Por que comer menos carne pode mudar o mundo

PDF pagePrint page

mudar_mundo_carnePor comer menos carne entenda como diminuir consideravelmente o consumo, isto é, pagar para usar, mas não necessariamente se tornar vegetariano. Passei os últimos dois anos pensando se deveria ou não abordar esse assunto no Pequeno Guru. É um assunto que tende a gerar polêmica facilmente por mexer com hábitos e crenças tão enraizadas na nossa cultura e do ocidente como um todo. Por isso, irei abordar de uma perspectiva mais direta, usando fatos e dados. Se esse assunto não lhe interessa, fique tranquilo, este será o único artigo que você verá no Pequeno Guru. No entanto, peço que dê uma chance e leia até o final. É saudável saber o que acontece do nosso lado.

A alimentação centrada na carne é algo mais presente na nossa cultura ocidental. Israel e Índia, por exemplo, possuem uma grande parcela da população vegetariana. Países com tradição budista — Taiwan, Japão, Vietnam — recomendam a dieta vegetariana. Porém, varia um pouco dependendo do país; os budistas Therevada da Tailândia consideram certo comer carne apenas se ela for oferecida a você, enquanto os Vajravana do Tibete deixam a critério de cada um.

Acredite, vegetarianismo é um assunto que eu não gosto de falar, mas que sempre vem à tona quando estou presente. É um assunto desconfortável para falar tanto em um reunião de negócios como em uma festa de aniversário. Alguns acham interessante e ficam surpresos quando compartilho alguns fatos e dados, outros dizem “legal, mas eu nunca conseguiria”. Certamente, tudo é impossível quando não queremos. O que me motiva é muito mais do que poupar a vida dos pobres animais, é perceber que contribuir com isso é contribuir com a destruição do meu corpo, do planeta e, ao que tudo indica, do futuro dos meus filhos e netos.

Se você quer mudar o mundo, parar de comer carne pode ser a maneira mais fácil de fazer isso, e eu vou tentar justificar. Mas por favor, caro leitor, não polemize e esteja completamente livre para ter sua própria opinião. O meu objetivo não é convencer pessoas, mas fornecer informações para que elas se convençam de que é o melhor para todos.

O lado econômico e ambiental

Uma vez li o case de um orgão americano de saúde que estava tentando criar uma campanha eficiente contra alimentos gordurosos. Eles tentaram de tudo até perceber que a melhor maneira de fazer isso era não usar números, mas associá-los a algo mais prático, por exemplo mostrando que a pipoca do cinema tem mais gordura do que um Big Mac. Até eu fiquei assustado, mas se você já foi a uma apresentação do Circque Du Soleil no Brasil sabe do que eu estou falando.

Mesmo ciente disso, preciso trazer alguns números. Diferente da maioria dos vegetarianos, meu discurso não se limita aos animais. Que eles sofrem todo mundo sabe, e embora ninguém queira ver, está disponível a todos na internet. Apenas saiba de uma coisa: a proporção é muito, muito maior do que você imagina. Meu argumento é um pouco mais lógico e racional, penso que só unindo a razão e a emoção é possível ser forte o bastante para tamanha mudança de hábito. Também não irei falar sobre o impacto na nossa saúde, pois todo mundo sabe. Vou tentar me focar no que não se sabe. Abaixo alguns números:

  1. Produzir 1kg de carne consome mais de 12.000 litros d’água. 1kg de batata: 41L. (veja este infográfico que criei).
  2. Um hectare de terra produz 280kg de carne bovina e 44.800kg de batatas.
  3. O estado de Santa Catarina tem 1,9 milhões de hectares de mata virgem e 2,5 de pastagem.
  4. 79% da produção de soja do mundo vai pra alimentar o gado.
  5. A pecuária emite mais gases tóxicos do que o setor de energia e de transportes e pagam muito menos impostos.
  6. O orçamento da indústria de laticínios subsidiado pelo Governo americano é quase 3 vezes maior que o de todas as frutas e legumes.
  7. De 1980 a 2008, ajustados à inflação, o preço do bife caiu 53% enquanto os das frutas cresceram 46%.
  8. 83% das aves e suínos estão infectadas por salmonella ou bactéria retorcida no momento da compra. (A segunda é a principal causa de intoxicação alimentar da Grã-Bretanha.)
  9. A pecuária produz 130 vezes mais excremento do que os humanos. O poder poluente disso é 160 vezes maior que a capacidade sanitária dos municípios.
  10. Pelo menos 11,6 bilhões de animais são mortos no Brasil, por ano, para alimentação. (Sem contar peixes, animais de caça e abatedouros clandestinos.)
  11. Entre 1935 e 1995, o peso de aves de corte cresceu 60% enquanto seu tempo de abate diminuiu 60%. Tudo isso comendo 57% menos.
  12. Animais recebem cerca de 11 milhões de kg de antibióticos, e estão cada vez mais resistentes a eles.
  13. Cientistas atribuíram o surgimento e avanço dos vírus H1N1, H5N1 e SARS em grande parte ao “aumento da demanda por proteína animal”

[Para mais dados, veja este infográfico]

Aqui vai o resumo, a produção e o consumo de carne é a que:

  1. Mais consome água
  2. Mais polui
  3. Mais desmata
  4. Mais gera problemas de saúde
  5. Mais mata (doenças do coração)

Se você reclama do preço do Big Mac no Brasil, saiba que ele deveria custar 3 vezes mais para pagar todos os custos provenientes da produção da carne. É o que diz o autor do livro Meatonomics, David Simon. Esse fenômeno é chamado de externalização. Para entender, imagine a taxa de coleta de lixo que você paga. Ela é internalizada porque você paga pelo lixo que produz. Agora, imagine que você resolva levar seu lixo de carro até um terreno abandonado e o jogue lá. Esse custo é externalizado porque alguém pagará pelo seu lixo, um terceiro que não tem nada a ver. Outro exemplo de custo externalizado são os cigarros, apesar da alta carga tributária, os gastos em saúde que eles acarretam faz com que um maço de que custa, nos EUA, $5,85 devesse custar $10. O que deve ser ainda pior no Brasil já que o SUS é custeado pelo governo. Por ano, as despesas da indústria da carne impostas aos cidadãos americanos é de cerca de US$ 414 BILHÕES! Infelizmente, só temos acesso a dados americanos porque nenhum brasileiro tomou a iniciativa de calcular, mas vocês realmente acham que é diferente no Brasil?

Isso acontece o tempo todo e em proporções homéricas na indústria da carne. As empresas pagam muito pouco pela energia e água que consomem, e com certeza nenhum programa ambiental compensa a quantidade de poluentes despejadas no solo e no ar.

Sintetizando, as consequências do alto consumo de carne na saúde e no meio-ambiente são tamanhas, que empresas do setor deveriam pagar muito imposto, no entanto, elas não pagam e ainda recebem do governo em forma de subsídios. Não é a toa que duas das 8 maiores empresas do Brasil sejam do setor de proteína animal. E eu não vou nem citar as condições de trabalho (aqui um documentário sobre) e o poder político que essas corporações têm, inclusive doando milhões para campanhas políticas.

Chega desse assunto nojento. Vamos falar de aspectos mais agradáveis de não comer carne.

O lado filosófico

Uma das coisas que sempre me deixou intrigado é por que tantos homens brilhantes da história defenderam a alimentação sem carne. Aqui vai uma pequena lista: Alber Einstein, Leonardo Da Vinci, Paul McCartney, Tolstói, George Bernard Shaw, Benjamin Franklin, Franz Kafka, Sócrates (filósofo), William Blake, Steve Jobs, Gandhi, Alex Bogusky (publicitário da década), Carlos Ayres Britto (ex-presidente do STF), e outros que eu realmente simpatizo como Forest Whitaker e o cantor Jason Mraz.

“Cara, isso tem que fazer sentido. Não pode ser uma completa loucura”, eu pensava antes de abandonar todo tipo de carne. Passei 5 anos sem comer carne vermelha antes de largar o frango, peixe e todos os derivados, o que inclui gelatina, travesseiros com pena e roupas de couro. Mas eu não sou tão radical como você pode achar, eu tenho a minha chamada gray area (zona cinza), um termo que eu gosto muito e se refere a “exceções que você se permite fazer”. Por exemplo, eu jamais usaria uma jaqueta de couro, mas cintos e sapatos eu compro porque duram muito mais do que os de couro sintético. Seria muito pior para o meio-ambiente se eu precisasse comprar 2 cintos por ano em vez de um a cada dois.

Einstein disse que nada beneficiaria mais a saúde do que uma dieta vegetariana. Da Vinci era tão a frente do seu tempo que ele percebeu que os homens sobreviviam através da morte de outros seres vivos. Sendo franco, eu não culpo os homens de uma época em que tudo era 100 vezes vezes mais difícil. Mas hoje temos opções. Hoje, as consequências desse negócio ultra-lucrativo são gigantescas e representam um perigo real à humanidade. Por último, tanto o filósofo Hipócrates como o inventor Thomas Edison, apesar de terem vivido épocas completamente diferentes, acertaram que a alimentação é o melhor remédio e pode tanto prevenir como curar doenças.

O lado social

Um dos meus livros favoritos é do Jonathan Safran Foer, um jovem escritor americano cujos livros já viraram filmes de Hollywood. Sua única obra de não-ficção é “Comer Animais” onde ele narra como o nascimento do seu filho o ajudou a parar de comer carne. Como muitas pessoas por aí, ele passou anos tentou seguir uma dieta sem carne, mas sempre cedia à tentação. Quando sua esposa engravidou, ele decidiu que seu filho não viveria nesse mundo de crueldade, e a família toda se tornou vegana.

Claro, é muito mais fácil para um nova-iorquino do que para um paraense morando no Rio Grande do Sul como eu. Em meio a histórias e informações que impressionam, Jonathan cita os dilemas sociais vividos por vegetarianos. Ele diz: “Amo sushi, amo frango frito, amo um bom filé. Mas há um limite para o meu amor.” É por aí, meu desejo não pode superar meus princípios.

Cultura e hábitos sociais são os mais cruéis para os vegetarianos. Tornei-me vegetariano alguns anos após mudar de estado, e alguns podem pensar que o RS é o pior lugar para um vegetariano, mas depende da cidade. Em algumas regiões do estado é realmente difícil fazer uma refeição sem carne, em outras, mais tranquilo. É preciso estar preparado. A restrição alimentar do vegetariano o obriga a se especializar em dizer “não, obrigado” com mais frequência e a desenvolver uma visão de raio-x dos alimentos e a saber de coisas que os outros não sabem, por exemplo, que a maioria dos produtos de morango utilizam corante feito com o inseto cochonilha.  Eu realmente não quero inseto no meu iogurte. O grande problema são as pessoas que parecem viver em uma realidade onde não comer carne é bizarro e impossível de compreender. E é assim por uma razão: falta de informação. O país precisa de mais iniciativas como a Segunda Sem Carne, do Governo de São Paulo, que serve merendas vegetarianas às crianças de escolas públicas.

É essa falta de informação o motivo principal pelo qual estou escrevendo o artigo mais longo do Pequeno Guru. Preferia estar falando de marketing, mas acho que precisava compartilhar um pouco dessa realidade com vocês. Quem sabe juntos não fazemos a diferença.

cit_will_tuttle