A vida sem filtros

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vida sem filtros

É verdade que a beleza das coisas está nos olhos de cada um. Há indícios de que os gregos já diziam mais ou menos isso três séculos antes de Jesus nascer. Muitos séculos depois, quando o Brasil já havia sido descoberto, Shakespeare escreveu que “a beleza é trazida ao julgamento dos olho”. E Benjamin Franklin reiterou “a beleza, assim como o domínio supremo, é acompanhada de opinião”, 150 anos depois. Tantos outros romancistas compartilharam da ideia de que a beleza é algo subjetivo e particular.

E o que não é hoje em dia? A democracia e a liberdade dos tempos modernos parecem ter tornado tudo pessoal e relativo. Se alguém gosta de Big Brother e passa três meses por ano jogando fora algumas horas por semana com o programa, ele dirá que ninguém tem nada a ver com isso. Então, compartilhará alguma frase inspiradora tempos depois no Facebook, dando alusão a uma pessoa que ele pode ou não ser de fato. As pessoas fazem o que querem e como querem a hora que quiserem. O certo e o errado parece ter ganhado um milhão de novos tons entre os dois, mas não foi sempre assim. Até a idade média, se algo não era bom para o povo, então não era bom para ninguém e devia ser proibido. O certo e o errado, a felicidade e a melancolia, o belo e o feio eram todos muito bem definidos. Não havia como mascarar algo através da subjetividade e do poder da democracia, porque ela simplesmente não existia.

Confesso que não sei porque fui dar uma volta lá na idade média para falar de um assunto tão simples e atual. A questão é: não seria maravilhoso se tudo fosse vivido e experimentado exatamente do jeito que é? Se tudo fosse mais puro e verdadeiro; sem máscaras e efeitos que melhoram a aparência, mas acabam comprometendo a essência?

É comum alguém dizer hoje em dia “sem filtros” e não apenas para fotos. “Fulano está sem filtros hoje”, “é preciso filtrar suas ideias antes de enviar para o chefe, Ciclano”.  Usamos filtrar como “esconder” ou “suprimir”; o #nofilter ganhou destaque porque o mundo está cheio de filtros o tempo todo, não apenas nas redes sociais, mas na vida como um todo. É uma comparação barata, mas reserve um minuto para pensar a respeito e você verá que muitas das coisas que temos dado valor não refletem exatamente as coisas como elas são, mas a uma versão “enfeitada” dessa realidade. Curtimos o que gostaríamos que fosse, não o que é. Dizemos que valorizamos as amizades, mas ao primeiro conflito, soltamos os cachorros e deixamos a relação ir pelo ralo. Dizemos “eu te amo”, uma maneira muito mais bonita de dizer “sim, eu gosto de você”, como se fala “bom dia”.

Uma das três tesouros que Lao Tzu disse que as pessoas poderiam ter (os outros dois eram paciência e compaixão) era a simplicidade. Nenhuma das três coisas tinha ver com conquistas, fortunas ou prazeres, mas qualidades tão simples capazes de influenciar todo o resto. Mal sabia Lao Tzu que o tesouro ia valorizar ainda mais com o passar dos séculos.  Ser simples é ter a capacidade de ver a vida como ela é, sem filtros, e de valorizar o que se tem. Ao contrário de todas as outras épocas da história, simplicidade hoje em dia é artigo de luxo.

As pessoas dizem que não ligam para as aparências. Então, você vê as vê babando por carros de luxo, fazendo loucuras em nome da beleza, sonhando com as viagens ao exterior dos amigos, e menosprezando tudo que está a sua volta. Como a vida parece preto e branco para algumas pessoas. Você nasceu com uma lente só, não tente criar outras. A beleza das coisas está no modo como vê, não o que vê. Como interpreta, o que valoriza e a capacidade que você tem de ver a ver a vida de forma positiva.

Os pintores realistas viam a vida de uma maneira tão positiva e natural que até as coisas mais banais da vida ficavam belas. Não demorou a surgir o modernismo com seus estilos subjetivos, individualistas, de forte carga emocional e, ao menos para mim, malucos demais. A arte mostra que o comportamento de “maquiar” os sentimentos e a realidade é algo relativamente novo que se popularizou no século XX.

Uma vida completa é uma vida honesta e simples. Pegando emprestado o que o Abílio Diniz uma vez falou sobre a humildade, ser simples não é fazer voto de pobreza. Não viaje! Simplicidade é não querer se esconder atrás de falsas realidades, mas ver as coisas de forma diferente. Infelizmente, a falsidade e a vaidade geram benefícios temporários, e não são poucos os que caem nessa armadilha, mas as aparências desaparecem um dia, dando lugar ao conteúdo, mesmo que de vez em quando a gente queira colocar um filtro bonitinho nele.