O fim da internet grátis

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Fez-se a internet. Informação à vontade, ágil e prática como nenhuma outra tecnologia na história da humanidade conseguiu; o único problema, não era muito acessível. Eu me refiro ao pré-histórico ano de 1998, quando conheci a internet, ano em que o Google entrava no jogo para revolucionar a internet anos mais tarde. Época marcante para muitos investidores e empreendedores que tentaram  obter sua fatia do promissor mundo virtual —  até o estouro da bolha em 2001-2002. As empresas que sobreviveram, se tornaram mais fortes; os investidores mais cautelosos, e os negócios online foram se tornando cada vez mais profissionais. Hoje, com mais de 34% da população mundial com acesso à rede (90% EUA, 63% Europa), a internet vem mudando, prepare-se para abrir o bolso.

Há apenas alguns anos, minha mãe nunca tinha comprado pela internet e eu só comprava em lojas virtuais muito conhecidas. Hoje, minha mãe compra até eletrodomésticos e eu envio dinheiro para contas de pessoas na Indonésia e Hong Kong via PayPal. A profissionalização da internet tem me impressionado ultimamente, algo que eu só me dei conta de verdade há algumas semanas quando fui atrás de um novo tema para ao blog. Ao contrário de 2009, quando criei a primeira versão, desta vez eu estava disposto a pagar por um tema premium, mas a minha ideia de preço ainda estava presa em 2009. Achei que podia comprar um bom tema por $19, podendo chegar a $34 caso fosse muito bom. Para minha surpresa, a média de preço era $49, com alguns chegando a $87!

Daí em diante, percebi que coisas que antes eram grátis, hoje são pagas. Os gratuitos não desapareceram totalmente, os pagos é que dominaram. Isso não é exatamente algo ruim, apenas exige uma nova forma de pensar e usar a internet. Em geral, conteúdo e ferramentas digitais melhoraram muito nos últimos anos, como eu gosto de chamar, “a profissionalização da internet”. Os amadores de ontem, são os que abriram startups hoje, e claro, eles querem ganhar com isso. A profissionalização significa melhor qualidade, mas com uma etiqueta de preço em cima. Antes, quase tudo poderia ser conseguido de graça, agora é difícil conseguir algo de qualidade sem inserir o número de cartão de crédito.

Sem levar em consideração as lojas virtuais, hoje compramos muito mais em frente à uma tela. Antes comprávamos DVDs ou um presente para um amigo no Submarino, hoje pagamos por algo que nunca iremos tocar, isso é novo e um tanto assustador. Compramos apps, ebooks, plugins (não lembro de haver plugins pagos em 2009), imagens, filmes no Netflix, games na PSN, softwares na nuvem e até notícias, ah notícias… isso é tão complexo que eu vou ter que falar exclusivamente sobre isso.

Pagando para ler, o Paywall

Paywall é o assunto mais debatido da imprensa hoje. O termo se tornou a menina dos olhos dos jornais online em 2011, chegou ao Brasil para valer em junho com a adesão da Folha. Fiquei chocado ao ver o float banner informando que eu havia chegado ao meu limite do mês. A Folha era meu portal de notícias brasileiro favorito! Paywall é um sistema de bloqueio de acesso a conteúdo, e pode ser dividido dividido em 2 tipos, bloqueio total ou parcial. O total não permite acessar certos conteúdos nunca a menos que você seja assinante. O parcial (também chamado de metered paywall) limita o acesso até certo número. No caso da Folha, 20 notícias por mês.

Em 2011 vários jornais implantaram o sistema paywall: o The New York Times, Chicago Tribune, LA Times, o australiano The Herald Sun. Este ano, a Folha e a Zero Hora aderiram ao modelo (todos copiam o modelo do NYT). Mas a história do paywall não é tão nova assim. O próprio NYT já havia tentado um modelo pago anos atrás e voltou a ser free. Em 2010, quando o britânico Times implementou seu paywall, o site teve uma queda terrível de 62% do número de visitantes. A Revista Veja antigamente costumava bloquear todas as suas notícias (hard paywall), hoje é  liberado. Não sei se o Times UK se recuperou do baque, o que eu sei é que os grandes especialistas em mídia do mundo não veem o sistema com bons olhos.

Há muita discussão rolando se paywall é ou não bom para os jornais. A partir da larga pesquisa que fiz para escrever este artigo, do que eu conheço sobre mídia (já trabalhei em 2 grandes empresas de mídia) e das mais de 3.000 notícias que eu acompanho nos meus feeds todos os dias, eu não acredito que seja. O inglês Guardian, o alemão Frankfurter Allgemeine, o francês Le Monde e, pelo que sei, o espanhol El País não tem planos de aderir. O Globo estuda a ideia. O Estadão utiliza o sistema que vinha sendo usado até agora pelos jornais, cobrar por outros recursos, não pelas notícias no site.

Fato é que se todo mundo cobrar, a maioria vai quebrar. Sites como The Washington Post, Financial Times e The New York Times estão em outro patamar, se alguém pode, são eles.

Todos os dias, eu tenho acesso a milhares de notícias — organizadas minuciosamente na plataforma Netvibes. Lá tenho acesso a Forbes, WSJ, AdAge, Fast Company, INC., Huffington Post, The Business Insider, CNN, Time e outros. Já li muitas notícias na Folha 2 ou 3 dias depois de ter lido em sites internacionais. Ainda assim, adoro a Folha, é um dos melhores sites de notícias do Brasil, mas embora ele tenha um bom conteúdo editorial próprio, a esmagadora maioria das notícias ainda vem de outras fontes. São notícias commodities, como batizou o editor executivo do The Wall Street Journal, Raju Narisetti, em um evento realizado no final de agosto no Brasil.

“Eu aplaudo o The New York Times por correr o risco de cobrar e ter êxito. Sei que no mundo existe muito o desejo e a necessidade de copiar a experiência bem sucedida do NYT, mas eu quero desafiar os veículos que não queiram fazer a mesma coisa. 80% do que é produzido nas redações atualmente é commodity. Algo que você encontra em outros lugares de graça. Furos, ideias, análises e coisas exclusivas representam uma parcela muito pequena para que as pessoas paguem por isso.” (Raju Narisetti, WSJ)

O WSJ tem um dos melhores sistemas de paywall que conheço, é bloqueado o acesso apenas para artigos específicos, enquanto outros também grandes e complexos possuem livre acesso. Além disso, ele oferece artigos com uma qualidade difícil de ver na imprensa online.

Alternativas

É claro que o jornalismo tem de ser valorizado e pagar bem os profissionais é uma maneira de fazer isso, e para pagar é preciso faturar. Paywall não é o único jeito de faturar mais. Todos os jornais que implantaram o sistema, incluindo o The New York Times, perderam audiência (Segundo o editor-executivo da Folha, eles não). O NYT perdeu tráfego, mas vem ganhando assinantes desde então. Já o Sun Herald perdeu 18% este ano, o The Australian 27% e o Times londrino 65% (em 2010) e não sabemos como ficarão. Esse público naturalmente migra para os concorrentes, como aconteceu na Austrália, onde o The Daily Telegraph ganhou visitantes no mesmo tempo que seus rivais perdiam.

Aí é uma questão de estratégia, compensa perder audiência e aumentar receita? Consequentemente, isso também impacta em market-share e publicidade. Menos visitantes e pageviews significam menos anunciantes dispostos a pagar. Essa não é uma decisão tão simples quanto parece. Tanto que nem o Grupo Abril parece ter comprado a ideia.

Na minha opinião, paywall não é de todo ruim. Mas a menos que você seja o jornal mais famoso do mundo, não pode limitar a 10 notícias. Se você levantar o muro de pagamento no lugar certo, acho que é possível lucrar, sem perder audiência e prejudicar a marca. São essas:

– Acesso à edição impressa na íntegra
– Acesso a alguns artigos e matérias exclusivas
– Acesso a colunas e matérias antigas
– Acesso ao conteúdo nos dispositivos móveis. (Veiculação de publicidade no celular é mais limitada, por isso é interessante cobrar para acessar.)
– Ganho de conteúdo extra como livros e edições especiais, desde que frequentes.
– Ganho de outros veículos. (A assinatura do Chicago Tribune dá direito a matérias da The Economist e Forbes)

A internet não é mais a mesma. Sua presença quase epidêmica nos diversos campos da vida abriu um leque infinito de oportunidades de negócios. Empresas valem milhões vendendo produtos que não podem ser tocados, profissionais ganham dinheiro sem precisar sair de casa, essa é a realidade. Até então era possível conseguir tudo gratuitamente na internet, downloads que antes eram simples, ficaram mais difíceis sem precisar pagar (ou pegar vírus no computador). Não sou contra isso, tampouco contra o paywall, só há jeitos e jeitos. É preciso bom senso e respeito ao consumidor, cobrar por tudo pode afastar clientes em vez de atrair compras. (Acho que Chris Anderson tem algo a dizer sobre isso.)

Fato é que tudo está melhor, maior, mais bonito e mais profissional. Com o fim da internet grátis, ganhamos qualidade, mas ela só poderá ser desfrutada por que estiver disposto a pagar.