Não confie em quem oferece respostas

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ambicioso sabe tudoSempre nutri uma certa admiração pela filosofia clássica e embora nunca tenha frequentado aulas da Nova Acrópole, procuro conhecer um pouco dos ensinamentos de cada filósofo que cruza o meu caminho como Sêneca, Epícurus e John Locke. No entanto, sei que ainda estou no jardim de infância da filosofia e talvez eu nunca chegue longe, mas isso não significa que não possa crescer com o pouco que conheço. Lembro o quão surpreso fiquei quando descobri que Aristóteles era o mais novo dos 3 grandes filósofos gregos, aluno do aluno de Sócrates — Platão. Por algum motivo, sempre pensei que Aristóteles fosse o pai da filosofia, talvez por ele ser o mais citado e considerado o maior filósofo de todos os tempos. Viajei. Chamamos de período “pré-socrático” porque, sem Sócrates, não haveria Platão, Aristóteles e muitos outros. Sem dúvida, o maior orgulho de um professor (embora Sócrates não se considerasse um) não é ser o melhor professor do mundo, mas ter os melhores alunos do mundo.

O que mais me encanta na filosofia é a capacidade extraordinária de sobreviver ao tempo.Quando John Locke diz que “não se é grande de espírito por se ter muitas ideias nem um grande general por ter muitos soldados”, é possível fazer um paralelo com a nossa carreira, dinheiro e valores transmitidos por nossos pais e avôs. Ou esses caras estavam muito a frente do seu tempo ou certos valores e princípios são imutáveis — ou os dois. Só precisamos mudar os exemplos e metáforas para encaixá-los na nossa vida pra lá de moderna.

Uma das histórias recentes que conheci foi a do Paradoxo de Sócrates que conta a jornada do grande filósofo em busca de sua absolvição após ser acusado de corromper os jovens e ofender os Deuses. Sócrates era um crítico extremamente inteligente em uma época onde a civilização era ignorante e condescendente. Além disso, tinha o dom da oratória e um compromisso vital com a verdade. Apesar do brilhantismo dos seus argumentos no julgamento (o livro Apologia de Sócrates, escrito por Platão, relata na íntegra, embora não possa ser considerado 100% fiel), ele foi condenado à morte pelo júri.

O paradoxo de Sócrates

Durante a sua autodefesa, o filósofo disse que as acusações eram falsas e que tudo começou ao obedecer Pythya, conhecida como Oráculo de Delphi (a figura religiosa mais importante da região). Ele conta que um amigo pessoal foi ao Oráculo perguntar se existia alguém mais sábio que Sócrates, a resposta do Deus Apolo foi direta — não existe. E aqui começa a confusão. Sócrates pensava que isso não podia ser verdade, pois ele considerava seu conhecimento irrelevante, mas ao mesmo tempo os Deuses não mentiam.

O paradoxo era: como um ignorante pode também ser o mais sábio dos homens? Esse é um assunto que eu já escrevi algumas vezes no Pequeno Guru, assumir que você sabe muito pouco sobre algo é o melhor caminho para o crescimento. Grandes personalidades da história parecem ter bebido da fonte de Sócrates e mesmo tendo alcançado o domínio de suas atividades, continuavam agindo como se fossem um eterno aprendiz. Salve Einstein!

Então, Sócrates fez o que sabia fazer: ir atrás de respostas. Ou ele era o homem mais sábio de todos (e estava errado) ou era mesmo alguém com conhecimento insignificante (e o Oráculo estava errado). O filósofo entrevistou políticos, poetas e artesãos para ver o quão sábio eram esses homens. Diz a lenda que ele achou os políticos impostores, os poetas incapazes de entender até mesmo que eles mesmos escreviam, assim como profetas não entendiam o que eles mesmos diziam e os artesãos eram pessoas pretensiosas. Sócrates pensou ter 2 opções: ser um impostor como todos os outros ou ser ele mesmo. Não preciso dizer qual ele escolheu, preciso?

Você é um impostor?

Chamar alguém de impostor, apesar de ser um termo arcáico, é bastante ofensivo. É o equivalente a dizer que a pessoa é “duas caras”, falso e mentiroso. Da mesma forma que dizer que você não sabe o que está falando é chamar de burro. Pretensioso e arrogante também são ofensas, mas parecem ter menor gravidade. Na cabeça de Sócrates, essas coisas pareciam ser menos ofensas e mais defeitos. Em suma, ele queria dizer uma coisa: vocês não são confiáveis.

Como escreve o professor da INSEAD especializado em comportamento, Neil Bearden, Sócrates era um homem com uma honestidade rara que foi morto pela sua grande preocupação com a verdade, ao defender que a elite da época sabia muito pouco sobre o que eles deviam saber muito — e diziam saber muito. Agora vamos trazer para os tempos atuais.

Dizer “eu não sei” é visto como um sinal incompetência ou de se esquivar da responsabilidade.

O mundo dos negócios clamam por homens e mulheres com respostas, esse é o trabalho de consultores, palestrantes e diretores que podem fazer tudo, menos demonstrar que não sabe. Queremos professores com todas as respostas, gerentes com todas as soluções, vendedores preparados para qualquer saia justa de cliente. Neil aponta brilhantemente que dizer “eu não sei” é visto como um sinal incompetência ou de se esquivar da responsabilidade. Ele acusa os próprios professores de negócios, dos quais ele faz parte, de dar aos alunos o que eles querem não o que eles precisam. O público quer respostas, mas o que eles precisam é da verdade. Ouch!

Saber que ele era um ignorante tornou Sócrates o homem mais sábio do seu tempo. O homem mais inteligente do mundo foi rechaçado por pessoas muito menos capazes do que ele, porém poderosas e intelectualmente compatíveis.

Admiramos pessoas que sabem de tudo, mas não paramos para pensar que é impossível saber de tudo. Quem sabe de tudo não pode ser verdadeiro, o que nos leva para uma discussão moral — queremos uma pessoa assim na nossa equipe, como nosso chefe ou professor? Vemos o “eu não sei” como um sinal de incapacidade e não de honestidade ou princípios. Quem diz o que não sabe só para não ficar feio não é muito diferente de um político que fala para ganhar votos.

Compartilho da ideia de quem diz “eu não sei” está mais próximo de ser a pessoa mais responsável e respeitável da sala. Posso estar errado, mas quem está sempre certo?