Por um ano mais offline

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“Homens se tornaram ferramentas das suas ferramentas.” (Thoreau)

Eudaimonia é a estranha palavra de origem grega que talvez mais se aproxime do verdadeiro sentido da felicidade. Literalmente, eudaimonia significa “bom espírito”, mas nos dias atuais costuma ser traduzida mais como “felicidade” e “bem-estar”. Ela é o oposto da hedonia, de onde vem o hedonismo, que é a busca constante pelo prazer. O objetivo de ambos é encontrar a felicidade, mas a forma como buscam é o que os diferencia.

Da perspectiva da psicologia moderna, pessoas com motivações hedonísticas trabalham para conseguir coisas (carro, casa, roupas de marca, eletrônicos), enquanto os eudaimônicos buscam objetivos mais subjetivos como crescimento pessoal, contribuição para comunidade e relacionamentos mais valiosos. No mundo perfeito, a eudaimonia é o que devemos buscar, é ela que trará a felicidade mais duradoura e encherá a vida de significado.

Mas como praticá-la em um mundo cada vez mais materialista e superficial? Minha sugestão: eliminando o desnecessário. Bruce Lee deu o caminho ao dizer que a vida é um decréscimo diário, não o contrário. No entanto, vivemos exatamente o oposto, graças à tecnologia. A cada dia surge um novo gadget que vai mudar a vida das pessoas, uma nova rede social, um aparelho mais fino, mais leve, mais colorido que fazem as pessoas desejarem. Esse prazer efêmero, hedonista, não é o que faz as pessoas felizes. Quer dizer, elas ficam empolgadas por um tempo com uma dose cavalar de dopamina no organismo, mas é bom lembrar que quanto melhor a viagem, pior a volta. Logo, é preciso ir atrás de uma nova fonte de prazer, criando um ciclo difícil de satisfazer por completo.

O meu pedido para 2015 é um ano mais offline. Confesso que tenho medo de onde o mundo vai parar se continuar nesta direção. As pessoas estão vivendo a vida dos outros pelas redes sociais, perdendo sua identidade, ao passo que nutrem emoções ruins como inveja e raiva em direção aos outros. Com o intuito de registrar o momento, elas estão deixando de vivê-lo. Sebastião Salgado, uma lenda da fotografia nacional, chamou de “agressividade” o comportamento das pessoas com seus “selfies” em sua exposição, ele se sentiu forçado a ir para casa mais cedo. No momento em que o simples ato de tirar uma foto incomoda o outro (a ironia é que ele é fotógrafo), esse é o momento de dizer “peraí, precisamos repensar isso”. E não é só selfie, este ano atores fizeram campanha contra o uso do celular em teatros porque a luz de uma tela de 5 polegadas em uma platéia totalmente escura deve atrapalhar um “pouquinho” o trabalho dos atores. É difícil acreditar que alguém pagou para ver uma peça, e ganhou uma conversa no Whats. Tem sido assim nas academias, nos cinemas, em bares e onde mais você reparar. A propósito, garçons precisam decorar além dos cardápios, a senha do WiFi, ai de quem não souber!

Desejo um ano em que poderei tomar umas cervejas, entre uma partida e outra de videogame, sem meu amigo pegar o celular de 2 em 2 minutos. Um ano em que, ao chegar em casa, não precise compartilhar a mulher da minha vida com seus 1.300 amigos do Facebook e suas infinitas postagens na timeline. Ah, timeline… é como o Anel de Sauron do mundo digital que abstrai a pessoa do mundo. Como pode algo que não tem fim ser bom? Recentemente, ao sair do cinema, vi um homem checar sua timeline antes de passar pela saída da sala. O que havia de tão especial que ele não podia esperar 30 segundos?

Gostava da época em que casais conversavam no jantar, pacientes liam revistas velhas enquanto aguardavam a consulta e crianças brincavam com brinquedos feitos para elas. As coisas costumavam ser menos fáceis, mas tenho certeza que eram mais felizes. Havia menos divórcios, as pessoas observavam mais, conversavam mais olhando nos olhos e metade das mulheres faziam mais sexo (segundo um estudo, elas preferem ficar um mês sem sexo do que sem celular). Pode-se dizer que elas viviam o momento. Infelizmente, esse não é mais o mundo que vivemos.

Por favor, não me leve a mal. Eu não sou um velho, careta que não se adapta às modernidades. Eu também tenho um smartphone que mal cabe no meu bolso, mato a saudade dos amigos e da família pelo WhatsApp, publico algumas fotos no Instagram e interajo com meus leitores pelo Twitter, eu apenas não faço deles o meu modo de viver. Confesso que sou um pouco old school; tenho um olhar crítico com cada avanço tecnológico e abro mão de tudo aquilo que vai tornar a minha vida mais cheia e complexa. Tecnologia existe para tornar a nossa vida melhor, não pior. Esse é um critério que serve para tudo na vida.

Agora é um bom momento de exercer um olhar crítico na forma como você conduz a sua vida. Se você usa Facebook, é bem possível que esteja perdendo um tempo precioso nele. Muitos grupos de WhatsApp não acrescentam nada de bom e se você quer um motivo mais racional, ambos estão consumindo a maior parte do espaço do seu smartphone.

Seja como for, a vida é feita de escolhas. Os filósofos gregos nunca chegaram em um consenso sobre qual o caminho ideal para a felicidade. Mas a ciência tem conseguido mapear alguns pontos-chave e um deles é o valor da interação social real e do crescimento pessoal.

Na busca pela felicidade, há o caminho fácil e o difícil, o imediato e o duradouro, ambos levam a lugares diferentes e dependem das prioridades que você estabelece e dos hábitos que pratica. Infelizmente, Aristóteles não conseguiu não tinha ideia que um dia ia surgir uma coisa chamada celular para atrapalhar todas as suas teorias.