O sucesso é dolorido?

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Quanta prática é necessário para se tornar excelente em algo? Esse é um debate recorrente. Nas artes-marciais, a faixa preta é uma grande conquista, mas não é o bastante para lhe tornar um mestre. Grandes empresas exigem anos de experiência na função ao contratar para seus cargos mais altos. Malcolm Gladwell levantou a bandeira das 10.000 horas de prática e o número se tornou referência em excelência.

Alguns anos depois, cientistas disseram que a prática só corresponde a 1/3 da habilidade de um músico ou jogador de xadrez, explicando porque alguns levam 26 anos para chegar a grandmaster, enquanto outros, enquanto outros prodígios alcançam o feito em apenas dois. Ainda assim, não há um estudo conclusivo sobre o assunto e talvez nunca haja. Acredito que jamais descobriremos a fórmula infalível do sucesso, mas não é por isso que vamos desistir de procurar.

Os outros 2/3 do sucesso, segundo o estudo, estão ligados a fatores como genética e o ambiente. Prodígios, por exemplo, compartilham características com autistas, uma alta tolerância à repetição e grande foco, fatores ligados à genética. Pais incentivadores, boa renda e morar em um lugar cheio de oportunidades são exemplos de fatores ambientais positivos. Isso fecha a fórmula do sucesso dos cientistas. Mas já que não podemos nascer de novo e tampouco escolher o local e os nossos novos pais; continuamos tendo controle sobre apenas 1/3 do sucesso — a prática. Escrevi tudo isso para chegar ao filme Whiplash, um dos meus favoritos de 2014. Como o subtítulo brasileiro já revela, é sobre buscar a perfeição.

O filme que conquistou Sundance, Cannes e foi parar na categoria mais cobiçada do Oscar (é também o 2º filme com maior avaliação no site Rotten Tomatoes) é sobre um jovem baterista comum no mais importante conservatório de música dos Estados Unidos. O filme que custou menos do que o próximo filme do Selton Mello, tem um diretor desconhecido, um ator de filmes adolescentes e foi filmado em apenas 19 dias. De alguma forma, esses ingredientes resultaram em um filme espantosamente bem feito e com uma mensagem poderosa. Para alguns, é um filme sobre triunfar, para outros, uma tragédia. Para mim, é uma história sobre sucesso, e nem sempre histórias de sucesso são histórias felizes.

“Whiplash” é uma das músicas mais difíceis para um baterista. Nas palavras do diretor e roteirista do filme, “ela foi feita pra ferrar com você e o tirar do sério”. Hank Levy, seu compositor, estava tentando algo diferente no jazz quando a compôs, o que parece ter conseguido já que poucos a tocam com maestria até hoje.

“Bom trabalho é a pior junção de duas palavras que pode existir”

A mensagem central do filme nasce da concepção de que o melhor de cada um precisa ser praticamente expurgado, e elogios não deixam isso acontecer. Quantos grandes trabalhos deixam de ser feitos porque alguém, em algum momento, ouviu um “bom trabalho, cara” e relaxou? É claro que a ideia de nunca elogiar é extrema, mas pense na importância de ter uma pessoa que lhe provoca na medida certa para extrair o seu melhor. Um chefe que lhe dá um grande projeto, mas que se enfurece com trabalhos abaixos de “excelente”; um professor conhecido por dar notas baixas que faz os alunos estudarem de verdade; pais que cobram e orientam, em vez de proteger e dar tudo de mão beijada. Pessoas assim são capazes de extrair de nós o que nem sabíamos que tínhamos, e na maioria das vezes é na dor, não no amor. Duas questões para se pensar:

  • Quem extrai o melhor de você?
  • O quanto você é capaz de aguentar para ser o melhor?
Muitos Band-Aids

Para garantir o seu lugar como baterista principal na banda de jazz (dominando as músicas “Whiplash” e “Caravan”), Andrew toca por horas até respingar sangue sobre a bateria. Parece exagerado, mas bateristas confirmam que isso acontece ao praticar com tanta intensidade por horas. O sangue visto no filme (ao menos uma parte) era, de fato, do ator Miles Teller. Calos e feridas têm uma razão de existir, eles servem para tornar você mais forte. Tudo que você precisa é aguentar a dor e deixar que o tempo aja. Com vocês a resiliência, a qualidade mais rara em seres humanos hoje em dia.

Andrew tinha uma motivação comum, uma perseverança fora do comum e uma raríssima resiliência. Ele queria ser um grande baterista, praticava muito mais do que os outros e aprendeu engolir o ego e a transformar raiva e frustração em estímulo. Andrew passava o que muitos funcionários de empresas modernas passam hoje em dia, seu esforço não era reconhecido, pelo contrário, era menosprezado e quase humilhado. Adiciono duas novas reflexões:

  • Qual o limite da cobrança?
  • Os outros podem acabar com a nossa motivação?

Essas duas questões vieram à minha mente durante o filme. E eu acredito que as respostas estão dentro de cada um. Vivemos em um mundo cheio de cobrança, mas pouca tolerância. Um mundo que nunca ouviu tanto sobre motivação é, ao mesmo tempo, o que a tem em menor quantidade. É verdade que o que não nos mata, nos fortalece, e essa é uma lição que todos devem aprender individualmente. O sucesso quase nunca é uma história feliz, mas uma cheia de obstáculos. Para chegar lá, não basta querer, tem que sofrer um pouco.