Memórias da melhor palestra sobre carreira de todos os tempos

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Na manhã do dia 10 de novembro, John Gardner chegou à sede da McKinsey em Phoenix, no Arizona, para dar uma palestra aos funcionários da já renomada empresa de pesquisa. Para não esquecer de nada, ele escreveu tudo que gostaria de falar. Os valiosos conselhos não eram específicos à carreira de analistas ou pesquisadores, mas a todos que se esforçavam para crescer como profissional e ser humano. A incrível palestra passou a ser considerada um dos mais compartilhados textos motivacionais em eventos de negócios do mundo todo durante 20 anos.

Gostaria de compartilhar alguns pontos essenciais desse longo discurso que permanece incrivelmente atual após 24 anos. John W. Gardner era um daqueles senhores que tinha muito a ensinar, lutou na guerra, trabalhou no Governo, foi contra guerras (Vietnã), fundou ONGs, escreveu livros, deu discursos e virou nome de bolsa de estudos em Stanford. Sua vida parece ter sido baseada no princípio da auto-renovação, livro que escreveu na década de 60.

Naquela manhã de novembro, Gardner falou sobre muitas coisas e tudo começou com uma analogia com crustáceos. Ele dizia que os seres humanos não são como certos crustáceos que precisam tomar a difícil decisão, ainda jovem, de onde irão viver o resto de suas vidas. Ainda assim, algumas pessoas fazem exatamente isso após passar por algumas situações que abalaram sua autoestima e confiança e os prenderam em uma amargura sem fim. Todos nós conhecemos alguém que no fundo se sente fracassado e usa o cinismo e o temperamento ácido como defesas para situações do cotidiano. Um outro tipo de pessoa que você também deve conhecer aquele que parece estar no automático, como um robô impossível de se entusiasmar com algo.

“Nem todo mundo pode chegar ao topo, mas isso não é o sentido da vida. Refiro-me às pessoas que, não importa quão ocupadas elas pareçam, pararam de aprender e crescer”

Não se torne esse tipo de pessoa que, por não ter chegado aonde gostaria, desistiu de lutar. Começamos a vida cheios de gás e vamos perdendo a potência com o passar dos anos, como um carro velho que de tantos remendos e pancadas agora só anda em segunda. Gardner demonstrou estar preocupado com homens e mulheres atuando muito abaixo de seu potencial, tendo se tornado pessoas mais rançosas e entediadas do queconseguem perceber ou admitir.

1ª coisa para guardar: o tédio é o mal de todas as carreiras. Cuidado!

“Aprenda com tudo na vida. Aprenda com seus erros. Aprenda com seus acertos. As lições não são sempre felizes, mas elas não param de vir. Nós aprendemos em nossos trabalhos, entre amigos e em família. Aprendemos ao aceitar os compromissos e ao encarnar papéis que a vida nos dá. Nós aprendemos ficando velho, sofrendo, amando, lidando com coisas que não podemos mudar. Aceitando riscos.”

Após certa idade, o aprendizado deixa de ser baseado em informações e habilidades e assume um lado mais comportamental. Aprendemos a nos preparar melhor para as armadilhas da vida, a evitar situações que nos deixam pra baixo, a lidar melhor com as outras pessoas, aprendemos a reconhecer sua importância para o nosso crescimento, então finalmente aprendemos que sozinho não chegamos a lugar algum e a vida é deprimente. Saber administrar tensões, a evitar ansiedade e outras coisas que nos deixam mal só vem com a maturidade (quando vem). Mais uma frase sensacional para você anotar no seu caderninho é: “o mundo adora talento, mas paga pelo caráter”.

2ª coisa para guardar: Aprender não é exclusividade dos mais jovens — as lições mais importantes da vida são as últimas.

Uma lição que aprendi em meados dos meus 20 anos: trabalhe para si. Empresas não pensam em funcionários, pensam em lucro, e a maioria das pessoas também pensam dessa maneira. Não é que elas estejam tentando derrubar você, mas elas o farão se precisarem para subir de cargo. Se você não acredita, então deixe que o tempo lhe mostrará. Gardner avisou que esse é o tipo de coisa difícil de aprender no começo da vida, a regra geral é passar por uns bocados até que se descubra.

3ª coisa para guardar: a maioria das pessoas não estão nem contra nem a favor de você.

“…então você se mata subindo todo suado para alcançar o que você achava que era o seu objetivo, quando chega no topo você para, olha ao redor e é possível que se sinta um pouco vazio. Você se pergunta se subiu a montanha errada.”

É difícil pensar na carreira e não pensar em objetivos, planos e o quão longe você está deles. Mas a vida não é medida por pontos (dinheiro é para alguns, mas essa também é uma lição a aprender). Queremos acreditar que há realmente um ponto de chegada, mas e depois? Sobra o vazio. A vida não é uma montanha com um cume, nem uma charada com uma resposta. “A vida é um desdobramento infinito e um diálogo imprevisível entre as nossas potencialidades e situações da vida.” Tem tanta coisa que eu e você precisamos melhorar que se pararmos para pensar, vamos enlouquecer. Aqui vão algumas delas: capacidade de aprender, de sentir, de imaginar, de compreender o outro, de amar, de inspirar.

4ª coisa para guardar: O verdadeiro objetivo da vida é o crescimento.

“Não há perfeição técnica que substitua um espírito elevado e o desempenho superior gerado por uma forte motivação. O mundo é movido por pessoas altamente motivadas, entusiasmadas, por homens e mulheres que querem ou acreditam muito em algo.”

Ainda assim, valorizamos mais o bom currículo de alguém sério e compenetrado do que o de alguém sorridente e contagiante. É claro que competência técnica é imprescindível, mas ‘vontade’ e entusiasmo são fatores frequentemente menosprezados pelas empresas. Bons profissionais nem sempre são pessoas interessantes, mas pessoas interessantes são quase sempre bons profissionais. É preciso ser interessante, contrate pessoas interessantes, trabalhe com pessoas interessantes, seja amigos de pessoas interessantes, é contagiante. Mas também seja interessado. Quando o seu interesse por algo termina, a motivação a acompanha.

5ª coisa para guardar: Motivação realmente paga contas. Seja interessado pelo que faz.

“Nós somos preocupados e desbravadores por natureza, e queremos sentido em nossas vidas. É raro uma pessoa que viva como um gato vira-lata, vivendo um dia após o outro, aproveitando a vida como pode e morrendo sem ser notado.”

A vida não é fácil para ninguém. Até quem nasce em berço de ouro, frequentemente, precisa lidar com a depressão e a falta de confiança nas pessoas em certa altura da vida. Encontrar um sentido para a vida nos ajuda a lidar com as dificuldades mais facilmente, e encontrar forças onde normalmente não haveria.

Gardner comenta que, ao longo da história, o sentido da vida sempre veio através da cultura de um povo e suas rica tradições. Hoje isso não existe mais e cabe a cada um encontrar o sentido da sua própria vida. O sentido vem dos compromissos que assume, seja com a religião, certa conduta ética, com a família, com o trabalho, os seres humanos. Jovens estão sempre correndo atrás de uma identidade para assumir, e ela não vem mais facilmente, é preciso assumir um compromisso. Não é à toa que muitos jovens se perdem pelo caminho e sofrem para se reencontrar. Parece que as pessoas se tornaram superficiais demais para se comprometerem com qualquer coisa, e sem comprometimento não há sentido.

Algumas pessoas criticam outras quando elas mudam consideravelmente seu estilo de vida. Ao fazer isso, essas pessoas estão se comprometendo com algo importante, algo que devolve aquele gás da juventude, consequentemente, impacta também as pessoas mais próximas

6ª coisa para guardar: Encontre o sentido da sua vida. Comprometer-se com algo grande, além de você, torna a vida mais leve e preenchida.

“O futuro não é criado por pessoas que não acreditam no futuro [os pessimistas]. Homens e mulheres de vigor sempre estão preparadas para apostar no futuro, arriscando suas próprias vidas em aventuras de resultado incerto. Se todos tivessem olhado antes de pular, nós ainda estaríamos agachados em cavernas desenhando figuras na parede.”

Uma coisa é ser otimista outra coisa é ser inocente, ou como a psicóloga Heidi Halvorson chamou certa vez, otimista idiota. Para conquistar algo, é preciso ir além trabalhar duro com pensamento positivo. Mas não quer dizer que mesmo com tudo isso, você irá conquistar de primeira ou de segunda, agir assim significa que você irá conseguir tudo que quiser, um dia, se persistir. A vida é cruel, se você tem 20 anos irá descobrir isso, se tem 30 já teve algumas boas doses de decepção. Apesar da dor do fracasso que costuma ser mais comum do que o sucesso, a vitória uma hora chega a quem persevera. Churchill dizia “me considero um otimista, não tem muita utilidade ser outra coisa.” Lembre-se que o arco-íris se forma ao final da chuva.

7ª coisa para guardar: Otimismo compensa, mas não perca o pique.

John Gardner fala mais de uma vez das raras pessoas (uma proporção ridiculamente pequena delas) que tornam o mundo melhor sem fazer nada em específico, apenas existindo. Ele não entra em detalhes, mas já ouvi falar de pessoas assim, pessoas que emanam algo tão especial que fazem de todos a sua volta, verdadeiros felizardos. Seja pela sua gentileza incomparável, sua sabedoria ou o amor pela vida que contagia. Pessoas assim levaram uma vida toda para chegar a esse ponto, uma vida inteira de aprendizado e vivência. Se você quer ser alguém assim algum dia, nunca pare de aprender.

8ª coisa para guardar: Alguns homens e mulheres tornam o mundo melhor apenas sendo o tipo de pessoas que são.

A gente nunca sabe o que vem pela frente. Aliás, que bom seria se viesse apenas pela frente, mas a vida é tão dura que nos ataca em todas as direções — 360 graus. Não podemos nos dar o luxo de nos acomodar. A vida é uma constante luta pelo equilíbrio, um esforço contínuo e nunca uma vitória garantida. Cada batalha é lutada e re-lutada, disse John Gardner. Para isso, precisamos da famosa resiliência, seja lá como for que se desenvolva isso. Porém, uma coisa é certa: a vida nunca nos dá mais do que podemos carregar.

Baseado no texto original: “Personal Renewal”