Seja mais feliz com as suas escolhas

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Pergunte-me quais os melhores smartphone disponíveis no mercado hoje e eu lhe direi os modelos, faixas de preço e poder de processamento. Não que eu seja um aficionado por celular — certamente não estou na média dos brasileiros que passam 149 minutos por dia em seu smartphone —, eu apenas pesquisei muito antes de trocar, recentemente, o meu já obsoleto iPhone 4. Eu sou o que alguns psicólogos chamam de maximizador, alguém que gasta muito tempo analisando uma grande quantidade de opções, às vezes todas, antes de escolher.

É assim com quase toda aquisição que eu atribuo alguma importância, mas não se limita a compras. Para escolher as cores certas do novo layout do Pequeno Guru (sem falar nos 9 meses que levei para escolher o novo tema), eu precisei testar várias tonalidades de amarelo, marrom, cinza e espessura de linhas e tipos de fontes. Algumas vezes passei um bom tempo implementando algo só para ver que não ficou legal e abandonar. Tudo isso para saber que eu estou tomando a melhor decisão possível.

O autor do livro “O Paradoxo da Escolha”, Barry Schwartz, descobriu em suas pesquisas que há, basicamente, dois tipos de decisores: Os maximizadores e os satisficers (não ouso traduzir. O termo nasceu da junção de satisfeito e suficiente). Há um teste que você pode fazer para saber onde se encaixa, mas é quase certo que você já saiba. O teste indica que a maioria das pessoas está no meio dos dois e age conforme a situação. Se você é um maximizador, uma espécie de decisor perfeccionista, do tipo que passa horas conhecendo tudo que há para conhecer sobre algo, criando mecanismos para facilitar decisões, comparando características e, às vezes, se pergunta se não está gastando tempo demais naquilo, cuidado!

O problema dos maximizadores é que, embora eles consigam os melhores empregos e salários mais altos, eles costumam estar menos satisfeitos que os outros, e esse é um ponto a ser levado muito a sério. Em seu livro, Barry Schwartz relaciona o aumento das opções que temos hoje (e a liberdade para escolhê-las) com o aumento da depressão. O debate é longo e há estudos dos dois lados que argumentam se muitas escolhas melhoram ou pioram a vida das pessoas. Não vamos seguir esse caminho.

A questão que eu quero levantar é: suas escolhas o deixam feliz ou triste? Se você gasta um tempão avaliando opções e, ao se decidir, ainda acha que poderia ser melhor, você precisa mudar. Uma coisa é fazer uma escolha inadequada ou ineficiente, e há maneiras de melhorar isso, outra coisa completamente diferente é tomar uma boa decisão (adequada e eficiente) e achar o contrário. Mudar isso é complicado e o primeiro passo é se dar conta de é um problema. Felizmente, isso não acontece comigo. Embora eu me irrite um pouco com a minha “necessidade” de avaliar cada possibilidade (em alguns casos fazendo comparações matemáticas), eu costumo ficar bastante contente ao final dela.

Ao precisar escolher algo, você quer tomar a melhor decisão possível, ou qualquer uma que o satisfaça já basta? A resposta para essa pergunta pode lhe tirar um grande peso das costas, o mesmo peso que costumam deixar maximizadores frustrados ao final. Nas pesquisas do Schwartz não se constatou que um toma melhores decisões do que o outro e, por incrível que pareça, ambos são bastante exigentes. Ou seja, maximizadores gastam mais tempo, ficam mais insatisfeitos para, ao final, tomar uma decisão tão boa quanto alguém que decidiu de forma mais tranquila e rápida. Para os maximizadores, é realmente um desafio ter que decidir algo relativamente importante sem ter tempo para fazer. É como se estivesse faltando algo. Não é a toa que as pessoas desse grupo tendem a apresentar menor satisfação com a vida.

Esse estilo de decisão também afeta os relacionamentos (o que não afeta?). Parece que não há estudos sobre isso, mas um casal tende a ser mais equilibrado quando são diferentes. Não há pré-disposição do homem ou da mulher a ser mais um do que outro, mas homens tendem a se encaixar mais em algum perfil (enquanto mulheres ficam mais no meio). Satisficers podem ajudar maximizadores a não deixar boas oportunidades passarem. Como ambos seguem altos padrões, a qualidade das decisões permanece,m  mas elas são tomadas mais rapidamente. Por outro lado, acredito que maximizadores possuem mais argumentos para justificar as decisões tomadas, o que é algo muito positivo quando tempo não é um fator crucial.

Ao final, o que realmente importa é ficar feliz com as decisões tomadas. Se foi boa, uhhu! Se poderia ser melhor, tudo bem, na próxima você acerta. Schwartz diz que maximizadores vão deixando de ser assim com o tempo, provavelmente por compreenderem um pequeno segredo da vida que nada precisa ser deliberadamente perfeito para ser bom.

A maioria das coisas na vida são suficientemente agradáveis, boas o bastante, “legais” em vez de “extraordinárias”. Saber se satisfazer com o suficiente (diminuindo o grau de exigência) é uma virtude, isso não apenas aumenta a satisfação com a vida no geral, como gera mais oportunidades para fazer o que se gosta. Como Erlend Øye, um dos meus músicos favoritos, explicou certa vez: “demora o mesmo tempo para se ir de 0 a 90% quanto para ir de 90% a 100%”. Então, parece ser sensato mirar nos 90%, mas 70% está bom pra caramba!