Como é ficar 1 mês sem Facebook

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facebook_desligandoNos últimos anos, temos perdidos milhões de pessoas para o submundo digital. Já são milhões de namorados, namoradas, filhos, alunos, amigos e funcionários que passam mais tempo olhando para telas de cristal líquido do que nos olhos das outras pessoas. O que muitos acreditam ser a grande maravilha do século XXI, vêm se tornando um grande problema, uma vez que as pessoas parecem estar desaprendendo a se divertir sem smartphones e internet. Dentre todos os recursos que já estiveram à disposição, nenhum foi tão implacável como ele, o Facebook.

O mundo mudou e é bom nos acostumarmos com crianças de 7 anos com celulares mais modernos que o nosso. Tudo bem, isso dá para aceitar. As pessoas não leem mais revistas, leem blogs; não assistem TV, mas a videos no YouTube; não estudam, pesquisam no Google; não telefonam, “mandam WhatsApp”. Ok, posso conviver com isso também.  Nossos pais (sobre)viveram sem SMS, PlayStation e Google, porém, por mais nostálgico que você seja, não dá para negar que vivemos em uma época muito melhor que a deles. Internet, TV à cabo e celular (aqueles usados para fazer ligações) são algumas das maravilhas que tornam a vida muito melhor. Eu tenho certeza que poderia levar uma vida feliz assim pelo resto da vida. Realmente precisamos de mais? O mundo evoluiu a ponto de oferecer tudo a qualquer hora. E isso é muito.

Uma mania estranha que eu e minha namorada temos é de reparar em casais que não conversam em restaurantes ou bares. O motivo pode ser a falta de assunto pontual, uma briga recente ou o fato que eles não sejam tão divertidos quanto nós somos, porém é mais provável que haja outro na relação, o Facebook. Certa vez, reparamos uma esposa que não trocou uma única palavra com o marido por causa do smartphone, e o único momento em que ela largou o aparelho foi para pegar a sobremesa. Perguntei-me se ela usava aliança por causa do marido ou do celular.

O que há de errado com a situação acima é que ela não é uma situação normal, mas tem sido comum. Mais e mais pessoas têm trocado o real pelo virtual. Pelo visto, eu não sou o único a estranhar esse tipo de situação, a cerveja Polar e um bar em São Paulo já criaram ações para fazer as pessoas largarem seus celulares e aproveitarem os amigos. Eu não quero parecer moralista por apontar os outros, eu também fui vítima dessa realidade, e gostaria de compartilhar como eu fiz para combater isso e evitar ser sugado, de vez, por esse mundo tão viciante.

Durante anos fui um entusiasta de redes sociais. Experimentei dezenas delas, muitas logo que surgiam. Com o Facebook também foi assim; me cadastrei em 2009, mas só passei a usar com frequência uns dois anos depois — saudavelmente. De um tempo para cá, percebi que estava acessando mais do que deveria — checava várias vezes ao dia, passei a usar o messenger e atualizar o status com mais frequência. Eu chegava em um bar e a 2ª coisa que eu fazia — depois de pedir a gelada — era fazer check-in; na academia, compartilhava playlists  bacanas para malhar e ficava checando para ver quem curtiu (eu sei que você também é assim). Não há grandes problemas em fazer coisas assim, exceto que é perda de tempo e não me acrescenta em nada. Passei a me perguntar quanto tempo eu perdia das minhas 17 horas úteis diárias no Facebook. Algo que havia começado a usar para promover o Pequeno Guru e me aproximar de amigos havia se tornado uma necessidade diária. Aquilo me incomodava e eu precisava fazer algo.

A inspiração

Motivar e inspirar são duas coisas diferentes para mim. A verdadeira motivação é interna, você precisa se convencer de que precisa mudar, de que precisa agir, de que vale à pena o esforço. Mas, às vezes, isso não é suficiente. A melhor definição de motivação que já ouvi é que ela é um motivo para ação; eu tinha um motivo, mas precisava de algo a mais. Inspiração é a faísca externa que faz acender o pavio interno da motivação. A minha inspiração veio de uma fascinante — e maluca — ideia do Leo Babauta, autor do meu blog favorito Zen Habits. A ideia consistia em passar 1 ano se privando de certas coisas. Todo mês, ele iria abrir mão de algo. Algumas coisas eram mais simples como café, açúcar e videos/filmes; outras eram mais assustadoras como não comprar nada novo ou usar o celular. Então, eu pensei se conseguiria aplicar, de alguma forma, aquilo na minha vida. A ideia veio depois de alguns minutos: é claro, o Facebook.

1 mês sem curtir

O mês de setembro foi o escolhido. Avisei os amigos que iria dar um tempo no Facebook e que poderiam falar comigo por email ou telefone. Então, passei 31 dias sem acessar o site, usar o app, postar status, compartilhar fotos do Instagram, tweets ou outra coisa relacionada e posso dizer que a experiência foi muito interessante. A sensação foi de que retirei um peso dos meus dias, eu não mais “tinha que” checar com frequência quem havia curtido ou compartilhar coisas que achava legal. Acabava sobrando um pouco mais de tempo para fazer coisas que realmente importava, por exemplo, ao invés de eu perder tempo compartilhando ou comentando algum artigo, eu lia outro artigo.

Como qualquer vício (e sim, eu considero o “Face” uma “droga social”), a primeira semana foi estranha. Por vezes, peguei meu iPhone para postar algo ou passear pela timeline até que percebi que não podia — e havia deletado o app. Na 2ª semana, isso já não acontecia Era como se eu não tivesse mais um perfil no Facebook. Tirando alguns amigos me cobrando resposta de mensagens deixadas lá, não tive grandes problemas. Os posts do Pequeno Guru são compartilhados de forma automática, e as atualizações que fiz na página foi através do HootSuite que uso apenas para coisas relacionadas ao site.

”Ah, mas eu também consigo!”

Então faça! É um favor que você faz com a sua vida. Você não irá perder contato com as pessoas porque as que realmente importam, você tem o email ou número de telefone. De fato, não é tão difícil como abrir mão da carne ou do carro, mas você vai perceber que é muito mais difícil do que imagina. Como qualquer desafio, ao final você perceberá os benefícios e se sentirá mais confiante e disciplinado para topar outros ainda maiores.

Algum tempo atrás, li uma matéria com adolescentes relatando com que frequência eles checam seus smartphones, a maioria deles diziam que não conseguiam imaginar sua vida sem o aparelho e que faziam o tempo todo. Triste, para não dizer mais. Uma pesquisa publicada no início deste ano revelou que jovens de 18 a 24 anos checam seu Facebook 14 vezes por dia. Além disso, quase metade das pessoas usam o Facebook na academia, enquanto cozinham e até quando estão apressados para algum compromisso.

O vício é tanto que estimulou a criação do “Day to Disconnect”, uma campanha interessante onde você se compromete em passar pelo menos 1 hora com pessoas importantes para você sem a companhia de dispositivos eletrônicos. O video da campanha (a versão ocidental de um video tailandês que andou circulandopelo próprio “Face”), nos faz pensar na vida que estamos levando. Por algum motivo, a campanha parece não ter tido sequência desde 2011, mas a reflexão é ainda mais pertinente do que era 2 anos atrás,

Bruce Lee dizia que não se tratava de um acréscimo diário, mas de um decréscimo diário. É preciso eliminar o que não for essencial. E o que fazemos hoje em dia? Acrescentamos coisas. Smartphones, tablets, roupas… estamos sempre querendo mais, nunca menos. Passar 1 mês sem Facebook me mostrou que o decréscimo é possível, e o melhor, não faz falta. Pretendo

fazer o mesmo com outras coisas, porque é uma excelente maneira de exercitar a disciplina e, mesmo que voltemos a usar, sempre fica uma outra visão daquilo ali e do quanto realmente é ou não importante para sua vida.

A partir de agora, decidi não usar o app ou o messenger e checar meu Facebook no máximo 1 vez ao dia. Para mim, essa foi a forma saudável que encontrei de usar a ferramenta a meu favor, não contra mim. Não usar é radical, mas passar o dia todo conectado é loucura.

desconectar-se diferencial