Lifeaholic: viciado pela vida

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Na vida, há duas certezas: você vai morrer e você vai ter que trabalhar. Ainda pequeno, passamos pela nossa primeira “avaliação de desempenho” — a escola. Lá aprendemos o essencial para aproveitarmos a vida; ler, fazer contas, conviver com às diferenças, conhecimentos básicos sobre a natureza, o corpo humano, a história do lugar onde nascemos e até sexo. Mas não basta aprender, você tem que provar que aprendeu.

Desde a infância, sem saber, você é treinado para a vida profissional. Seus pais fizeram entrevistas com você para saber o que você queria ser quando crescesse, e observaram de perto para ver se você não ia seguir a carreira de caminhoneiro, picolezeiro, astronauta ou bombeiro. Nada contra, mas pais têm grande tendência a preferir profissões clássicas como médico e advogado. Porque a vida não é um conto de fadas. Na vida real, os desafios nunca param. Entrar em uma boa universidade, conseguir um bom emprego, ser promovido e chegar ao topo da profissão estão entre os mais comuns e difíceis obstáculos da vida de um ser humano.

Fato é que se tem uma coisa que todo homo sapiens nasceu para ser é feliz. Se alguém nunca lhe disse isso, saiba que ser feliz é o seu principal objetivo aqui na terra, algo impossível de alcançar machucando os outros ou a si mesmo. É duro ver pessoas levando uma vida toda para descobrir isso, e então definir a sua felicidade como prioridade.

Acho que todos nós somos apaixonados pela vida (se tem alguém que não, por favor, deixe um comentário e faremos de tudo para ajuda-lo), mas acabamos tendo tão pouco tempo para aproveitá-la que seria muito mais fácil ser apaixonado pelo trabalho. E o ideal é que você seja mesmo, pois pesquisas mostram que é difícil ser feliz sem satisfação profissional. Ao mesmo tempo, uma carreira de sucesso não garante uma vida feliz, é preciso ter amigos, família e atividades que preencham as horas livres com momentos de descontração e estímulo. Precisamos ser lifeaholics, pessoas apaixonadas pela vida que trabalham duro para conseguir viver do seu jeito. Pessoas que conduzem a sua própria vida, e não são conduzidas por ela. O momento certo para começar a ser um lifeaholic foi ontem, então você já está atrasado.

“Conhecer os outros é inteligencia, conhecer a si é a verdadeira sabedoria” (Lao-Tsé)

Um pouco de filosofia…
É difícil amar a vida e usufruir o melhor dela sem autoconhecimento e vontade de crescer em todos os sentidos. Melinda Gates disse recentemente que o que ela mais se importa na vida é ser uma ótima mãe, esposa e amiga. Eu me pergunto, quem se esforça para ser um amigo melhor? Eu tenho tentado desde que mudei duas vezes de cidade, mas tenho certeza que posso mais. Essa consciência de que você está longe de ser perfeito é crucial para o crescimento individual.

Cada um precisa encontrar o seu TAO, o seu caminho, algo que deveria acontecer naturalmente, mas nosso livre arbítrio acaba atrapalhando o processo de mudança natural e a chegada ao equilíbrio. Lao-Tsé dizia que só é possível alcançar o TAO através do do Wu Wei que significa “não ação”, mas não de ficar sentado esperando olhando Facebook, e sim agir conforme a sua própria natureza, de forma espontânea, sem ligar para o que os outros vão pensar. Encontrar o TAO é encontrar a felicidade.

Corta para Grécia. Quando Aristóteles morreu, duas escolas importantes da filosofia ascenderam na Grécia Antiga: a hedonista e a estoicista. A primeira defendia que o prazer do corpo é o sentido da vida (não confundir com o sentido pejorativo, atribuído muitos séculos depois), mas por algum motivo não alcançou grande sucesso quanto a segunda. O estoicismo fez tanto sucesso na Grécia que chegou à Roma, onde se tornou a base para a ética pessoal e política do Império Romano antes do cristianismo assumir, no século VI. Cícero e Marco Aurélio, dois dos maiores intelectuais da época, foram famosos defensores dos princípios estoicistas. Dentre os princípios defendidos, estavam a clemência aos escravos e que status e riqueza não deviam ser importantes valores sociais. A O estoicismo dizia que cabe ao individuo escolher por de lado as coisas sobre as quais têm pouco ou nenhum controle, e tornar-se indiferente à dor e ao prazer. Para isso, é preciso… adivinhem? “Viver de acordo com a natureza”.

Com 300 anos de diferença, 7.000 km de distância e considerando que o cavalo era o meio de transporte mais rápido da época, acho pouco provável que Lao-Tsé e Zenão de Cítio tenham debatido acerca do assunto. Mesmo assim, ambos disseram para vivermos do nosso jeito, de forma simples e de acordo com a natureza, porque “a felicidade é o bem fluir da vida”.

Eles basicamente estavam dizendo: Quer torrar o salário em viagens? Viaje! Quer dormir até tarde? Durma até tarde, quer ir para balada e enxer a cara toda semana? Faça! Quer viver de arte? Viva de arte! Se isso realmente o fizer feliz, sem duras consequências (para a sua vida e as dos outros), siga o seu instinto. É isso que que a filosofia tem nos ensinado há séculos e estudos vem tentando comprovar nas últimas décadas, com sucesso. Ser feliz não tem regra, mas costuma seguir certos padrões.

Eu queria…
Se você é humano e empregado, alguma vez já disse “eu queria tanto fazer [complete aqui], mas não tenho tempo”. A culpa é, na maioria dos casos, do trabalho. O que é aceitável já que você, provavelmente, passa metade do seu dia útil fazendo coisas para os outros. Mas será que não tem nada que pode fazer a respeito?

“Um dano imenso é causado pela crença de que o trabalho é virtuoso” (Bertrand Russel)

Faz parte da nossa cultura, admirar quem trabalha duro. Soa quase como uma conquista dizer que ficou trabalhando até tarde na noite anterior. Russel despreza essa visão. É óbvio que ele não se referia a quem trabalha saudavelmente 9 horas por dia, viaja nas férias e aproveita os feriados em família. Ele criticava o sistema em que os que menos ganham são os que mais trabalham, não tendo nem dinheiro nem tempo para aproveitar a vida. Para Russel, precisamos trabalhar menos para ter tempo de fazer coisas que tragam significado à vida. Mas tinha um problema, como as pessoas só sabiam trabalhar, o que elas fariam se tivessem mais tempo livre? Eu não sei você, mas eu conheço uma porção de pessoas que não sabem o que fazer com um dia de folga. Certamente, esse não é o tipo de pessoa que a sociedade deve admirar.

Viciado pela vida
Trabalho faz parte da vida, mas nenhuma vida deve se resumir a ele. Uma vida plena é preenchida com doses diárias de satisfação das mais variadas fontes. A maior parte das pessoas têm uma ou duas fontes de prazer, mas eu realmente acredito que é preciso ter várias. Trabalho e família são as duas maiores, e exercem grande impacto na vida — é preciso assegurar de estar muito bem em pelo menos uma delas. Há uma infinidade de pequenas e médias coisas na vida que trazem felicidade em doses homeopáticas, mas que ao final, tornam a sua vida muito mais gostosa.

Especialize-se em arrumar um tempo para você, a maioria das pessoas acabam deixando os outros tomarem conta das suas preciosas horas. Você precisa de um tempo para você, todo mundo precisa. Não é egoísmo, é necessidade. Faça o que você gosta, mas também experimente coisas novas. É o maior clichê do mundo, eu sei, mas clichês funcionam.

Reduza o futuro do pretérito ao máximo. A maioria dos “ias” é perfeitamente realizável com vontade e um pouco de iniciativa. Lembre-se que começar é a parte mais difícil. Se lhe faltar motivação, olhe para a quantidade de jovens que morrem com câncer todos os anos (jogo baixo, eu sei). Essas são as pessoas que, infelizmente, podem dizer “eu faria se…”. Não há nada mais triste do que ver uma vida terminar precocemente, e saber que pode acontecer com qualquer um de nós, em qualquer dia, é o maior motivo para sermos completamente viciados em viver.