O dia em que a Sony definiu os próximos 10 anos

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110613_jack_trettonNo dia 10 de junho, Sony e Microsoft subiram ao palco da maior feira de games do mundo prontos a travar uma batalha importante que poderia garantir vantagens competitivas pelos próximos 10 anos. A expectativa era enorme desde que a Sony anunciou seu novo PlayStation 4 em fevereiro e a Microsoft no mês de maio. Rumores e conversas de corredor geraram discussões acaloradas pela internet a respeito de como seria o futuro dos games quanto à DRM, conectividade e hardware. Os jogos quase ficaram em segundo plano no meio de tantos assuntos sérios. Você pode não entender nada sobre o mercado de games, nunca ter ouvido sequer falar da E3, mas a briga dessas duas gigantes é um case pra lá de interessante para qualquer pessoa que se interesse por negócios.

Para entender o impacto do que aconteceu na noite do dia 10 é preciso fazer uma pequena retrospectiva do cenário. Primeiro, a indústria dos games é maior que a indústria do cinema e, recentemente, se equiparou à indústria da música movimentando cerca de US$68 bilhões por ano no mundo todo. Sendo assim, não é à toa que muitas empresas queiram abocanhar uma fatia desse mercado onde os principais players são Sony, Nintendo e, a mais nova delas, Microsoft. Se para Sony (que vinha de 5 anos de prejuízo até este ano), o Playstation é uma peça-chave do seu core de negócios, o Xbox para Microsoft está mais para um filho pródigo. Sua 2ª geração de videogames — o Xbox360 — vendeu mais que o seu rival, o todo poderoso Playstation, ano a ano desde 2006 se considerarmos números globais. Isso, depois de uma primeira geração morna e apagada. A Microsoft realmente jogou muito bem criando uma rede online poderosa que muitos consideram superior a da Sony, e batendo de igual para igual com o poderoso Playstation, uma marca consolidada e campeã de vendas. O problema é: será que ela conseguirá repetir o feito?

Com as vendas de PCs e, consequentemente, Windows caindo ano a ano, a Microsoft precisa rápido de um produto forte, e a Divisão de Entretenimento e Dispositivos da companhia é a principal aposta (basicamente Windows Phone e Xbox/Live). Então, era de se imaginar que a Microsoft usaria todo o seu arsenal para tornar o seu novo aparelho um novo sucesso em vez do papel coadjuvante do início do anos 2000. Mas foi aí que as coisas começaram a complicar. Talvez por prepotência (“já batemos a Sony, podemos fazer isso de novo”), ela resolveu mudar a forma como os consumidores usariam os videogames.

Aliás, videogame é uma palavra que a empresa parece não gostar muito, ela prefere chamar de “centro de entretenimento”, expressão usada pela primeira vez em 2005 com o lançamento do 360, mas que parece ganhar mais forma agora. Há muitos recursos no novo Xbox, mas a maioria deles voltados para inovar o jeito que assistimos TV, acessamos a internet e ouvimos música. Mas esse é o menor dos problemas. As três novidades mais comentadas causaram um alvoroço no mundo todo e desde o começo pareciam decretar o fim da Microsoft — caso sua rival não fizesse o mesmo.

Os Três Erros da Morte da Microsoft
1. Você não pode mais emprestar, alugar ou jogar seus jogos na casa de amigos. Há um licença intransferível.
2. Você precisa conectar-se à internet, ao menos uma vez por dia, para jogar.
3. Não é um videogame, mas também roda jogos.

O que a Sony fez foi justamente o contrário: anunciou de forma enfática que é um direito seu fazer o que quiser com os jogos e jogar a hora que quiser. O resultado foi o que os jornalistas estão chamando de “o momento mais inesquecível da história da feira”.

Sabemos que a Microsoft não é nenhuma Apple e toda vez que ela tenta inovar demais, coisas ruins acontecem. Ela é uma empresa muito competente e eu realmente a admiro, mas ela não é uma empresa inovadora. Inovação deve gerar benefícios que não demandem grande sacrifícios, caso contrário, os consumidores não adotarão. A principal lição deixada pela Sony é “respeite o seu consumidor e mantenha o foco no coração do negócio”. Ao tentar ser um centro de entretenimento, a Microsoft enfraqueceu sua relação com produtores independente de games, o que está fazendo os consumidores perderem mais uma vez.

Claro, é impossível afirmar se a Sony realmente ganhará essa batalha facilmente. Mas o menor preço de lançamento, foco nos games e liberdade para fazer o que quiser a hora que quiser, parece ter colocado a japonesa de volta ao topo de uma das indústrias mais valiosas do mundo. Tudo leva crer que colocar o consumidor acima de tudo é a melhor maneira de recuperar a liderança de um mercado. Seja qual for o resultado, a Sony pode se gabar de ter gerado uma das maiores reações de uma platéia em um evento da história.

UPDATE 19/06: Microsoft volta atrás e remove as restrições que impediria os consumidores de trocar jogos e ter que conectar à internet cada 24 horas. Além disso, a empresa também anunciou, assim como a Sony, que não haverá restrições geográficas e todos os jogos funcionarão em qualquer console do mundo. [Link]