O tédio e a criatividade

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Palestras acadêmicas, reuniões corporativas e tarefas rotineiras parecem ter a incrível capacidade de nos nos fazer viajar dentro das nossas mentes. Quantas vezes estamos em um lugar e pensando em coisas sem nenhuma relação? O termo daydreaming de vez em quando é, por vezes, relacionado à criatividade em textos sobre o assunto. Ao sonhar acordado, nossa mente vaga inconscientemente por milhares de informações até que alguma, meio que por acaso, caia em nosso nível de consciência, então pensamos “por que raios estou pensando nisso em vez do que esse cara está falando aqui na minha frente”?

O processo criativo

O processo criativo é tão complexo e misterioso que é um dos assuntos que mais atrai a minha atenção. Sou curioso para saber como trabalham alguns mestres da criatividade. Como Stephen King escreve seus livros? De onde Charles Schulz tirou ideias para criar 17,897 tirinhas diferentes? Como Alex Bogusky (considerado o maior publicitário dos anos 2000) criou campanhas premiadas sem ter o hábito de assistir comerciais? Onde quer que eu veja um criativo comentando sobre o seu processo de criação, lá estou eu de orelhas em pé.

Nesses meus 30 anos, aprendi algumas coisas sobre criatividade e uma delas é que bagagem cultural e o ambiente são 80% do processo. Os outros 20% correspondem à técnica propriamente dita — escrever o que vier a mente, organizar ideias em post-its, dar um passeio no parque, trabalhar com barulho ou com silêncio, etc.

Um dos meus métodos preferidos para chegar a uma boa ideia é pegar uma folha grande em branco e desenhar duas colunas, uma grande e outra pequena. Na grande, eu escrevo as primeiras ideias usáveis (as absurdas nem vão para o papel — há quem não use esse filtro mental), na menor, palavras e expressões relacionadas ao assunto. (Em alguns casos, faço um quadrado menor, onde anoto assuntos sem relação, mas que podem ser úteis de alguma forma.) Procuro encher uma ou duas folhas antes de fazer a primeira triagem. Se as ideias não tiverem saindo, eu desligo e vou trabalhar em outra coisa. É impressionante como o tempo e o contato com outras coisas refrescam a mente, dando uma nova visão na próxima vez que você olhar aquelas ideias.

Muitos criativos trabalham assim, intercalando o pensamento divergente e convergente sem saber. Ao fazer isso, eles chegam a melhores e mais diferentes ideias do que chegariam pensando de uma só maneira.

Beleza, mas afinal qual a diferença entre um e outro?

Pensamento convergente vs pensamento divergente

A psicologia separa as pessoas nesses dois tipos. Ou seja, ou você é do tipo que pensa de forma convergente ou o contrário. No entanto, não vou abordar como uma característica pessoal, mas como uma técnica que podemos tirar proveito delas independente da nossa personalidade.

A principal diferença entre um e outro é que o pensamento convergente tem uma visão limitada, como um cavalo usando antolhos que consegue ver mais longe ao aumentar o foco. O pensamento divergente olha para todos os lados e está sempre atrás de novas opções e possibilidades, permitindo ter mais ideias diferentes e inovadoras. É o lado mais maluco e não-convencional da criatividade.

Estudos com EEG mostraram que usar os dois tipos de pensamentos aumenta a comunicação entre os hemisférios cerebrais, o que contribui para uma melhor performance criativa. Embora o pensamento convergente se saia melhor em tarefas que exijam foco e concentração, como matemática, ambos se mostraram igualmente eficientes na geração de insights.

Onde o tédio entra nessa história?

Entender o processo criativo é importante para criar condições que favoreçam o nascimento de insights. Grandes ideias costumam passar pelo pensamento convergente e divergente, mas como eu disse, ela é apenas uma parte do processo criativo. O resto está a sua volta, nas experiências anteriores, nas memórias armazenadas e também no seu humor. Se você está feliz, tende a ter ideias mais agradáveis, se está triste, suas ideias podem contaminar os outros. Como no filme “500 Dias Com Ela” em que o estado emocional do protagonista, um redator de cartões comemorativos, é facilmente percebido no seu trabalho.

A parte estranha nisso é que dois estudos recentes, um da Penn University e outro da University of Central Lancashire, mostraram que o tédio pode deixar as pessoas mais criativas, ao menos temporariamente. Cada universidade usou um tipo de pensamento diferente em seus testes, uma pediu para as pessoas acharem utilidades para copos plásticos (divergente) depois de realizarem algumas tarefas, como passar telefones de uma agenda para outra. A outra utilizou um relaxante vídeo que estimulava a distração e o tédio e depois lhes deu 3 palavras “ralado”, “cabra”, “cottage”. Então, pediu para os voluntários pensarem em uma quarta palavra que ligasse as outras três, nesse caso, queijo (exemplo de pensamento convergente). Em ambos os casos, as pessoas entediadas se sairam melhores.

É claro que uma pessoa que vive o tempo todo entediada não conseguirá ser criativa, mas parece que certas doses de tédio podem tornar a nossa mente mais fértil, como desenhos rabiscados em sala de aula. Às vezes, tudo que você precisa é de uma experiência totalmente diferente para fazer as ideias jorrarem, mesmo que o diferente seja algo chato pra caramba.