A criatividade e o crime

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criatividade_crimeEle é a pessoa mais excêntrica de quem poderíamos receber conselhos de criatividade. Expulso de 5 escolas quando garoto e preso mais de 500 vezes quando adulto, o acrobata autodidata, mágico e mímico que ficou famoso por andar na corda bamba entre as torres gêmeas ainda em construção, em 1974, Philippe Petit acaba de lançar seu novo livro em que compartilha seus segredos de criatividade. Estranhamente interessante, Petit é o tipo de pessoa que você deve ouvir se quiser levar a sua criatividade ao último nível. O cara é totalmente pirado. Como artista, ele tem a liberdade de trabalhar uma criatividade sem limites que a maioria de nós profissionais não pode. Tem o cliente, o chefe, as normas da empresa, todos com o poder de nocautear boas ideias. Apesar de tudo, nos preparamos para não somente ter ideias, mas apresenta-las da melhor forma possível com o objetivo que elas se tornem realidade. Então, se você é funcionário de uma empresa ou mesmo dono dela cujo mercado dita normas e estabelece paradigmas, dificilmente conseguirá seguir a risca as dicas de Petit, mas basta um pouco desses 50 anos de experiência para agitar a sua cabeça e fazer chover ideias.

#1 REGRAS PARA QUÊ?

Ser criativo exige que não apenas se pense fora da caixa, mas a quilômetros de distância da caixa. É preciso ir ao extremo. Escrevi alguns anos atrás que a criatividade é rebelde, ela demanda ousadia, uma rebeldia quase criminosa que beira o caos tornam as coisas imprevisíveis. É preciso ser corajoso para contestar o status quo, questionar o modo de fazer as coisas e se rebelar contra rotina. Apesar das pessoas reclamarem da rotina, no fundo elas desfrutam da sensação de segurança que a previsibilidade proporciona. É preciso gostar do diferente e ser muito exigente — eis porque as pessoas mais criativas que conheço são um tanto chatas, no bom sentido é claro. Desde pequeno Petit se achava diferente dos coleguinhas pois não se contentava com qualquer coisa.

Para estar apto à criação plena, é bom que você aprenda as regras, mas que as esqueça e se rebele contra elas” (Philipp Petit)

Pessoas criativas são inquietas por natureza. Se tem uma coisa que me incomoda é fazer as coisas do mesmo jeito sempre, de pequenas coisas às grandes. Eu praticamente não consigo fazer o mesmo trajeto 3 vezes seguidas, sempre dobro em uma rua diferente na ida ou na volta só pra ver algo novo. Experimentar é fundamental. Como diz o Petit: “todo dia é como uma tela em branco”. E eu completo: por que fazer o mesmo desenho?

#2 TRABALHO 24 HORAS

Todo mundo que frequenta uma escola de propaganda já ouviu algum professor dizer que o publicitário trabalha 24 horas por dia, porque quando menos você espera pode surgir aquela grande ideia que você ficou horas perseguindo. Segundo Ane Dietrich, essa é a criatividade de Isaac Newton, um tipo de criatividade que necessita de grande conhecimento, mas que é engatilhado por fatores externos. Petit leva suas ferramentas de trabalho aonde quer que vá, e olha que as ferramentas dele são bem mais pesadas que o seu notebook, pasta ou mochila. Ele diz que mesmo quando está fazendo uma coisa que exige as duas mãos, ele coloca uma bola nas axilas, outra no queixo e outra atrás do joelho para praticar. O cérebro é algo incrível que trabalha mesmo quando não nos damos conta, acredito que manter contato (visual ou físico) com os nossos objetos de trabalho ajuda a “lembrar” o cérebro de que aquilo precisa ser resolvido, e por isso essa dica do Petit é tão interessante. A mente de um escritor nunca para de escrever, nem a de um inventor de criar, nem a de um criativo de pensar. Boas ideias não têm relógio, elas podem chegar a qualquer hora, esteja preparado.

#3 LISTAS

Como poderia um criativo viver sem listas? Popular e eficiente, listas ajudam a catalogar e organizar ideias, mas “organizada” não costuma ser um adjetivo muito comum, pelo menos não nas minhas. As minhas são disformes e não lineares. Começo escrevendo uma linha por vez e acabo escrevendo nas laterais, criando caixas, fazendo parênteses e setas. Ao que parece, esse caos é bom para a criatividade. Raramente, para não dizer nunca, o caminho de uma boa ideia é reto e calmo. Está muito mais para uma caça ao tesouro com um mapa velho e rasgado.

#4 TRANSFORMANDO ERROS EM ACERTOS

Se você é uma pessoa exigente como Petit, é provável que os fracassos sejam sua grande fonte de aprendizado. Embora seja um “mandamento” chave do autodesenvolvimento e eu já tenha lido e ouvido umas centenas de vezes, jamais aprendi a gostar de errar. Eu odeio errar, fico irritado, frustrado e evito pensar a respeito como uma tentativa de virar rapidamente a página, mas isso nunca acontece, o que é bom. Passada a frustração, me volto ao problema e tento refazer os passos que me levaram ao erro. Tento saber por que errei e como posso reduzir as chances disso voltar a acontecer. Em outras palavras, transformo a raiva de errar em disposição para aprender e melhorar. Petit faz o mesmo, em vez de cobrir o erro com desculpas, ele o esmiúça e analisa para descobrir o porquê, e reconhece que é sua culpa estar ali, de mais ninguém, e isso vira aprendizado. Ele diz adorar os erros e essa é parte que eu não entendo, principalmente de alguém cujo trabalho flerta com a morte. Acho que ele é mais louco do que eu pensava. “Eu acho que a natureza rebelde da mente é essencial para criar. Sem isso, você começa a criar em um formato e a observar regras – e essa é uma criação tímida.” (Philippe Petit)