O verdadeiro sentido de compartilhar

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Estamos na era do compartilhamento. A época mais fácil de se compartilhar algo é também a época mais fácil de começar algo. Hoje, negócios com ZERO verba de marketing vendem milhares, talentos das mais distantes cidades do Brasil conseguem ser vistos por todo o país e empreendedores com uma boa ideia conseguem levantar dinheiro o suficiente para transforma-la em realidade. Vivemos a era em que você não precisa de nada para criar algo do zero, a não ser iniciativa — uma das únicas coisas que não ficam mais fácil com o tempo, fica mais difícil.

Quando criei o Pequeno Guru há quase 6 anos eu só queria compartilhar algumas opiniões e coisas que achava legal. Paguei o servidor mais barato que encontrei, usei um tema grátis com algumas modificações e comecei a postar coisas sobre propaganda e marketing, a maioria derivada de outros sites. Hoje, os artigos são três vezes mais longos e escrevo cada um deles do zero, consequência de alguns anos de prática e leitores fiéis que gastam seu tempo escrevendo emails, tuítes e comentários elogiando o site. No novo layout gastei R$350 o triplo do que gastei dois anos atrás em outra repaginação. Alguém pode me questionar por que eu gasto dinheiro do meu próprio bolso e várias horas do meu tempo mantendo um site que não está no topo dos mais lidos, não ganha prêmios e nem é fonte de receita constante. A resposta é: satisfação.

A era do compartilhamento também é uma época de pouca satisfação na vida. As pessoas estão insatisfeitas com tanta coisa que nem é preciso se esforçar para pensar em algumas: instatisfação com o trabalho, com o corpo, o casamento, o planeta, a política, a casa em que moram, etc. Se tudo é mais fácil hoje em dia porque as pessoas estão mais infelizes? Alguns cientistas sociais diriam que uma das causas é que saber tanto da vida dos outros aumenta a instatisfação com a sua própria vida. As pessoas estão deixando de viver a própria vida para viver a do outro, através de curtidas e compartilhamentos.

Eu fiquei chocado quando minha noiva me disse que um dos seus grupos no WhatsApp, do qual participa(va), enviaram 70 mídias — entre fotos e vídeos — em menos de 24 horas. O grupo tinha 10 pessoas, ela não enviou, logo a média é de quase 8 arquivos por pessoa em um dia. Uau! Assim fica fácil perceber porque vemos poucas iniciativas interessantes a nossa volta, as pessoas estão ocupadas compartilhando o que já existe.

O chamado princípio 90-9-1 diz que para cada 1 pessoa que cria algo novo, 9 re-editam esse conteúdo e 90 são meros espectadores/usuários (e agora, compartilhadores). Descobriu-se isso com o Wikipédia em 2006, mas de um tempo para cá ficou muito evidente com o boom dos sites sociais. Trabalho com marketing, uma área em que deveria ter mais pessoas criando, mas infelizmente não saberia dizer de cabeça uma única pessoa que criou algo seu. Músicos que só fazem cover, escritores de mural de Facebook, artistas cujo talento foi suprimido pela rotina do dia a dia e tantos outros perfis interessantes que o mundo adoraria descobrir, mas não tem a oportunidade . Todos nós temos algo a compartilhar, algo que gostamos de fazer e realmente somos bons. Eu não sei programar, mas fucei tanto para criar o Pequeno Guru que hoje tenho conhecimentos consideráveis em CSS. Criar algo seu não gera apenas satisfação, mas é também uma constante fonte de aprendizado.

Compartilhar algo que você já é bom o torna melhor.

Se você não gosta de escrever, grave; se não gosta de aparecer no vídeo, fotografe; se não tem dinheiro para comprar uma boa câmera, tire com o celular. Faça as pessoas rirem, ensine, demonstre, compartilhe conhecimento, arte, whatever. Nada precisa ser perfeito, aliás as pessoas estão de saco cheio de perfeccionistas.  Tem muita coisa boa aí fora que nos encantam, mas será que você não pode fazer parte disso? Por que tem que ser os outros e não você? Conheço alguém que saiu na capa de algumas revistas famosas pela sua iniciativa de distribuir lenços para mulheres com câncer recuperarem sua autoestima. Isso é sensacional! Mas você não precisa fazer algo dessa proporção, você precisa fazer algo. Eu sigo um sujeito no YouTube que ensina a ganhar músculos sem usar nenhum peso, os chamados exercícios calistênicos. Algo que não fazia ideia que existia. Isso é um talento? Não sei, mas é algo estimulante e desafiador. Uma agência britânica criou o Learn Something Every Day, todos os dias eles divulgavam uma curiosidade muito interessante com uma arte bonitinha. Algo simples e despretensioso, a ideia deu tão certo que virou livro. Se é bem feito, interessante e acrescenta à vida das pessoas, pode apostar que não faltará gente querendo ver. O que não falta é público, mas da mesma forma que o Steve Jobs se referiu aos consumidores, o público não sabe o que quer até você mostrar.

A regra número 1 de começar algo novo é: faça por você não pelos outros. Não comece um site já pensando em lançar um livro ou uma ONG esperando ajudar milhões. Elogio e audiência são ótimos motivadores, mas a satisfação mesmo vem de dentro, do seu esforço por ter criado algo e saído na frente de milhares de pessoas que apenas compartilham, satisfação vem do crescimento diário que se obtém ao ter que lidar com coisas novas e a busca por ser melhor a cada dia. Dá trabalho, consome tempo, mas se você realmente gosta, verá que o prazer compensa.

Seria muito melhor se as pessoas compartilhassem o seu trabalho em vez de você o delas, não seria? Pense agora em uma paixão que você gostaria de compartilhar, algo que você domina e pode ensinar. Vamos lá, deve haver alguma coisa… então crie um site, um blog, um canal no YouTube, uma lojinha na rua, algo na sua casa. Compartilhar só vale realmente à pena se você puder crescer junto.