Você está em ‘arte da simplicidade’

Quando foi que as coisas se tornaram tão complicadas? Ora, nossos antepassados viviam da caça, eram nômades e não podiam fazer muito pra mudar isso. Ok, você pode dizer que essa é a ordem natural das coisas; a civilização evolui e a sociedade se torna cada vez mais complexa. Mas quão complexa ela ainda irá se tornar? E o que a sua ou a minha empresa tem a ver com isso?

Chegamos a um ponto em que opções demais, requinte demais, extravagância demais, coisas demais não mais importam. Cada vez mais pessoas têm percebido isso e se tornados adeptos da arte da simplicidade. Esse é o porquê de 144mil pessoas assinarem o site Zen Habits ou lerem a revista Vida Simples ou praticarem Yoga ou trekking. Este é o mercado da simplicidade.

Eu já tive o privilégio de morar em algumas cidades e conhecer muitas outras. Hoje, eu moro em uma das cidades mais limpas e bonitas que já conheci, mas cara, como eu sinto falta da simplicidade! Tudo é tão exagerado e voltado para altos padrões de exigência como se não existissem mais pessoas “simples” vivendo.

Lojas não precisam ser tão chiques, restaurantes não precisam ser tão finos e bares não precisam ser tão badalados. Sempre existirá aqueles que procuram o oposto disso. Como em um restaurante vegetariano. Você já foi em um? Talvez você não goste da comida, não goste da decoração, mas é difícil não achar interessante esses lugares tão receptivos e aconchegantes. As pessoas parecem que são mais educadas, mais de bem com a vida e seu tamanho, geralmente pequeno, acaba nos deixando mais à vontade.

Uma semana no spa, um findi na chácara, acampar, pescar… quando as pessoas fazem isso elas estão exercitando a simplicidade. Algo difícil de encontrar na cidade. Comprar a fruta ao invés da caixa de suco, trocar o a esteira elétrica pela pavimentação dos parques, isso é uma espécie de busca pela simplicidade.

Quando uma empresa deixa de usar conservantes no seu produto ou disponibiliza um atendimento via chat — ao invés do habitual e-mail –  ela está exercitando a simplicidade. Talvez sem saber. facilitando o diálogo pro consumidor. Simplicidade nos negócios é realmente tão simples quanto parece. O problema é que as pessoas desaprenderam como ser simples.

Como em qualquer segmento, simplicidade não tem apelo para todos os públicos. Mas uma vez que você perceba o quão grande este mercado está se tornando…

A grande pergunta é: você saber ser simples?

Ganhadores do Oscar Slumdog MillionaireComo um filme de elenco indiano de “apenas” $15 milhões de dólares ganhou 70 prêmios, incluindo o prêmio máximo dos três maiores festivais de cinema do mundo?

“Quem Quer Ser um Milionário?” ganhou 8 dos 10 Oscars que concorreu e desbancou a mega-produção estrelada pelos astros Brad Pitt e Cate Blanchett que custou nada menos que $150 milhões.

Se fossemos fazer um cálculo de ROI (Retorno do Investimento), ficaríamos pasmos com o desempenho do filme de Danny Boyle. Ao todo, o filme recebeu um total de 99 indicações sendo 70 convertidas em prêmios, ou seja, 70% de aproveitamento. Em contrapartida, o filme de David Fincher, O Curioso Caso de Benjamin Button com Brad Pitt no elenco e produzido pelas colossais Paramount e Warner, recebeu 89 indicações, mas apenas 17 resultaram em prêmios, ou seja, menos de 20%. Agora falando no que realmente importa para a indústria, Quem Quer Ser um Milionário arrecadou até agora $90mi e O Curioso Caso de Benjamin Button algo em torno de $122 (fonte: Cinema em Cena e E-Pipoca), porém, o filme de Benjamin teve uma distribuição muito superior ao de Jamal.

Danny Boyle fez o que executivos, publicitários e empreendedores buscam todos os dias: conquistar muito, gastando pouco. Mas qual a receita?

Ele utilizou algo que se tornou um tanto popular no modelo de gestão de empresas como a Starbucks: simplicidade. Não foi preciso atores famosos, locações refinadas ou qualquer efeito especial para fazer de Quem Quer Ser um Milionário um sucesso unânime. Ao contrário, O Curioso Caso de Benjamin Button teve tudo isso e ainda tem sofrido pra dar lucro aos estúdios.

A receita do sucesso desse despretensioso filme inglês/indiano é a simplicidade. História simples e acessível a todos; personagens simples com uma pequena dose de complexidade, mas que despertam a empatia do público; produção simples e sem efeitos especiais.

É difícil tornar mágico algo complexo. Quanto mais recursos você tem, mais coisas há para se preocupar e menos tempo para se dedicar a cada um deles. Eu assisti ambos e gostei. Mas enquanto um é complexo, lento e obscuro, o outro é simples, ligeiro e (de certa forma) alegre. Ambos são ótimos filmes, o que os diferencia é a sensação que sentimos quando as luzes se acendem. Uma sensação que todas as grandes marcas estão procurando, e não importe o quanto elas gastem tentando criá-la, porque o importante não é quanto é como.

Olhe para o desenho ao lado. Ele foi feito por Neil French (ex-diretor de criação global da WPP) para exercitar a arte da omissão e reducionismo. O desenho possui todos os elementos básicos de um anúncio, título, corpo de texto, assinatura, logo e imagem. A questão é: precisamos de tantos elementos pra passar a mensagem?

O objetivo é reduzir o anúncio a uma só coisa. Às vezes é o título, às vezes a imagem. Para Neil, cada elemento que você adiciona ao layout reduz a importância dos outros. Por outro lado, cada elemento que você retira, aumenta a visibilidade e importância do que restou.

É realmente difícil de por em prática, principalmente com 99% dos clientes querendo gastar toda sua munição com um único tiro. Mas não custa tentar.

Exercício 1 (dificuldade razoável): Podemos fazer o anúncio acima sem o corpo de texto? Talvez nos esforçando um pouco mais no título, podemos?

Resultado:

Exercício 2 (dificuldade média): E a assinatura? Traz alguma informação nova? Não? Então tire.

Resultado:

Exercício 3 (dificuldade alta): Quanto ao título, existe algo que a imagem possa fazer a respeito? Tente.

Resultado:

Exercício 4 (dificuldade mortal): E a logo? Calma, não precisa ficar com medo de ser degolado pelo cliente. Apenas considere o seguinte: há alguma possibilidade de incorporar a logomarca ao visual? Se sim, faça (e reze).

Resultado ideal: