Comédia com coaching (O fim de ‘The Office’)

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final the officeSemana passada, foi ao ar o último episódio da série que alavancou a carreira dos atores Steve Carell e Ed Helms. Uma série que há grandes chances de você nunca ter ouvido falar ou tido a oportunidade de assistir, ou mesmo não ter achado graça nenhuma (e você não é o único). O mérito de The Office foi maior do que entreter milhões de pessoas com piadinhas e situações cômicas do ambiente corporativo para aliviar a tensão de um dia difícil, mas entregar a mensagem de que pessoas são muito mais do que empresas, cargos e salários. Acho que foi essa a mensagem que os produtores da série tentaram transmitir nos 9 anos da série. A comédia foi apenas o instrumento que eles acharam para transmitir isso.

Infelizmente, Michael Scott e sua turma nunca foram popular aqui no Brasil (onde é exibido pelo FX), mas seus personagens carismáticos, as piadas exageradas e o escritório como pano de fundo fizeram da série um programa único e detentora de uma valiosa audiência (mais da metade era de adultos de 18-49 anos). Pode ser que você não tenha assistido um episódio de The Office nesses últimos 9 anos, mas se você já passou por algumas empresas, provavelmente já conheceu algum gerente irresponsável como Michael Scott ou teve um colega (puxa-saco) Dwight, (resmungão) Stanley ou (exemplar) Jim. A capacidade que um programa de TV tem de estabelecer links com a nossa vida pessoal é o que o torna tão especial. Talvez tenha sido por isso que quando eu assisti os primeiros episódios, lá em 2005, achei a série sem graça. Eu só havia trabalhado em 2 lugares até então, não sabia como era ter um gerente incompetente, um colega mala sentado ao lado ou trabalhar em uma empresa onde o melhor momento é o de ir embora para casa. Anos mais tarde, voltei a dar uma chance à série, e desde então virei fã.

Como em qualquer série, em The Office você vai se tornando íntimo dos personagens, vai conhecendo o que gostam, o que odeiam, porque estão ali, porque não procuram outro emprego e começa a torcer por eles, porque muitos deles também tem sonhos e frustrações, como você. Mas há algo diferente rolando ali. Eles evoluem a cada nova temporada, e não necessariamente na empresa, mas como pessoas. Aos poucos, vão se tornando mais abertos, menos egoístas e acomodados. É como se a série não quisesse apenas entreter, mas motivar. É possível notar essas “doses de sabedoria” em alguns momentos dos 200 episódios (em que a série ganha um tom dramático em vez de cômico), e ficou ainda mais evidente no último.

A minha visão da série é bem particular: uma comédia com lições para vida. Buscando tornar esse post útil (e não apenas uma homenagem à série), extraí pequenas lições que batizei como Manual de Sobrevivência no escritório, algo para divertir e refletir, como foram todos esses anos da série.

1. Gerência é sobre pessoas, não sobre números

Antes de escrever este post, selecionei alguns dos meus episódios favoritos e assisti boa parte deles com a minha querida namorada — que nunca acompanhou a série. Um dos principais comentários dela foi “mas ele [o gerente incompetente] é uma boa pessoa…”. E era mesmo. Michael Scott é o típico gerente incompetente e imaturo. Dá mau exemplos, tem atitudes infantis, faz brincadeiras o tempo todo, é inconveniente, não tem responsabilidade e não se destaca em praticamente nada, exceto pelo seu lado humano. É claro que uma empresa não pode contar com gerentes humanos, mas ineficazes. Mas também não deveriam poder contar com gerentes eficazes, mas grosseiros e rudes. Mesmo assim, vemos esse último com frequência por aí.

Você irá encontrar os dois tipos. Os dois são ruins para as empresas, mas trabalhar com alguém que o trata como inferior e não escuta é prejudicial para sua carreira e também para saúde.

2. As pessoas são diferentes.

A Dundler Mifflin tem um negro reclamão, um velho folgado, uma coroa bêbada, um gordo preguiçoso, uma vendedora “mãezona”, uma recepcionista sonhadora, um contador gay, um RH “mosca morta”, uma atendente fútil, um pateta bem graduado, um extremista puxa-saco e um gerente infantil… e todos se dão bem. Quer dizer, não se dão, mas com o tempo vão aprendendo a se respeitar, a conviver com as diferenças e até sentir falta.

Uma empresa é como uma família e já que você passa 40 horas semanais com essa “família” deveria se esforçar para se dar bem com os outros. As pessoas são diferentes, e isso que as tornam tão interessantes. Respeite, sorria, aprenda e compartilhe mais o que essa família tem a oferecer. Sua carreira só tem a ganhar.

3. O trabalho é para ser divertido

Como uma empresa de papel com funcionários de idades variadas e um gerente mala pode ser divertido? Tendo pessoas divertidas trabalhando nela. Apesar da palavra “escritório” não combinar com a palavra “diversão”, unir as duas coisas é mais benéfico do que parece. Não são poucos os estudos que mostram que o bem-estar no trabalho aumenta a produtividade, que ter amigos no trabalho faz as pessoas renderem mais, e acho que as startups têm exemplos suficientes para comprovar que ambientes divertidos são mais produtivos e criativos. Então porque ter funcionários sempre sérios e vidrados em uma tela LCD quando eles podem estar ajudando a criar um ambiente mais envolvente e produtivo?

“Você perde 100% dos tiros que não dá. Wayne Gretzky.” (MICHAEL SCOTT)

4. Amigos e amores acontecem

The Office tem uma das mais bonitas histórias de amor já vista em uma comédia. Pam e Jim representam o casal perfeito e a história dos dois fez parte do enredo durante quase toda a série. Além deles, outros 3 casais nasceram no escritório. Fato é que uma das maiores coisas que você pode levar de uma empresa são os relacionamentos que constrói, e você pode construir vários deles. Eu que o diga: 2 dos meus melhores amigos vieram das últimas 2 empresas que trabalhei. A minha namorada também conheci em um encontro da empresa. A vida tem um jeito curioso de ajeitar as coisas, cuidado para não bagunçar tudo.

5. Crescer é uma escolha

Uma das coisas legais de envelhecer é ver que as pessoas que você conheceu tempos atrás cresceram na carreira. Em The Office não foi diferente. Mudar e crescer são escolhas. Ninguém nunca está estagnado o suficiente que não possa dar uma reviravolta. Para isso, é preciso ter claro o que se quer e correr atrás. Na maioria das vezes, a mudança não acontece quando queremos, então precisamos deixar ele ali, incubando, até a hora em que podemos colocar em ação. Paciência é fundamental.

A série foi muito realista neste ponto, os personagens colheram exatamente aquilo que plantaram. O funcionário obediente se tornou, enfim, gerente. O reclamão conseguiu a tão sonhada aposentadoria. O dedicado e criativo chefe do almoxarifado se tornou um executivo de sucesso em outra cidade. Jim de tanto falar em mudar de cidade, acabou mudando. Naturalmente, alguns continuaram no lugar em que sempre estiveram. A vida é assim, feita de escolhas e ações, ou inércia.

Por fim, um conselho retirado do último episódio da série que vale para vida toda:

“Se alguém aí fora estiver vendo isso, diga a si mesmo ‘seja forte, confie em si, se ame, supere seus medos, apenas vá atrás do que quer, e haja rápido, porque a vida não é tão longa assim.”