Eis um assunto chato que vira e mexe vem à tona. Chato porque é algo básico, cada especialista ensina diferente e poucas empresas (eu diria em torno de 0,1%) realmente levam a sério e utilizam isso como balizador na hora de tomar decisões.

A consultoria de branding The Blake Project sintetizou em uma tabela como deve ser e qual o propósito de cada um dos componentes estratégicos. Assegurando que a estratégia da marca esteja alinhada à estratégia organizacional.

Componente estratégico Definição Formato
Missão A razão da marca existir De 7 a 25 palavras
Visão O que a empresa quer se tornar no futuro. Aspiracional e inspiracional. De 7 a 25 palavras
Valores No que a empresa acredita e como as pessoas devem agir. De 5 a 10 valores principais, em palavras ou frases
Essência da marca O coração e a alma da marca, sua qualidade imutável. Três palavras no formato “adjetivo, adjetivo, substantivo”
Promessa da marca Uma ou duas promessas da empresa para seus consumidores, algo importante(s) para eles e único para a marca. “Apenas [marca] oferece [um ou dois benefícios] para [target]”
Personalidade da marca Descrição da marca como se fosse uma pessoa. De 7 a 12 adjetivos
Arquétipo da marca O modelo ou padrão que sustenta a marca, especialmente no que diz respeito a motivação e comportamento. Defina o arquétipo e primário e secundário da marca.



Diferencial x Relevância

12 de novembro de 2010 • TEMAS: Filosofando / Marcas / Marketing

A palavra da moda deveria ser relevância, não diferencial.

Relevância tem a ver com o consumidor, enquanto diferencial tem a ver com  os concorrentes. É uma questão de perspectiva e objetivo. Empresas que desejam gerar valor (marcas fortes), devem ter em mente que valor é algo percebido pelo cliente — não ditado pela empresa. Ou seja, a relevância leva à geração de valor. Ter um produto diferenciado é importante, mas ela deve andar de mãos dadas com a relevância. O principal problema do chamado diferencial é que a maioria não passa de conversa fiada. Se todos declaram ter um “serviço diferenciado”,  tem algo errado aí. E é justamente isso que temos visto.

  • Diferencial responde “como é feito?”
  • Relevância responde “por que é feito?”

Relevância é, para mim, a palavra mais importante para o marketing hoje. Não é à toa que ela está no topo do Pequeno Guru desde o primeiro dia do blog e vários posts já foram escritos sobre o assunto de lá pra cá.

Empresas deveriam buscar relevância não diferencial. Primeiro, porque é muito difícil criar algo realmente diferente hoje em dia. Segundo, porque o que as pessoas mais querem é algo que faça sentido nas suas vidas e as tornem mais agradáveis e prazerosas. (Sim, consumidores não são radicalmente exigentes como se pensa.)

Relevância é isso: fazer sentido para a vida das pessoas. Tantas promoções, ações de marketing, produtos novos e inovações dentro das lojas e a maioria com pouca ou quase nenhuma importância real para o público. Um erro muito cometido pelas empresas é copiar o concorrente. Se relevância é se colocar no lugar do seu cliente, então fazer porque o outro está fazendo não tem nada de relevante e tudo de ignorante.

Ser relevante exige sensibilidade (emoção). O que torna as coisas mais difíceis no mundo empresarial, onde durante muitas décadas emoção era algo reprimido dentro das corporações. Já um diferencial é mais fácil de justificar (razão) para os superiores e mais fácil de vender para os clientes. Enquanto diferencial está mais ligado a um processo, produto ou serviço. Relevância está em tudo. Do design à publicidade, passando por qual tipo de pesquisa de mercado utilizar e o treinamento dado à equipe de vendas. Lembre-se, tudo deve ter um porquê, que é respondido pelo cliente e quase sempre é uma resposta simples e objetiva.

Mais de uma década depois do boom da gestão de marcas  no mundo dos negócios, apenas as grandes corporações parecem aplicar seus conceitos dentro das empresas para gerar valor de marca. É comum ver gestores preocupados com metas, faturamento, carteira de clientes;e ainda tão raro ver alguém preocupado com a marca, posicionamento ou associações.

Neste post vou explicar porquê associações de marca funcionam — vitais para gerar valor e diferenciação. Para simplificar, separei em 3 partes: o que é, porque funciona e qual a explicação da psicologia para isso.

O que são?

Associações de marca são coisas que vem à mente quando se pensa na marca ou se entra em contato com ela. Na maioria dos casos, isso acontece sem você se dar conta, no seu subconsciente.

São basicamente elas que levam os consumidores a preferirem uma marca (não necessariamente comprá-la, porque isso envolve outros fatores como preço, disponibilidade, etc.), mas criarem um sentimento forte de admiração e respeito. As associações também exercem papel fundamental na lembrança da marca. Associações fortes geram a chamada lembrança espontânea. Associações fracas geram apenas o reconhecimento de marca. Vale ressaltar, que associações também podem ser negativas. Então, veja associações fortes como associações positivas, distintas e exclusivas.

Abaixo os exemplos das associações de marca da Apple e do McDonald’s:

Por que funcionam?

Como eu mencionei, boas marcas possuem um punhado de associações fortes — exclusivas e positivas — que são construídas basicamente através de experiências passadas. Algumas têm maior peso do que outras, como por exemplo a nossa própria experiência. Segundo o The Roper Center, 80% das pessoas que compram algo é porque a experiência anterior foi boa. O boca a boca é outro fator de peso na hora de criar associações poderosas. Mas basicamente qualquer coisa pode criar associações — cabe a empresa gerir para que elas sejam positivas e memoráveis.

Mas por que raios associações são tão importantes assim? Simplesmente, são elas que fazem os consumidores lembrarem da marca e são elas que fazem os consumidores desejarem o seu produto.

Segundo a ciência…

Como as associações estão gravadas na mente, o branding não tenta explicar como essas associações são formadas. No entanto, a ciência nos dá uma boa noção de como isso acontece.

A neurociência comprovou que neurônios ativados juntos se ligam, isso significa que se  você passa na frente de uma Apple Store e vê um iMac na vitrine, seu cérebro registra “ótimo design” e “Apple”, e depois toda vez que você pensar em “ótimo design” vai lembrar da Apple e vice-versa. Essa descoberta é fundamental para o marketing e publicidade, porque ambos se baseiam em lembranças para sustentar um relacionamento duradouro e feliz.

Já a psicologia tem um conceito chamado “de cima para baixo vs de baixo para cima”. O conceito “de cima para baixo” diz que favorecemos informações que já temos, que são familiares para nós, dificultando a absorção de novas. Isso talvez explique porque todos nós temos resistência ao novo. “Nosso cérebro favorece a supressão de qualquer novo estímulo sensorial, ‘de baixo para cima’, que entre em conflito com algo que já aceitamos e internalizamos”, explica o consultor especializado em emoções Dan Hill.

Eu não sei vocês, mas achei isso incrível; algo esclarecedor que ajuda a explicar por que as associações de marca são tão poderosas e praticamente dirigem todas as nossas ações e opiniões sobre uma marca, empresa ou produto.

Existem 2 tipos de empresas: as que fazem pesquisas e as que não fazem. Bem ou mal, essas pesquisas direcionam as decisões das empresas e aumentam drasticamente as chances de sucesso de um novo produto, serviço ou atributo.

As empresas que costumam fazer pesquisas — geralmente de maior porte — utilizam para quase todos os fins. Elas acreditam que essa é a maneira de gerir uma empresa centrada no consumidor. Isso vem desde a década de 70 quando fazer pesquisa era a ferramenta mais avançada que uma empresa podia usar para orientar suas ações de marketing.  A partir daí, vieram grupos de foco, discussão, pesquisas quali e quanti, de satisfação, recall e, mais recentemente, as novas de reconhecimento facial, neurociência e rastreamento ocular (essa não tão nova, mas ainda hoje pouco usada).

Isso porque hoje não basta mais perguntar se o consumidor gostou ou se ele compraria, é preciso comprovar e isso não se consegue da forma verbal. Além de tudo isso, empresas também têm à disposição relatórios que buscam revelar hábitos dos consumidores através de uma grande compilação de dados (ex: AdAge e Nielsen). Evidentemente, tudo custa muito dinheiro.

Já as empresas que não gastam com pesquisa tendem a agir no escuro. Difícil saber se algo vai dar certo até que o cliente pague por ele. E sabe-se que um lançamento fracassado sempre custa muito mais caro do que um projeto abandonado na fase final.

Muitas dessas empresas dizem que não têm dinheiro para pesquisa, mas curiosamente todos os meses elas gastam uma boa grana em mídia. Essas mesmas empresas podem dizer que, se não anunciarem, não vendem; que é vital para o negócio. Mas o feedback do cliente também é vital para o negócio. Além do mais, se o único atrativo da sua empresa é o que está na peça publicitária;  ela não irá muito longe mesmo.

O fato é que hoje as pessoas estão mais dispostas a ajudar a sua empresa do que nunca. O que é curioso, porque ao mesmo tempo elas criaram uma resistência à publicidade. Eu só conheço um tipo de pessoa que para pra ver propaganda: publicitários.

A prova de que as pessoas estão dispostas a ajudar a sua empresa é o chamado crowdsourcing. Um termo citado em praticamente qualquer livro de marketing lançado nos últimos 2-3 anos. As mesmas empresas que gastam milhares de reais em pesquisas têm procurado alternativa no crowdsourcing. Se perguntar o que as pessoas querem através de pesquisas e comprovar se isso é verdade através da ciência não basta, que tal permitir que elas contribuam com o desenvolvimento do produto ou melhoria de seus serviços?

A indústria dos games já utiliza isso ao prestar atenção aos seus fóruns e decidir o que precisa ser melhorado, mantido ou retirado na próxima versão. É impossível negar que os consumidores estão no poder hoje. Na verdade, A. G. Lafley — o homem que aumentou o valor de marca da Procter & Gamble em $100 bilhões — diz há pelo menos uns 15 anos que “o cliente é o chefe”.  Vejam o recente caso da Gap que já se fala em “o maior desastre de marketing desde a New Coke”. A diferença é que a New Coke foi há 25 anos atrás. Se o cliente é o chefe, por que as empresas não os ouvem antes de criar algo novo ou resolver problemas? Essa é um das mais eficientes e baratas pesquisas que uma empresa pode fazer.

Pergunte!

Certamente, você precisa perguntar para seus clientes. Caso contrário, eles só lhe falarão os problemas.

Perguntando como o serviço pode ser melhorado e se o cliente ficou satisfeito, é possível melhorar drasticamente a experiência do consumidor com a marca. Quanto custa alguns formulários impressos (em um espaço exclusivo, não em qualquer canto)? Ou o gerente perguntar para clientes aleatórios se ele pode ajudar em algo mais? Ou usar o mailing para algo útil: “como foi a sua última experiência com a nossa marca?” ou “tem algo que você gostaria que ainda não oferecemos?”. É realmente muito fácil e barato (R$0,00). Você nem precisa criar uma comunidade como fez a Dell e a Starbucks. Basta usar o que você já tem; seu site, seu Twitter, sua página no Facebook e sua simpatia. As pessoas não gostam de publicidade, mas adorariam conversar com as marcas que compram.

A Gap é uma daquelas lojas que poucos assumem gostar, mas que todos compram de vez em quando. É uma loja de departamentos bastante popular nos Estados Unidos, parecida com a Renner ou Riachuelo aqui no Brasil.

Pois bem, esta semana o assunto mais discutido nas comunidades de marketing e design foi a nova logo da Gap. Uma mudança 180º  da tradicional caixa azul e um grande exemplo de como o poder está nas mãos dos consumidores, que não podem ser ignorados em nenhum processo  que envolva grande mudança. Talvez a única coisa que seja mais difícil — para o marketing — do que mudar de logo, seja mudar de nome. A diferença é que poucas empresas mudam de nome durante sua trajetória, enquanto todas precisarão mudar de logomarca em algum momento.

Quem estudou um pouco as histórias de marcas antigas como a Ford, viu que cada versão tinha praticamente uma identidade própria. Elas não herdavam elementos. Hoje,  com a massificação da internet, mudanças drásticas podem desencadear uma revolta online dos consumidores e aparecer em centenas blogs, sites e tweets em tempo recorde; consequentemente gerando assunto para mesas de bar, conversas de elevador, etc. A menos que você seja do tipo “falem mal, mas falem de mim”, isso não é algo bom.

A nova logo criada pelo escritório nova-iorquino Laird and Partners, empresa do ex-diretor criativo da Gap, provocou discussões acaloradas nunca antes vistas a respeito de uma “simples” mudança de logo.

A resposta da Gap (06/10): “Nós usamos a mesma logo por mais de 20 anos, e essa é apenas uma das coisas que estamos mudando. Estamos cientes que a logo gerou um enorme buzz e nós estamos empolgados em ver todas essas discussões surgindo!  Tanto que pedimos pra você compartilhar o seu design. Nós amamos a nossa versão, mas queremos ver outras ideias. Fique ligado nos detalhes que iremos revelar nos próximos dias sobre um projeto crowd sourcing.”

Boa resposta da Gap, mas não importa o quão rápida sejaa empresa; os consumidores são ainda mais rápidos. E o pior: as pessoas adoram memes.

No Twitter, apareceu o @GapLogo que em poucos dias ganhou mais de 3000 seguidores. Na comunidade 99 designs, um concurso premiará com $500 dólares a logo mais bem votada que também será enviada para a direção da empresa como “sinal de boa vontade” da comunidade especializada em design. Outro site também publica logos criadas por outras pessoas. E talvez o mais radical de todos: “Crap Logo Yourself” (“Sua própria logo porcaria”) deixa você criar sua própria logo seguindo o novo padrão Gap.

Geralmente, empresas que ignoram a voz dos consumidores sofrem de hemorragia que levam a um fim precoce. Felizmente, empresas inteligentes agem a tempo de estancar o sangue. Foi assim com a New Coke na década de 80, que retirou o novo produto pouco tempo depois do lançamento, após protestos fervorosos. A Gap parece estar ciente do perigo  e prometeu considerar as opções oferecidas pelos consumidores, mas nada indica que ela vai mudar de ideia.

Podemos tirar algumas lições desta comoção atípica. Se você acha que mudar de logomarca é algo simples, pense de novo.

  • As pessoas criam envolvimento emocional com a sua marca e a logo é a maneira que elas exibem isso. Mudanças drásticas geram estranheza.
  • Novas logos bem-sucedidas são uma evolução ou simplificação da logo anterior . Elas mantém herança genética.
  • O poder está nas mãos dos consumidores. Saiba a opinião deles antes de mudar qualquer coisa, principalmente quando é algo que eles interagem o tempo todo.
  • Reconsidere tudo e aja rápido se os consumidores gerarem grande buzz negativo da mudança.

O que é uma marca?

29 de setembro de 2010 • TEMAS: Marcas / Marketing /

Parece uma pergunta bastante boba e ingênua. Mas geralmente quanto mais quanto maior o alcance de uma ferramenta, mais difícil é criar uma definição. Por exemplo, tente definir marketing. Eu já vi muitas definições do que é marketing e posso dizer que as piores tinham 1 ou 2 linhas. Não que elas não fossem boas, elas apenas não eram tão completas.  Isso mostra que explicar algo tão comum nas nossas vidas pode  não ser tão simples quanto parece.

Alguns profissionais possuem vários tipos de biografia. Uma curta, outra longa, outra completa e outra em apenas 1 linha. Definições complexas são assim. Você até pode explicar em 1 frase, mas sobrarão coisas a dizer.

O consultor Brad VanAuken, autor do livro Brand Aid, deu uma das mais completas definições de marcas que eu já vi. Portanto, sempre que alguém lhe perguntar ou mesmo você precisar relembrar para que serve uma marca, use a resposta a seguir.

Uma marca é a personificação da organização ou seus produtos e serviços. Por isso:

  • Ela deve ter uma razão de existir
  • Pode fazer promessas para o seu público-alvo
  • Pode possuir um personagem característico ou personalidade que crie uma conexão emocional com os consumidores

Muitas pessoas irão associar apenas 1 ou 2 coisas a uma determinada marca. Então, provavelmente as pessoas irão associar Qboa com branco, Bayer com Aspirina, Gatorade com isotônico e McDonald’s com fast-food. A pergunta-chave da gestão de marca é: “A primeira associação de marca na mente dos consumidores, fazem eles quererem usar nossos produtos ou serviços?” Em outras palavras, é um fator motivacional único de compra? Ou tanto faz? Ou por ainda, é negativo?

O objetivo do posicionamento de marca é fazer as pessoas associarem institivamente uma ou duas coisas realmente fortes capazes de levá-las a comprar e usar a sua marca, e não as concorrentes.

Tão ou mais importante do que fazer promessas, é a marca se esforçar para realizá-las. Elas precisam demonstrar isso através de ações e da maneira com que tratam seus clientes.

A embalagem armadilha

10 de agosto de 2010 • TEMAS: Marcas / Marketing / /

26 gramas de goma de mascar sabor menta, sem açúcar, em embalagem moderna estilo “carteira”, nas cores preto e azul com 14 unidades por R$5,00. Essa é a descrição do Mentos Aqua Kiss (Slabs), mas bem poderia ser do Trident Global Connections.

Ele é maior do que a versão original, o sabor refrescante dura horas na boca, o preço é um pouco alto, mas o custo-benefício talvez compense. No entanto, com tantas semelhanças entre os dois produtos, uma coisa deveria ser diferente: a embalagem.

Não conhecia a goma de mascar Mentos Aqua Kiss até pegar um na saída de um restaurante achando que era Trident. Me impressionei com a semelhança porque já conhecia o Global Connections. Alguns dias depois, comprei os 2 e distribuí aqui na empresa, a reação não foi diferente.

Para o marketing, o design tem basicamente dois objetivos: diferencial e funcional. Durante muito tempo (e até hoje tem que pense assim), o design foi visto como algo puramente estético e nunca esteve entre as prioridades das empresas. Sua função era pra dar um aspecto legal ao produto. Hoje, design vai além da estética e se tornou algo funcional. Em casos extremos, o design carrega a alma da marca (como o branco da Apple ou a sofisticação da Lacoste). Caprichar no design é a melhor maneira de diferenciar o seu produto da concorrência. Através de um bom design, é possível fazer um produto ser reconhecido com uma simples olhada ou toque. Até hoje, toda vez que vejo uma lata de 250ml, penso em Red Bull; pode ser o concorrente Burn (que nem sequer usa as mesmas cores) ou até mesmo outro tipo como a Skol. Esse é um dos melhores exemplos de como o design pode ajudar a fixar uma marca.

Quando o consumidor tem contato com um produto, antes de enxergar a marca, ele já viu o formato da embalagem, suas cores e até o material em que é feito. Você pode aumentar a logo, é verdade, mas é melhor aprimorar o design.

Sem levar em consideração algumas pequenas diferenças internas, a marca Trident leva vantagem porque tem o posicionamento mais forte. A marca preencheu este  espaço na mente de milhares de pessoas. Quando eu penso em goma de mascar, penso em Trident. O que o Mentos (marca de balas) deveria fazer era criar uma embalagem totalmente diferente. Talvez colorida e alegre como a marca-mãe ou apenas em uma única versão diferente dessa e com 18 unidades. O design é legal e original.  Disputar com a marca líder usando a mesma estratégia da líder não é muito inteligente. Seja qual for o objetivo, acho que muita gente ainda vai levar Trident por Mentos.

É possível que LEGO tenha sido a primeira grande marca com que eu tenha entrado em contato. Claro, depois de Pampers, Johnson&Johnson e algumas outras que eu era obrigado a usar.  É um dos poucos brinquedos que resiste à tecnologia e a “maturidade” dos brinquedos atuais. Se hoje, a  LEGO continua sendo a mais famosa marca dinamarquesa do mundo é porque ela soube se reinventar. Como muitas outras empresas, tomou decisões quase fatais, se não fossem percebidas a tempo.

Em meados da década de 80 e começo da década de 90, a tendência do mercado era diversificar. Ampliar o portifólio, alongar marcas, extender linhas, comprar empresas que tivessem dando lucro, não importando se a empresa tinha expertise necessária para administrá-la. Casos dessa época cheia de lições são descritos no brilhante livro “FOCO — uma questão de vida ou morte para a sua empresa”.

A LEGO também passou por isso na década de 90 quando deixou de se focar em design para ampliar seu mix de produtos. O livro “Design Is How It Works” que ainda será lançado nos Estados Unidos  mostra como a marca redefiniu sua estratégia em busca dos princípios que a tornou tão famosa. A seguir, 5 lições rápidas que extraí do trecho do livro publicado na BusinessWeek.

#1 Mantenha o foco no que o tornou famoso

Um dos exemplos claro de perda de foco da LEGO é a linha Galidor. Bonecos diferentes dos tradicionais “quadradinhos” que conhecemos. Virou desenho animado para alavancar vendas. O desenho durou 2 temporadas e quando deixou de ir ao ar, as vendas despencaram. LEGO sempre conquistou as crianças com a sua simplicidade e inteligência. Pra que complicar?

#2 Liberdade demais pode ser um perigo

Provavelmente a maior lição da LEGO vem de como ela lidou com o design de produto, o departamento-chave da empresa. Se você tem uma equipe com ótimos designers e vai mal, o problema não é o design, é você. A empresa deu toda a liberdade criativa que a maioria dos designers buscam. E esse foi um grande erro. Acabou gerando brinquedos complexos que agradavam adultos, mas não as crianças. Além disso, exigiu a fabricação de novas peças, que aumentou o estoque de 7.000 para 12.400. Por exemplo, o caminhão de bombeiros — brinquedo clássico da empresa– que correspondia a 13% das vendas chegou a 3%, “quase evaporou literalmente falando”, disse o vice-presidente executivo Madds Nipper.

#3 Mais opções significam mais custos

A LEGO aprendeu que ampliar o mix não era necessariamente aumentar lucro. Dar mais liberdade para os designers levou os custos da empresa às alturas e elevou o preço dos brinquedos que costumavam ser baratos.

#4 Menos é mais criatividade

Foi limitando a liberdade da sua equipe de designers que a LEGO voltou ao foco da marca. Eliminou peças que eram pouco usadas, voltando para o estoque com cerca de 7.000 e introduziu um sistema de votação. Agora, além de ter menos peças para criar, apenas os produtos mais votados iriam para o mercado.

#5 Troca de papéis

Até agora isso eu só vi no papel, mas a LEGO realmente criou um intercâmbio de departamentos. De forma que funcionários da produção se envolviam no projeto desde o orçamento. E designers deixavam um pouco de lado a parte criativa para lidar com viabilidade de mercado, pesquisas e projeções de vendas.

Em um ano, muita coisa pode acontecer. O mundo atingiu um dinamismo tão grande, que nem é preciso um ano para o jogo mudar de cenário. Basta um produto sair de fábrica com uma falha, um erro humano ou uma supernovidade do concorrente. No total, as 10 empresas que veremos aqui perderam cerca de $100 bilhões de dólares em valor de marca de 1º de janeiro a 30 de junho. Todas essas empresas lucraram em 2009, são exemplos no seu ramo de atuação e exemplos de gestão de marca para muitos profissionais da área, mas 2010 é um novo ano, um novo jogo, onde tudo é possível, até marcas poderosas perderem o que tem de mais valioso, a sua marca.

Mensurar valor de marca nunca foi fácil, tanto que as 2 maiores consultorias de marca do mundo — MillwardBrown e InterBrand — mostram números divergentes, já que cada uma tem sua própria metodologia. Para chegar a lista, levou-se em conta uma série de fatores: 1) os números das consultorias; 2)  valor de mercado; 3) oscilação no preço das ações na bolsa; 4) comparação de faturamento entre 2009 e 2010; 5) quantidade de notícias negativas na mídia. [Melhor explicado aqui.] Vamos à lista!

1) BRITISH PETROLEUM: -100%
Valor de marca antes: $20 bilhões
Valor de marca agora: $0

Provavelmente, nenhuma empresa prejudicou tanto o planeta como o vazamento de óleo da BP no Golfo do México que durou quase 2 meses e despejou cerca de 2,5 milhões de litros de óleo por dia. Os números são impressionantes. O prejuízo não foi só para a empresa, que gastou mais de $350 milhões pra conter o vazamento (sem contar a plataforma destruída que custa mais ou menos isso também), mas para o planeta também. O desastre ameaça várias atividades econômicas que antes movimentam $1,6 bilhão.

Apesar de ser admirada pelos britânicos pela sua responsabilidade ambiental, o desastre gerou um endividamento de $20 bilhões que colocou a empresa à beira da falência. Chineses já demonstraram interesse em comprar. Porém, se a empresa sobreviver, sua marca estará afetada por gerações.

2) DELL: -44%
Valor de marca antes: $16 bilhões
Valor de marca agora: $9 bilhões

A despeito da falta de foco estratégico, a Dell vem vendo suas vendas declinarem nos últimos anos. Fechou o ano fiscal de 2010 com $52,9 bilhões de faturamento. Em 2009: $61 bilhões. Mas esse é o menor dos problemas. Michael Dell e sua empresa estão envolvidos em vários problemas com a justiça, como a parceria ilegal com a Intel — que dava maior vantagem competitiva para a empresa –, valores não declarados e produtos enviados com problemas técnicos enquanto a empresa estava ciente do erro. A Dell abriu o ano com $100 milhões de dívidas para cobrir isso tudo. Problema estratégico ou não, a Dell parece ter perdido a cabeça.

3) ADOBE: -43%
Valor de marca antes: $7 bilhões
Valor de marca agora: $4 bilhões

O preço de uma marca tem tudo a ver com se manter longe de polêmicas. A briga entre Steve Jobs e Adobe levou à queda de ações da empresa e acendeu o alerta. Com a Apple dominando mais e mais o mercado de telefones, não fazer parte desse mercado é preocupante para um produto que revolucionou a internet e os computadores — o Flash. Mas nem tudo está perdido, aparelhos com Android (que vem ganhando  mercado)) continuam usando Flash em seus aplicativos.

4) SONY: -42%
Valor de marca antes: $12 bilhões
Valor de marca agora: $7 bilhões

Não é de hoje que as pessoas admiram os produtos da Sony. Não é de hoje também que a Sony vem tendo dificuldades financeiras com sua anoréxica margem de lucro (1,4%), menor até que a média do varejo. Só que a coisa está piorando com as queda nas vendas de câmeras digitais e TVs — seus principais produtos. Mais agravante ainda, é a perda da liderança isolada no mercado de games. O PlayStation deixou de ser líder de mercado de games, o PlayStation3e está atrás da Nintendo e Microsoft, tanto em vendas como em valor de marca.

5) GOLDMAN SACHS: -38%
Valor de marca antes: $16 bilhões
Valor de marca agora: $10 bilhões

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Tenha um pé atrás quando uma marca que investe pouco em publicidade começar a aparecer em todo lugar. É o caso do Santander, cujo investimento publicitário em 2010 é de R$ 150 milhões, maior do que a soma da verba do Banco Real e o do próprio Santander dois anos atrás, resultado da estratégia de consolidação da marca Santander e extinção da marca Banco Real — um dos melhores bancos que o Brasil já teve.

Eu sou cliente do Banco Real  há uns 8 anos. E não devo chegar ao meu 2º ano de correntista do Santander. Tive mais problemas em 1 ano do que tive em 8. Problemas como dinheiro sumindo da conta que ninguém sabe explicar, atendentes que ficam passando um pro outro sem resolver o problema, demora no atendimento e taxas abusivas. Para mim, a causa mortis é cultural.  O Banco Real, um banco brasileiro-holandês sempre pareceu ter o foco nas pessoas, ao contrário do espanhol Santander, onde respeito aos clientes praticamente inexiste. Clientes esses, que em muitos casos nem queriam estar ali, como eu.

O Santander é como um vilão grandalhão que vai engolindo os menores bonzinhos. Quando o banco espanhol comprou o Banespa, foi um “deus nos acuda”. Pelas histórias que ouvi, o Banespa era um daqueles bancos que você passa a vida toda nele, não porque não consegue sair, mas porque quer ficar. O Santander tirou isso de muita gente e até hoje tem processos trabalhistas correndo contra o banco espanhol. Com o Real não está sendo diferente, o grandalhão é rude com os clientes, agressivo na comunicação e está fazendo tudo sem se importar com nada ou ninguém. Demitiu 400 funcionários de uma tacada só quando comprou o Real.

Empresas que investem muito dinheiro em propaganda podem estar colocando sua credibilidade a prova,  veiculando mensagens vazias, uma vez que o serviço/produto não combinam com o discurso anunciado. Um grande problema do Santander é que o que vemos na mídia não reflete a realidade da empresa.  Como disse a diretora do sindicato e funcionária do Santander: “É uma situação inadmissível [demitir 400], principalmente para um banco em excelente situação no Brasil e no mundo, que anuncia ‘sinergias de integração que devem atingir R$ 2,7 bilhões’. Ou seja, para os banqueiros, brasileiros ou espanhóis, a fusão trará ganhos, mas para os bancários, pais e mães de família, sobra a tragédia do desemprego”.

Completementando o desabafo: não são apenas os bancários, pais e mães de família que estão sofrendo com a chegada do Santander, mas os clientes viúvos do Banco Real. A boa notícia: é que esses podem mudar facilmente, enquanto, para os ex-funcionários, infelizmente, a mudança é mais dolorosa.

Eu perguntei para algumas pessoas o que elas achavam do Santander e não ouvi uma única resposta positiva, inclusive aparecendo, mais de uma uma vez, a expressão “o pior banco do mundo”. Realmente não entendo o que há nessas empresas que parecem não se importar com a sua reputação. Acho que elas pensam que conseguem compensar aumentando a verba publicitária. Abaixo estão algumas opiniões extraídas do Twitter pra reforçar.

Como profissional de marketing e amante dessa área, fico triste quando vejo empresas admiráveis como o Banco Real sair do mercado, dando lugar a megacompanhias que não buscam solucionar os problemas dos seus clientes, tampouco tornar a vida das pessoas mais fáceis. Não sou contra fusões nem compartilho das críticas mirabolantes de pessoas anti-capitalismo. Acho que é possível unir interesses de investidores e executivos sem prejudicar os consumidores. Algo parecido com o que fez o Itaú com o Unibanco.

Assim como escrevo artigos dando exemplos de boas empresas, escrevi este artigo para mostrar o contrário. O Santander não é uma empresa que mereça ser vista como exemplo de marketing e, nunca, jamais, de CRM. É uma grande empresa multinacional que só visa numeros e que conseguiu destruir tudo que 2 grandes marcas brasileiras construíram nas últimas 2 décadas.

Agora, estou orfão, em busca de um banco que não queira só o meu dinheiro. Uma tarefa dificílima em uma época em que, cada vez mais, boas empresas desaparecem porque não acompanham o crescimento do mercado e acabam sendo abocanhadas por outras maiores. E o pesadelo continua com um Santander faminto por novas aquisições. Salve-se quem puder!