O conselho do homem mais rico do Brasil

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260713_lemannOnde quer que haja uma grande história, há um personagem marcante. Jorge Paulo Lemann é um deles e a história, você escolhe: “O brasileiro que conquistou Wall Street”, “O amigo pessoal de Warren Buffet”, “O criador de líderes”, “O maior homem de negócios do Brasil”. Para a maioria dos brasileiros, seu nome não diz nada, mas as empresas que seu grupo comanda falam por si: AB Inbev, Burger King, Heinz e Lojas Americanas. Sua participação direta ou indireta nesses negócios colossais vai além da compra (que já é um feito e tanto considerando que a AB Inbev nasceu da junção das 3 maiores cervejarias do mundo e a Ambev da junção das 2 maiores cervejarias do Brasil), implementando seu estilo próprio de gestão capaz de se tornarem altamente competitivas e lucrativas.  Jorge Paulo Lemann é uma máquina de fazer dinheiro, uma autêntica lenda dos negócios, mas sem a arrogância típica dos executivos.

Em uma edição deste ano da revista Exame, Lemann apareceu em 13º lugar dos líderes mais notáveis do país. Eike Batista estava em 2º. A explicação pode estar no fato de que Eike Batista gosta de holofotes (ou não se importa), Jorge Paulo foge deles. Pense em um grande homem de negócios brasileiro, há grandes chances de você pensar em alguém como Eike, Abílio Dinz, Samuel Klein, Luiza Helena Trajano, Silvio Santos ou até empresários mais jovens como Márcio Kumrium (Netshoes) ou Alexandre Costa (Cacau Show). Quase quase ninguém pensaria em Jorge Paulo Lemann ou  Marcel Telles e Beto Sicupira — ex-funcionários que se tornaram seus principais sócios. Nomes que colocam o Brasil no radar dos maiores centros de negócios do mundo. Mas quem, afinal, são esses caras?

A história contada no livro “Sonho Grande” mostra como três bancários se tornaram amigos pessoais de Jim Collins e Warren Buffet, conheceram Sam Walton, criaram a maior cervejaria do mundo e se tornaram bilionários. No entanto, o que eles fizeram é menos interessante já que você pode encontrar em artigos por aí e no livro. O mais importante é como eles fizeram isso, e tudo começou com um cara.

É difícil acreditar que exista um brasileiro que criou tantos executivos de primeira linha como Lemann. A cultura criada por ele, seus valores e o modo de conduzir os negócios não são nada menos que extraordinários. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi o papel da meritocracia em seus negócios, mas não do jeito que costumamos ver por aí:  “trabalhe duro e um dia você será promovido”. Na sua principal empresa, o Banco Garantia, os melhores não eram simplesmente promovidos, eles viravam sócios. E o impacto da meritocracia vai além de promoção e dinheiro. Significa que se você é parente, não pode trabalhar na empresa (em algum momento será difícil separar as coisas). Também significa que tanto faz como você se veste, de jeans e polo ou terno e gravata, o que importa é o seu desempenho.. Meritocracia também significa que não tem essa de nariz empinado, de sala particular ou outras mordomias, você é o que você entrega todos os dias. No sistema meritocrático de Lemann, hierarquia quase não existe, ninguém se mete no trabalho do outro e a porta do presidente está aberto para todos — quando tem porta, é claro. Tudo depende de uma coisa: resultado. No Garantia, até office-boys tinham metas. Essa “cultura radical” aplicada na década de 70 e 80 por Lemann pode ser vista até hoje — através de gente que trabalhou com ele — em organizações que ele nunca chegou a ocupar um cargo de executivo como na Ambev, Inbev, Burger King e Americanas. Lemann influenciou muita gente e fez muitos milionários. Essa é a maior prova da meritocracia.

Jorge Paulo não se encaixa na história romântica do empresário que comeu o pão que o diabo amassou antes de construir um império milionário, longe disso. Mas ele é o que podemos considerar um self-made man, e só porque foi capaz de aproveitar o que tinha. Ele levou uma vida boa em uma das melhores épocas do Rio de Janeiro, estudou em escola particular bilíngue na época (algo caro até nos dias de hoje) e foi para Harvard. Como qualquer jovem, fez besteiras e uma delas quase o levou à uma suspensão de Harvard; ele aprendeu a lição e se dedicou a terminar o curso antes do tempo normal, ainda que. Também tentou seguir seu sonho como tenista e estava se saindo bem,  mas foi inteligente o bastante para ver que jamais seria um André Agassi e decidiu largar para trabalhar no mercado financeiro. Inquieto em um dos seus primeiros empregos, resolveu ir para Europa trabalhar em um grande banco, odiou e voltou rapidamente. Essa não é bem a história que se espera de um homem de negócios convencional. Soltar bombas em Harvard? Largar o emprego em um grande banco europeu? Rejeitar (posteriormente) a oferta de compra da sua empresa pelo todo poderoso JP Morgan? Lemann nunca foi convencional.

Não é sempre que se lê palavrões em um livro de negócios, mas em “Sonho Grande” há vários! O jeitão casual de Marcel Telles e Beto Sicupira impressiona quem trabalha pela primeira vez com eles. A simplicidade sempre foi algo marcante na cultura criada por Lemann e  absorvida quase que totalmente por Marcel e Beto (dois dos primeiros talentos que Lemann ajudou a desenvolver) que também figuram entre os homens mais ricos do Brasil. Quando Vicente Falconi chegou com uma pesquisa para Marcel indicando o que ele deveria fazer para garantir que toda cerveja Brahma tivesse a mesma qualidade, ele respondeu “o que eu vou fazer com essa porra?”. O homem que ergueu a Brahma não precisava fingir que sabia de tudo porque ele não precisava saber. O que ele precisava era se cercar de gente boa, e para isso Vicente estava lá. Uma outra vez, na Americanas, Beto estava chegando na empresa com seu jeans surrado, camiseta e mochila quando um funcionário pediu, sem saber que ele era “o chefão”, para ele ajudar com algumas caixas. Beto arregaçou as mangas e meteu a mão na massa. Ao que parece, seu braço nunca caiu por isso. Marcel, Beto e Lemann formam o trio perfeito, cada um com a sua personalidade, mas todos falando a mesma língua. Uma verdadeira equipe.

O estilo Jorge Paulo Lemann foi construído a partir de uma educação sólida, mas sem se deixar levar pelos paradigmas. Ele fazia como achava que as coisas tinham de ser e sempre absorvendo conhecimento de quem sabia mais do que ele. Ele não tinha vergonha de dizer que copiava os melhores, copiou o Goldman Sachs quando tinha o Garantia, estudaram de perto a Interbrew quando compraram a Brahma e receberam dicas de nada menos que do fundador do Walmart ao assumir o controle da Americanas. Embora o foco inicial de Lemann tenha sido ganhar dinheiro, logo mudou para “construir negócios que durem”, e ele sabia que as duas coisas só seriam possíveis se ele fizesse as pessoas enriquecerem também. Para ele, não fazia sentido ter uma empresa gigante, mas insustentável; admirada, mas que paga mal. Resultado e ética era tudo que importava.

Apesar de Jorge Paulo Lemann estar longe de ser considerado uma celebridade no Brasil, sua influência no mundo dos negócios é indiscutível e seus valores dignos de serem copiados. Sua qualidade mais admirável talvez não seja sua visão aguçada de investidor, sua cultura impactante e disruptiva capaz de transformar empresas engessadas em empresas rentáveis, sua paciência para esperar pelo momento certo ou seu jeito simples que desconcerta engravatados. Creio que sua maior qualidade seja a capacidade de criar vencedores. De pegar aquele sonho dentro da cabeça de cada e mostrar que é possível torná-lo real com trabalho duro, de dar condições para que os outros cheguem aonde ele chegou. Atividade que ele tem se dedicado cada vez mais através de suas ONGs voltadas para a educação e formação.

O maior conselho do homem mais rico do Brasil pode ser expressado em uma das suas frases mais marcantes, “ter um sonho grande dá o mesmo trabalho de ter um sonho pequeno”. E aí, qual vai ser?