Como ter grandes ideias? Um gênio da literatura responde

PDF pagePrint page

como_ter_grandes_ideias_isaac_asimov

Escrito em 1959, por Isaac Asimov, este texto só veio a público em 2014, quando Arthur Obermeyer, um ex-colega do escritor, encontrou em seus arquivos antigos. Se você não sabe quem foi Asimov, google. Apenas saiba que ele foi um autêntico gênio. Este artigo possui grande valor histórico e cultural, além de ser incrivelmente atual apesar do seu tempo. Por isso, o Pequeno Guru publica, na íntegra, o texto original traduzido.

Como as pessoas têm novas ideias?

Presume-se que o processo criativo, seja lá o que isso signifique, seja essencialmente o mesmo em todas as áreas, como a evolução de uma nova forma de arte, um novo gadget, um novo princípio científico, todos têm fatores em comum. Aqui, estamos mais interessados na “criação” de um novo princípio científico ou em uma nova aplicação de um antigo, mas vamos ser generalistas aqui.

Um jeito de investigar o problema é considerando as grandes ideias do passado e apenas ver como elas foram geradas. Infelizmente, o método de criação nunca é claro mesmo para seus “criadores”.

Mas e se a mesma grande ideia revolucionária ocorrer a dois homens, simultaneamente e independentemente? Talvez, as semelhanças ajudem a clarear. Considere a teoria da evolução pela seleção natural, criada de forma independente por Charles Darwin e Alfred Wallace.

Há muita coisa em comum entre eles. Ambos viajaram para lugares distantes, observaram espécies estranhas de plantas e animais e como elas variavam de um lugar para o outro. Ambos estavam interessados em encontrar uma explicação para isso, e ambos falharam até que leram a Teoria Populacional Malthusiana.

Ambos, então, viram como a noção de superpopulação e “limpeza populacional” [predadores, doenças e, em último caso, comida] se encaixavam à doutrina da evolução pela seleção natural.

Obviamente, não é necessário apenas pessoas com uma boa bagagem na área, mas que elas também sejam capazes de fazer conexões entre o item 1 e o item 2, os quais podem não ter uma relação clara entre si.

Sem dúvida, na primeira metade do século 19, um grande número de naturalistas estudou a maneira com que espécies se diferenciam entre si. Um grande número de pessoas leu a teoria de Malthus. Talvez, alguns fizeram as duas coisas — leram Malthus e estudaram as espécies. Mas o que você precisava era de alguém que tivesse estudado as espécies, lido Malthus e com a habilidade de cruzar informações.

Esse ponto crítico é uma característica rara a ser encontrada. Uma vez que o cruzamento de informações gere uma conexão [uma relação entre coisas, aparentemente, desconexas], ela se torna óbvia. Dizem que Thomas Huxley exclamou depois de ler A Origem das Espécies: “Que estúpido que eu fui por não ter pensado nisso”.

Mas por que ele não pensou? A história humana ensinou que é difícil pensar em uma ideia mesmo quando todos os fatos estão em cima da mesa. Fazer uma conexão cruzada requer uma certa audácia. Sem audácia, a conexão será como vemos mais comumente por aí, uma ideia que não é nova, mas uma extensão de outra antiga.

É só depois disso que uma nova ideia parece interessante. No início, parece não fazer sentido. Parecia uma insensatez sem tamanho supor que a Terra era redonda em vez de plana; ou que era ela que se movia, em vez do Sol; ou que objetos em movimento necessitassem de uma força para parar, em vez de uma força para mover. E por aí vai.

Uma pessoa disposta a desfilar diante da razão, da autoridade, e do bom senso deve ser uma pessoa dona de uma autoconfiança indiscutível. Já que isso raramente ocorre, pessoas assim parecem excêntricas para o resto de nós. Uma pessoa excêntrica em um quesito é frequentemente excêntrica em outros. Consequentemente, a pessoa que mais provavelmente gerará novas ideias é uma pessoa com boa bagagem na área de interesse e dona de hábitos não convencionais.

Uma vez que você tenha as pessoas que deseja, a próxima pergunta é: você pensa em coloca-las para trabalhar juntas para que possam discutir o problema, ou você irá falar do problema e deixar que trabalhem isoladas?

Meu sentimento é que, no que se refere à criatividade, isolamento é necessário. A pessoa criativa está continuamente trabalhando. Sua mente está embaralhando informações o tempo todo, mesmo quando não se está consciente disso.

A presença de outros podem inibir o processo, já que criar é vergonhoso. Para cada nova boa ideia que você tem, há cem, dez mil ideias idiotas que você não quer mostrar. Mesmo assim, uma reunião com essas pessoas pode ser desejável por razões externas à criação propriamente dita.

Nenhuma dupla consegue duplicar exatamente o acervo mental um do outro. Uma pessoa pode conhecer A e não B, outra pode conhecer B e não A. E mesmo conhecendo A e B, ambas podem não chegar a uma ideia —ao menos não rapidamente.

Além disso, a informação pode não ser apenas coisas individuais A e B, mas combinações do tipo AB, que sozinhas também não significam grande coisa. Porém, se uma pessoa fala da combinação incomum AB e outra de uma combinação incomum AC, pode resultar na combinação ABC, que nenhuma das duas, sozinhas, conseguiriam pensar.

Para mim parece que o propósito das reuniões de ideias não é chegar a novas ideias, mas educar os participantes sobre os fatos e as combinações de fatos, teorias e divagações.

Mas como persuadir pessoas criativas a fazerem isso? Primeiro de tudo, deve existir facilidade, relaxamento e uma sensação geral de permissividade. De um modo geral, o mundo desaprova a criatividade, e ser criativo em público é uma má ideia. Até mesmo especular em público é, de certa forma, preocupante. Por isso, os indivíduos precisam ter a sensação de que os outros não irão se opor.

Se um único indivíduo presente antipatizar com a loucura necessária nesses grupos, os outros não farão nada. O antipático pode ser uma mina de ouro de informação, mas o dano que ele causa não compensa. Para mim, parece necessário que todas as pessoas na sala estejam dispostas a soar meio idiotas e ver os outros agirem da mesma maneira.

Se um único indivíduo presente tiver uma reputação muito maior que os outros, ou for mais articulado, ou possuir uma postura mais proeminente de líder, pode acabar dominando a reunião e reduzindo os demais a uma mera plateia. O indivíduo pode ser extremamente útil, mas ele pode ser colocado para trabalhar sozinho, evitando neutralizar os outros.

Provavelmente, o número ideal para um grupo não deve ser muito alto. Meu palpite é que não deve ser mais do que cinco. Um grupo maior pode ter uma quantidade de informação maior, mas criará ansiedade para falar, o que pode ser frustrante. Seria melhor se o número de pessoas presentes variassem, em vez de uma reunião com todas de uma vez.

Para melhores resultados, deve haver uma sensação de informalidade. Juventude, acho que o uso de apelidos, piadas, brincadeiras relaxantes são a essência, porque elas aumentam a disposição de se envolverem na maluquice da criatividade. Com isso em mente, penso que uma reunião na casa de alguém ou à mesa de algum restaurante seja mais produtivo do que em uma na sala de reuniões.

Talvez nada mais iniba tanto as pessoas do que o sentimento de responsabilidade. As maiores ideias da história vieram de pessoas que não estavam sendo pagas para ter ideias, mas para serem professores, atendentes, funcionários sem importância ou não recebiam nada. As maiores ideias chegaram como problemas paralelos.

Sentir-se culpado por não ganhar um salário maior, simplesmente porque não se teve uma grande ideia é o melhor jeito, para mim, de evitar que uma grande ideia apareça na próxima vez.

[A partir daqui, Asimov fala mais diretamente ao público para qual o texto foi escrito (cientistas financiados pelo governo). São alguns pequenos parágrafos sem muita importância para o público geral. Fique à vontade para ler em inglês, se desejar.]