoas, se dedique, ensine e deixe-se ensinar.

Sacrifício exigido
Grana! Vamos falar do que realmente importa pra maioria: dinheiro. A primeira que pensamos quando surge uma nova oportunidade de emprego é “qual é o salário?“, mas quase ninguém pergunta “vou ter que fazer muitas horas extras?”, “posso desligar meu celular nos finais de semana?”, “vocês pagam hora extra ou dão folga?”.

O sacrifício é qual é o preço que se paga pelas vantagens que ele oferece. Por exemplo, um grande amigo uma vez conseguiu um estágio na famosa agência DPZ. Ele já era um publicitário cobiçado na sua cidade de origem e ganhava bem para os padrões. Também ganhava pequenos prêmios por onde passava. Entrar para uma agência grande é o sonho de quase todo jovem publicitário. Também era o dele até começar a trabalhar em  uma. Ele aprendia muito, tinha grandes chances de crescer, mas o sacrifício exigido era enorme. Trabalhar aos sábados, sair de madrugada da agência e  ganhar o mini-salário de estagiário foi demais para ele. O mesmo acontece quando se tem um salário alto, na maioria dos casos significa sacrificar momentos com amigos e a família. Por isso, cada vez mais executivos estão trocando grandes empresas por empresas menores, flexíveis e com salários modestos.

O quanto sacrifício você pode suportar depende de cada pessoa. Basicamente, da situação financeira, dos planos e projetos pessoais e profissionais. Uma vez li uma matéria com uma mulher que trabalhava só para viajar. Obviamente, ela também pagava contas, mas passava 2 anos juntando dinheiro para viajar para países diferentes. A tendência é que quanto maior o objetivo, mais alto seja o sacrifício que a pessoa esteja disposta a fazer.

O que você pode aprender hoje, aonde ele pode te levar amanhã e o quanto você está disposto a sacrificar para chegar lá?

As três coisas dependem de você. Nenhuma empresa vai se oferecer para treinar você, nem vai te ajudar a conseguir os contatos certos para o futuro, tampouco oferecer um aumento pra assegurar que você nunca deixe a empresa. Tudo depende de você, dos seus objetivos e da sua disposição.

Se não fosse por duas coisas, talvez eu nunca tivesse dado chance ao filme Amor Sem Escalas. Mas o fato dele estar concorrendo ao Oscar de melhor filme e ter sido indicado pelo Carlos Faccina despertou a curiosidade que eu precisava.

Pra começar, Amor Sem Escalas não é uma comédia romântica, de amor não tem nada. O título original é Up In The Air. O filme dirigido pelo diretor dos bem-sucedidos “Obrigado Por Fumar” e “Juno” retrata a realidade econômica norte-americana desde a chegada da crise do mercado imobiliário e suas consequências catastróficas para a economia mundial.

O filme gira em torno do desemprego, mas tem uma mensagem mais profunda. Bingham — o personagem do George Clooney — é um executivo responsável por demitir pessoas de empresas cujos chefes não têm coragem de fazer. Então, o filme é cheio daqueles discursos prontos de RH e reações inesperadas de funcionários demitidos. Aliás, muitos dos “atores” não são atores, são pessoas demitidas recentemente de verdade.

Como  muitos podem imaginar, Bingham é um cara frio que passa 320 dias do ano entre aeroportos, hotéis e empresas. Não pensa em ter família, tampouco filhos. Mas em vez de frieza, prefiro chamar de desapego.

Quem nunca conheceu uma pessoa que morreria se perdesse o emprego? Que sentiria vergonha de contar pra família e amigos que foi demitido? E que ficaria perdido ao levantar de manhã sem ter que ir pro trabalho?

Esse tipo de desapego é saudável e no decorrer do filme você percebe que o real trabalho de Bingham é mostrar às pessoas que deixar a empresa depois de 15 anos é uma oportunidade de retormar projetos, experimentar coisas novas e ir atrás de sonhos deixados para trás. Amor Sem Escalas é um filme sobre recomeço, sobre encontrar motivação para continuar a vida mesmo quando o maior de todos os medos vira realidade: o desemprego.

Para terminar, quero transcrever os minutos finais do filme com depoimentos de algumas pessoas reais:

Quando acordei, olhei pro lado e vi minha esposa, isso me deu motivação (…)  Não é sobre dinheiro. O dinheiro te mantém aquecido. Pagar suas contas de luz. Poder comprar um cobertor. Mas nada me mantém mais aquecida do que quando meu marido me abraça. Fazem com que eu me levante, que saia, que procure alguma coisa. Pois meus filhos são a minha motivação. Minha família (…) Esta noite, a maioria das pessoas chegará em casa com cães pulando e crianças gritando. As esposas perguntarão como foi o dia e à noite todos adormecerão. As estrelas sairão de seus esconderijos diurnos. E uma delas, a mais brilhante de todas, será a ponta da minha asa passando por cima.”

Game tester o emprego perfeito

Quando criança, eu queria ser piloto de avião ou policial até eu descobrir que podia ser ambos — sem arriscar a minha vida — jogando videogame. Então, trabalhar jogando games passou a ser meu emprego dos sonhos, e assim foi durante muito tempo. Até eu cair na realidade e perceber que tudo não passava de um sonho mesmo, como ter super-poderes ou ser criança pro resto da vida.

Folheando o Zero Hora de ontem, vi o anúncio (acima) da Ubisoft contratando game tester em Porto Alegre. Por um minuto, me senti tão perto daquele sonho de infância. Mas a realidade resolveu atrapalhar novamente. O anúncio requisitava SVN, conhecimento básico em regressão, smoke usability, experiência em planos de teste, bug-track tools! Que raios é tudo isso? Tudo que a realidade me forneceu foi a paixão por games e boa comunicação em inglês. Isso deveria ser o bastante. Pelo visto, só nos meus sonhos mesmo…