Memórias de um grande chefe

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Bear & Stearns foi uma daquelas empresas extremamente bem-sucedidas que pouca gente conheceu, talvez pelo mercado financeiro não ser tão popular em revistas de negócios. A empresa que superou as piores crises do século XX (como a de 29 e a de 87) não sobreviveu à Grande Recessão de 2008, e acabou sendo comprada pelo gigante JP Morgan por apenas 8% do seu valor de mercado. A história da Bear & Stearns é mais impressionante ao saber que a empresa chegou a ter $300 bilhões em ativos e que 90% das empresas desse tipo fecharam as portas entre 1973 e 1993 (época do boom de Wall Street). Essa trajetória só foi possível graças a dois CEOs visionários, donos de um espetacular senso de liderança, respeito pelo ser humano e obsessão por eficiência.

Neste ano, perdemos grandes personalidades em quase todos os campos. O mundo dos negócios não ficou de fora, perdeu um dos maiores exemplos de liderança com a partida de Alan C. Greenberg, presidente da Bear & Stearns por 30 anos. Em uma época onde as pessoas pensam em abrir seu próprio negócio para fugir de chefes idiotas, Greenberg nos mostra que é possível ser um ótimo chefe e ainda entregar ótimos resultados.

Grande parte dos seus ensinamentos estão no livro “Memos From the Chairman” (sem tradução no Brasil), um dos livros favoritos de Jeff Bezos — que parece ter aprendido direitinho as lições — , um dos líderes a se inspirar na atualidade.

Quando Alan Greenberg assumiu a Bear & Stearns, ele estava apavorado. O antigo presidente havia acabado de falecer subitamente e teria que dar continuidade ao trabalho de um ótimo lider muito admirado pelos funcionários. O presidente anterior ficou no comando durante 42 anos e implantou uma cultura meritocrática valiosa, encorajando e promovendo jovens talentos assim que eles mostravam que davam conta. Era uma daquelas raras empresas que continuavam produzindo quando o chefe estava ausente. Greenberg assumiu com a responsabilidade de continuar crescendo e oferecendo as mesmas oportunidades, e fez um trabalho ainda melhor.

Através de uma coleção de memorandos (na longínqua época pré-email), ele alertou, infomou, inspirou, cobrou, motivou, lembrou e comemorou com seus milhares de funcionários aspectos valiosos e imprescindíveis para o sucesso de uma empresa em Wall Street. Compilado 2 décadas mais tarde em um livro, o resultado foi uma espécie de pequeno guia sobre como ser um grande chefe. A maioria das lições não são novidade, mas aprendizado requer repetição, e essa é a primeira lição de Alan Greenberg que, ao longo dos anos não cansava de relembrar velhas orientações.

[O livro cita o seu guru Haimchinkel Malintz Anaynikal. Na verdade, ele não existe, foi um artifício que ele encontrou para dar maior credibilidade aos seus conselhos, que muitas vezes eram pra lá de engraçados.]

Atenda o telefone!

“Uma empresa que tem recepcionistas e telefonistas entusiasmadas começam com uma tremenda vantagem em relação aos patetas do mundo.”

O telefone é o melhor amigo da equipe de vendas. Se hoje ainda é, imagine em 1980 e 90. Greenberg era bastante enfático quanto a atender de forma educada e rápida todas as ligações. Ele se perguntava quantas vendas deixavam de ser fechadas porque alguém demorou a atender, não passou o recado para o colega, não retornou a ligação ou foi mal-educado. Ele ficava louco quando o telefone tocava mais de duas vezes e ninguém atendia, e mais ainda se alguém não retornava uma ligação ou não passava o recado. Os funcionários tinham a obrigação de retornar ligações imediatamente em horário de expediente, “mesmo que fossem vendedores de malária” disse certa vez. Se o funcionário já estivesse em casa, Alan dizia que a empresa não podia obrigar, mas que ele costumava atender.

Prepotência leva à falência

“As únicas coisas que podem impedir o nosso futuro fabuloso são arrogância, ego e prepotência.”

É comum se deixar levar pelo sucesso, dinheiro e regalias que um bom cargo em uma grande empresa proporciona. Na Bear & Stearns, como todo banco de investimento, se ganhava muito dinheiro. Se você leu “Sonho Grande”, sabe o que estou falando. No entanto, não dá para deixar o dinheiro afetar o desempenho e a boa educação. O excesso de autoconfiança é um perigo inerente do sucesso, pois ele leva à complacência e esta leva aos erros. É preciso vigiar para não deixar a arrogância, a prepotência e a complacência dominar o ambiente de trabalho. Richas internas também são um veneno, é preciso ficar de olho.

Controle os gastos para lucrar

“Alguns gastos são difíceis de cortar, mas poupar energia é fácil, embora exija um pouco de coordenação muscular. Alguns não-atletas podem ter problema em tocar o interruptor enquanto andam, mas pode ser feito por quase qualquer pessoa, se você se concentrar.”

Há muitas semelhanças entre o estilo Jorge Paulo Lemann e Alan Greenberg. O Sr. Lemann disse que copiou o estilo do Goldman Sachs e Morgan Stanley quando fundou o Garantia. Talvez fosse uma característica de empresas do setor financeiro da época, fato é que a Bear & Stearns também era maluca por redução e corte de despesas. Faz sentido, uma vez que toda sobra vira lucro e lucro vira dinheiro no bolso dos funcionários. A ligação entre poupar e ganhar era direta.

Algumas coisas cortadas ou reduzidas drasticamente ao longo da gestão: viagens de avião (trocada por ônibus), estadias em hotel (escolhia-se cidades mais próximas para reuniões, facilitando o “bate-volta”), clipes de papel, envelopes, Fedex (mais cara que o correio normal), fita dupla face. Outras recomendações: apagar a luz ao sair, sacudir o toner antes de trocar.

Essa política se aplica a todas as empresas, mas não da mesma forma. Funciona melhor quando os funcionários estão realmente comprometidos com a liderança da empresa, e em empresas de médio e grande porte. A simples sacudida no toner antes de trocar por um novo rendeu uma economia de 5% ou algumas dezenas de milhares de dólares por ano.

Seja positivo

“Eu nunca me senti tão otimista sobre o futuro ou mais determinado a vir trabalhar de manhã. Espero que estejam sentindo o mesmo.”

Greenberg exalava otimismo. Estava sempre comemorando e agradecendo aos gestores pelo ótimo trabalho das equipes no último trimestre, semestre ou ano. Embora ele fosse muito exigente, sempre relembrando que a responsabilidade agora era ainda maior, suas mensagens eram sempre muito mais positivas do que negativas. Em épocas de crise, dizia que estavam melhores que a concorrência, para economizarem ainda mais e que ninguém seria demitido, pelo contrário, estavam fazendo contratações (Alan acreditava que essa era a melhor época de contratar talentos); em “épocas de engorda”, continuava relembrando pontos básicos como redução de despesas, o perigo da complacência, atenção aos erros e a importância de retornar as ligações rapidamente.

Bom-senso vale mais que 1000 MBAs

“Jogadas magistrais estampam capas de jornais, mas vencedores executam o básico.”

Quando termos chiques da administração começaram a ganhar espaço no mundo corporativo, a Bear & Stearns debochou. Seguindo a filosofia de contratar PSDs —pobres, inteligentes, com vontade de ficar rico (o mesmo usado por Jorge Paulo Lemann)—, Greenberg não queria saber de TQM (Gestão da Qualidade Total, em português) ou CIP (Programa de Melhoria Contínua) porque nada era mais eficaz do que o CS (Bom Senso). É claro que a empresa se esforçava para contratar os melhores do mercado, mas nada adiantaria se o profissional não compartilhasse os valores simples da empresa.

Isso é o oposto do que acontece hoje, em que empresas são comandadas por conceitos e modelos em vez de pessoas, deixando pouco espaço para a poderosa e inigualável ferramenta que é o discernimento humano.

Não tenha medo de ser diferente

“Ninguém nunca disse que somos tradicionais, e tenho orgulho disso.”

Um traço muito comum em grandes líderes é que eles são muito decididos e fazem as coisas à sua maneira. A Bear & Stearns (assim como o banco Garantia) faziam tudo que seus concorrentes faziam só que não, eles tinham um jeitão próprio que tinha tudo para ser ignorado pelo mercado e pela impresa (e, de fato, foram um pouco), exceto por serem extremamente competentes. Não importa se a empresa não usa terno enquanto todo mercado sim, se abomina reuniões enquanto os outros vivem nela, se retorna ligações rapidamente sem se importar se vai parecer desocupado, se sorri demais, se brinca… o que realmente importa é se você trata as pessoas com respeito e se exerce seu trabalho com excelência. E é muito bom ver que é possível obter o sucesso sem seguir a manada, mas fazendo do seu jeito e trilhando seu próprio caminho

RIP Alan C. Greenberg (1927—2014)