Após um comentário sarcástico durante uma discussão com a sua mãe em pleno jantar, o pai do jovem Bill coloca um ponto final com um copo d’água. “Obrigado pelo banho, pai”, o garoto reclama. Essa fora uma das poucas vezes que (William) Bill Gates pai excedera sua personalidade calma.
No livro que saiu semana passada nos Estados Unidos, William Gates (que no alto dos seus 83 anos tem até perfil no Facebook) relata pela 1ª vez histórias de sua família e como seu filho parece ter adquirido um intelecto quase da noite para o dia — entre os 11 e 12 anos de idade.
O equilíbrio entre disciplina que sempre foi obrigado a ter e a liberdade precoce que logo teria, moldariam a personalidade vencedora de Bill. Se você concordar comigo que a melhor mãe é aquela chata, então Mary Gates era uma mãezona. Ela queria que o filho estivesse sempre bem vestido, fosse pontual, mantivesse o quarto organizado e que falasse com as visitas de casa. “Ela era a mais dedicada e tinha grandes expectativas de todos nós. Não apenas em notas, mas como nos comportávamos em público e quão sociáveis éramos”, diz Libby, irmã mais nova de Bill Gates.
Aos 11 anos, o pequeno Bill floresceu intelectualmente, questionando os pais sobre relações internacionais, negócios e a natureza da vida. Essa foi a época em que começaram os grandes conflitos com a sua mãe, antes disso, Gates era uma família muito unida, sem discussões e movida a jogos como ping-pong, cartas e jogos de tabuleiro. Essa foi a época em que Bill Gates deixou de ser uma criança.
Logo começou a realizar atividades outdoor — acampar, escalar e andar pela mata — com o vizinho e seus dois filhos. Quem já mochilou, sabe a incontrolável sensação de liberdade que nos dá, imagine isso num esperto e astuto garoto de 12 anos. Os Gates afrouxaram as rédeas, dando mais liberdade e investindo no seu já inteligente filho, inclusive matriculando-o na escola privada Lakeside School, onde ele teve contato com computadores pela 1ª vez.
Aos 13, Bill dormia fora de casa para usar os computadores na universidade de Washington. Foi questão de tempo para passar cada vez mais tempo longe de casa e experimentar novas experiências como morar em outra cidade pra estudar como ouvinte. Durante seu último ano, Bill deu um tempo na escola para trabalhar como programador. Foi quando conheceu Paul Allen (co-fundador da Microsoft) — a título de curiosidade, Bill criou um dispositivo que contava o número de carros que passavam em determinados trechos da rodovia. Anos depois, Bill largaria Harvard e passaria a trabalhar na garagem de sua casa, em outra cidade. Já com a Microsoft, Bill levou seu pai para uma reunião com o colega Steve Ballmer (atual CEO da Microsoft), o objetivo: persuadir Steve a largar a universidade também.
Sua mãe novamente teve um papel fundamental na vida de Bill Gates, foi a partir da insistência dela que surgiu a fundação Bill & Melinda Gates — onde pai e filho trabalham juntos hoje. Com tanto dinheiro, Mary insistia que o filho deveria “dar” parte da sua fortuna. No entanto, Bill dizia que devia se concentrar na Microsoft e que isso era coisa pra quando ele se aposentasse. Conforme a Microsoft crescia em Seattle, inúmeros pedidos de doações locais chegavam a Microsoft. O assunto ficou mais sério quando Mary Gates foi diagnosticada com um tipo raro de câncer. Durante o tratamento, Mary insistia sobre filantropia. A mãe de Bill Gates veio a falecer em 1994; uma semana depois, Bill destinou $100 milhões para criar a Bill & Melinda Gates Foundation — onde seu pai e sua esposa trabalharam desde o começo e se dedica em tempo integral hoje. Sua primeira doação foi de $80 mil para um programa local contra o câncer.
A lição
A vida do criador da Microsoft não foi muito diferente das de muitos de nós. Ele brigava com as irmãs, questionava ordens da mãe, não recebia muito carinho do pai — quase sempre ausente. Por outro lado, a família se mantinha unida, cobrava disciplina e estimulava o convívio social do pequeno Bill que parecia se interessar mais por livros do que por amigos. Mary Gates não queria ver seu filho estudando o dia todo, ela sabia que ele precisava adquirir boas habilidades sociais para ter uma vida de sucesso. Quando largou Harvard, seus pais ficaram apreensivos, mas ainda assim o apoiaram, apoio que continuou quando começou a trabalhar na garagem de sua casa e precisou da influência do pai, como advogado, para alavancar o negócio. Mary lembrava que o filho precisava ter sempre roupas limpas para reuniões e que, mesmo ocupado, devia arrumar um tempo para as reuniões de domingo com a família.
A história de Bill Gates mostra que não ele não teve uma educação militar, tampouco desregrada, ele era curioso, espertalhão e muito dedicado. O sucesso do homem mais rico do mundo foi um resultado de tudo disso, mas nada seria possível se ele não obtivesse um ingrediente fundamental: O apoio da família.
[Artigo baseado nesse outro publicado no The Wall Street Journal]
