O café nosso de cada dia

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210612_cade_saudavelÉ mais comum ouvir aspectos negativos do que positivos da cafeína. Fato é que esse poderoso estimulante está extremamente enraizado nos hábitos das pessoas do mundo todo, seja em forma de refrigerante, energético, chás, suplemento vitamínico ou, claro, na forma do inocente cafezinho, cappuccino, mocaccino e outros parentes. Aliás, “cafezinho” que nada, muitos de nós são verdadeiros dependentes químicos dessa bebida. Assuma que você também não vive sem.

Em vários lugares que trabalhei, eu fui praticamente o presidente da Comissão dos Direitos do Café Preto. Quando ocorria um “problema no abastecimento” devido à máquina quebrada ou falha humana, eu era o primeiro a surgir com um plano b. Café no trabalho para mim é como para milhões e milhões de profissionais pelo mundo, indispensável. É difícil trabalhar sem meus habituais 500ml de café preto diário. Curiosamente, eu trabalho com 2 das 4 profissões que mais bebem café, texto e marketing, mas procuro tomar cuidado para não exagerar. Calcula-se que acima de 400mg de cafeína por dia (mais ou menos 5 expressos pequenos ou 5 Red Bull), a substância começa a atrapalhar gerando ansiedade, irritabilidade e diminuindo a concentração, e considerando que demora de 2 a 8 horas para o nosso corpo metabolizá-la, é bom pensar duas vezes antes de tomar uma outra xícara. Mas voltaremos nisso em um minuto.

Acho interessante fazer um parêntese para explicar porque a cafeína tira o nosso sono e diminui o cansaço, só por curiosidade. O autor do livro “Buzz: The Science and Lore of Alcohol and Caffeine” explica como ela funciona.

A todo momento em que você está acordado, os neurônios estão disparando e produzindo adenosina como subproduto, mas essa substância está longe de ser apenas um excremento. Seu sistema nervoso está ativamente monitorando os níveis de adenosina através de receptores. Normalmente, quando o nível de adenosina atinge certo ponto no seu cérebro, e na espinha dorsal, seu corpo começa a sinalizar que você precisa dormir, ou pelo menos diminuir o ritmo. De fato, existem poucos tipos de receptores de adenosina ao longo do nosso corpo, mas há um que a cafeína trabalha mais diretamente, o A1.

Quando a cafeína entra — independente da fonte, mas usando como base o típico café forte — ela age como uma talentosa impostora e vai direto em direção aos receptores da cafeína. Devido as similaridades, nosso organismo aceita como verdadeiro e se liga a ele.

Mais importante do que apenas servir, é que a cafeína realmente se conecta de forma eficiente, mas sem ativá-la. Com esses receptores bloqueados, os estimuulantes naturais do cérebro –dopamina e glutamato– fazem seu serviço tranquilamente. É como colocar um pedaço de madeira atrás do pedal do freio.

É interessante ver que a cafeína não “dá um gás” como pensamos, ela apenas impede que você desacelere. (Essa é a principal razão pela qual é tão perigoso misturar energético com bebida alcoólica.) Agora que entendemos um pouco como a cafeína funciona, vamos em frente.

As pessoas são tão viciadas em café e outros estimulantes à base de cafeína que a dependência se tornou problema de saúde e agora é considerada um transtorno mental. O termo parece forte, mas basicamente se refere a algo que nos impede de seguir uma vida normal. Embora algumas pessoas relatem fortes dores de cabeça ao parar de consumir café, são poucos os casos que necessitam de tratamento médico, então isso não é um consenso na comunidade médica. Transtorno ou não, café em excesso pode atrapalhar certas pessoas, mas na dose certa pode ser uma aliada do nosso desempenho.

Vários estudos ressaltam os malefícios do café (aumento da pressão sanguínea, hiperatividade), outros focam no aumento de desempenho que ela proporciona — capacidade de memória, raciocínio lógico, maior atenção. Será que isso é tudo que ela tem a oferecer?

Os benefícios

Deixando de lado o caráter estimulante da bebida, a cafeína pode fazer muito mais do que apenas nos deixar acordados. Estudos recentes mostram vários benefícios à saúde do corpo humano. Por exemplo: homens que bebem muito, mas muito café diariamente (813mg) tem 77% menos chance de sofrer de depressão. Mas há muito mais:

  • Um estudo iniciado em 1995 pelo National Cancer Institute com 400.000 pessoas da melhor idade entre 50 a 71 anos, saudáveis na época, mostrou que homens que bebem três ou mais xícaras de café por dia diminuíram o risco de morte em 10%; no caso das mulheres, esse número é ainda mais positivo, 13%. No entanto, não se sabe o quê na bebida gera tamanho benefício.
  • Alguns estudos recentes têm associado o consumo moderado de café — 3 ou 4 copinhos de plástico (daqueles de água) — a vantagens específicas, como redução do risco de desenvolver: diabetes tipo 2, carcinoma basocelular (o tipo mais comum de câncer de pele), câncer de próstata, câncer de boca e recorrência do câncer de mama.
  • Um dos estudos mais interessantes vem da Universidade de Illinois que estudou a ação da cafeína na recuperação mental. Ratos de laboratório ficaram um pequeno tempo sem receber oxigênio, causando assim, perda de memória. Então, metade deles receberam uma dose equivalente a várias xícaras de café e a outra metade não recebeu nada. Ao receberem de volta o oxigênio, os ratos cafeinados recuperaram a memória 33% mais rápido do que os do outro grupo. Ao analisar o tecido cerebral dos animais, percebeu-se que a cafeína bloqueou a ação da adenosina, que é boa para o corpo, mas pode ser nociva se as nossas células estiverem danificadas ou sob estresse pesado. O “vazamento” da adenosina para fora da célula leva à inflamação, o que pode prejudicar o funcionamento dos neurônios e levar a doenças como o Alzheimer.
  • Agora um estudo com humanos relacionado ao Alzheimer, um mal cada vez mais comum e que ainda ninguém descobriu ao certo como evitar. Pesquisadores da Universidade de Miami coletaram o sangue de pacientes (para medir o nível de cafeína) que apresentavam moderada perda cognitiva ou que tivessem tido o primeiro grande caso de esquecimento, dois sintomas iniciais da doença. Então, quatro anos depois reavaliaram esses pacientes. Os que tinham pouca ou nenhuma cafeína no sangue estavam muito mais propensos a desenvolver o Alzheimer por completo, ao contrário dos que mantinham um consumo regular de café.

Com a cafeína cada vez mais presentes no nosso dia a dia em forma de produtos, consequência da vida urbana frenética e sobrecarregada, muitas pesquisas tem sido feitas para tentar descobrir as consequências desse elevado consumo na nossa saúde. Até agora, os resultados parecem ser positivos, embora ainda esteja obscuro se o que faz bem é o café ou a própria cafeína. Algumas pesquisas sinalizaram que há diferença de resultado entre café e bebidas cafeinadas, com vantagem para o velho cafezinho. O segredo por trás dessa charmosa bebida ninguém sabe. Como qualquer droga lícita, algum controle é necessário, mas não há motivos para abrir mão do seu aroma e sabor único. A propósito, esqueci de perguntar, aceita um cafezinho?