O que você precisa saber sobre leitura corporal

PDF pagePrint page

linguagem_corporal

Um dos livros mais conhecidos no mercado de trabalho é o tal de “O Corpo Fala”. Até quem nunca leu – como eu – garante que vale a leitura. Somos fascinados pelos mistérios do ser humano e esse fascínio aumenta 100 vezes quando tem a ver com alguém escondendo algo de você. Recomende a um amigo um livro que ajudará em sua carreira e ele irá considerar lê-lo, mas dificilmente o fará. Recomende um livro que o ensine a desmascarar alguém mentiroso que finge ser quem não e seu amigo estará adicionando o livro à cesta de compras de alguma livraria virtual instantes depois.

A mensagem corporal é um desses mistérios de interesse quase que universal — de investigadores de polícia a vendedores, passando por todos os homens em um relacionamento com uma mulher — todos podem tornar sua comunicação mais eficiente e obter mais facilmente o que desejam fazendo uso de elementos-chave do comportamento humano.

Ao contrário de decorarmos posturas e trejeitos, irei utilizar conceitos mais gerais (possivelmente mais eficazes) que se aplicam à maioria das situações, utilizando como base o best-seller do ex-agente da FBI Joe Navarro, “What Every Body Is Saying”.

Para começar, não há receitas do tipo “ele está de braços cruzados, está impaciente e fechado”. Não se pode dizer exatamente como alguém se sente só de observá-lo contraindo os lábios. O que você pode fazer é medir o seu nível de conforto. Como explica a pesquisadora Bella DePaulo: “Tentar disfarçar culpa ou decepção produz uma alta carga cognitiva ao se esforçar para criar respostas a questionamentos que, em outra situações, seriam simples.”

O corpo humano é tão bem conectado ao cérebro que, por mais que se tente, é praticamente impossível esconder o que sentimos, ou alguém consegue administrar seus batimentos cardíacos e evitar a ansiedade diante de momentos de tensão? Se ficamos muito felizes, talvez consigamos segurar a euforia e não gritar um grande “uhhuu!, mas nossos olhos arregalados, o leve sorriso ou as mãos inquietas darão sinais de que algo bom está acontecendo. O nosso corpo dá sinais de como nos sentimos e o que queremos o tempo todo e aí entra observação dos sinais, mas antes disso é preciso estabelecer um nível de conforto suficiente para que esses sinais (sobretudo de desconforto) se sobressaiam. É preciso estabelecer um parâmetro em que se basear, e o segredo é deixar a pessoa o mais confortável possível.

Com isso em mente, vamos analisar alguns sinais e o estímulo por trás deles.

ROSTO

No que prestar atenção: sorriso

O cérebro possui uma parte especializada em reconhecer faces (FTA — Fusiform Face Area), isso significa que somos muito bons em ler expressões faciais e fazemos isso o tempo todo. E os sorrisos são elementos de grande importância nesse processo, já que sorrimos cerca de 20 vezes por dia (o homem metade disso e a mulher o dobro) e grande parte deles advém da interação social, saber interpretá-los pode ser uma grande ajuda no processo de decifrar boa parte da comunicação não-verbal.

Paul Ekman foi o primeiro a explicar a diferença entre sorrisos falsos e os verdadeiros. (Faça este teste e veja se você é capaz de detectar.) O sorriso falso é mais longo e vem da parte consciente do cérebro. Quem nunca riu de uma piada sem graça do chefe? Quem nunca distribuiu sorrisos em eventos que você dava uma mão para poder ir embora mais cedo? Por serem conscientes, sorrisos falsos afetam menos o corpo e, normalmente, envolvem apenas um músculo (orbicular bucal) no processo, ou seja a boca. No sorriso verdadeiro, gerado pela emoção através do sistema límbico, as bochechas se levantam e os olhos se contraem gerando covinhas nas laterais e o final das sobrancelhas se abaixam ligeiramente.

Resumindo, um sorriso verdadeiro envolve nosso rosto todo (bochechas, olhos e bocas) e quase nunca dura mais do que 4 segundos. Por outro lado, se nada mais se mexe além da boca ou ela está contraída, é uma grande pista de que algo não está bom.

BRAÇOS

No que prestar atenção: expansividade dos braços

Eles são ótimos para demonstrar animação. Como em um jogo de futebol ou show em que agitamos nossos braços para cima, uma apresentação na qual utilizamos gestos moderados como uma extensão da fala ou em uma conversa séria com o chefe em que os mantemos parados e baixos, os braços denunciam facilmente o nível de exaltação. Você deve reparar em duas coisas: a quantidade de espaço que eles ocupam e a altura que chegam.

Emoções negativas literalmente nos levam para baixo fisicamente, é uma resposta direta e instantânea do sistema límbico.

Desafiamos a gravidade quando estamos felizes, empolgados e interessados, como a perna balançando ou apontando pro alto. Diante da empolgação, eles não ficam parados. O oposto também é verdadeiro. Fale para alguém que ela cometeu um erro e você verá seus ombros e braços caírem. Emoções negativas literalmente nos levam para baixo fisicamente, é uma resposta direta e instantânea do sistema límbico.

TRONCO

No que prestar atenção: negação frontal

Por uma questão de sobrevivência, mantemos distância do perigo, principalmente aquilo que é mais importante, como a parte frontal do nosso corpo. Tudo ali — boca, olhos, peito, partes íntimas, etc — é extremamente sensível a coisas que gostamos e não gostamos. Inconscientemente, nossa mente dá sinais para proteger essas partes vitais diante de uma ameaça ou desconforto, o que torna a negação frontal um sinal claro de que algo está errado.

Se você já brigou sério com uma namorada a ponto dela se afastar quando você se aproximava era porque, naquele momento, ela estava insegura e seu corpo estava se protegendo. Por outro lado, quando nosso sistema límbico baixa suas defesas, nos sentimos mais confiantes e estufamos o peito e o abdômen em direção a alguém.

PERNAS

No que prestar atenção: direção dos pés

Eis uma parte interessante. Passamos a vida toda aprendendo a sorrir para câmera, parar de fazer caretas, fingir que estamos gostando de algo. Mas isso é algo relativamente novo para o homem que sempre dependeu muito mais das suas habilidades físicas do que sociais. Para chegarmos até aqui, um fator foi muito crucial: correr rápido.

Semelhante ao que fazemos com o tronco, nossas pernas tendem a apontar para a direção que gostaríamos de ir ou que nos interessam. O ex-investigador do FBI explica: “Quando duas pessoas estão conversando, elas normalmente falam ‘dedo a dedo’. No entanto, se um deles virar seus pés levemente para outra direção, fazer movimentos repetidos ou colocar os pés em L com um em direção a pessoa e o outro à saída, você pode ter certeza que ele quer ir embora.” Isso significa que os pés podem ser muito mais confiáveis do que o tronco, uma vez que ninguém irá conversar com você de lado.

E o que você pensa sobre pernas cruzadas? Segundo Navarro, é um grande indicativo de conforto, novamente uma questão de sobrevivência enraizada no decorrer da nossa história: pernas cruzadas dificultam a fuga. Mesmo que o mais entediante evento da empresa não coloque nossa vida em risco, o nosso corpo se prepara como se estivesse diante de uma fera 10 vezes o nosso tamanho.

Acredito que ninguém que esteja lendo este artigo tenha a intenção de usar esse conhecimento para interrogar pessoas, então a sua aplicabilidade é meramente social. Ter noção do que as pessoas estão achando da sua apresentação ou como reagem com a sua chegada é importante para sobreviver em mundo repleto de sorrisos e elogios falsos. Descobrir quando alguém fica desconfortável é um importante sinal para você ir fundo (se quiser obter uma resposta) ou mudar rumo (se quiser gerar engajamento).

Não se distraia por gestos isolados como o balançar das pernas ou o cruzar dos braços. Analise o todo. Ele estava assim minutos atrás? O que causou isso? Ele age estranhamente sempre que isso acontece? Quanto mais natural e confortável a pessoa estiver, mais fácil será notar comportamentos que fogem do normal. E lembre-se: o que é normal para você pode não ser normal para mim.

Baseado no artigo: “How to Read Body Language More Effectively”