O ingrediente de sucesso que pais não ensinam

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Frequentar aulas de inglês, dormir cedo, não responder e tirar boas notas estão entre as principais obrigações dos filhos. Fazer isso bem feito garantirá a vida boa durante muitos anos. Será essa a melhor maneira de preparar os filhos? Eu sei que a maioria dos pais se esforçam para isso, mas muitos (se não, todos) estão deixando de estimular um fator crítico para o sucesso na vida adulta: habilidade social.

Esta semana, a INC, The Wall Street Journal, ABC e provavelmente todos os grandes veículos do mundo divulgaram um estudo — que durou 50 anos — sobre “crianças populares na escola se tornarem mais bem pagas na vida adulta”. Minha mãe nunca tinha me falado disso, ela sempre me falou  para estudar, escolher a profissão certa (provavelmente, piloto de avião teria sido melhor), mas nunca me disse para ter muitos amigos e praticar várias atividades.

Na minha opinião, os 10% de diferença no salário entre populares e não populares no ensino médio não é grande coisa. No entanto, isso parece esconder aspectos importantes. Não é à toa que networking, liderança e trabalho em equipe estão entre características mais valorizadas do mercado profissional.

Ser popular não é sinônimo de extroversão, está mais para saber interagir e o fazer com frequência. Para os pesquisadores, popularidade na escola ajuda os jovens a entenderem como as coisas funcionam, deixando-os mais preparados para o mercado de trabalho. Essas interações com pessoas diferentes e em grande quantidade ajudam a moldar suas personalidades de forma a se encaixarem melhor na sociedade. Além disso, essas pessoas conseguem criar relacionamentos duradouros (e em maior quantidade) que poderão lhe ajudar a estabelecer conexões profissionais.

Aqui vale um parêntese: ser o mais novo da turma não é bom. Tanto esse estudo, com outros sobre sucesso descritos nos livros de Malcolm Gladwell e Roger Dooley, apontam que os mais velhos em um determinado grupo têm maior taxa de sucesso. Então, talvez não seja uma boa coisa fazer seu filho pular de série.

Na era em que perfis sociais estão substituindo currículos e não se contrata ninguém sem antes realizar testes psicológicos e dinâmicas de grupo, tirar 10 não é tudo. (Obviamente, ajuda. Algumas empresas grandes avaliam histórico escolar na hora de contratar.) Alunos extremamente bem-sucedidos e aplicados podem encontrar dificuldades em situações comuns do mercado de trabalho. As escolas  ainda não ensinam a trabalhar em equipe, lidar com chefes e administrar o networking, possivelmente uma das poucas coisas na vida que não se domina lendo livros.

Neste ponto, a educação brasileira, mesmo privada, é ainda mais fraca. Há muitas escolas com bom ensino, mas atividades extra-curriculares ainda não são realidade na vida da maioria dos estudantes. Tornando o papel dos pais ainda mais importante. Vamos nos libertar do paradigma limitado de que filho exemplar é o aluno aplicado, que “não apronta” e sempre está limpinho. Amor é fundamental, já que o estudo traçou relação entre bom ambiente familiar  e empatia dos colegas. Em resumo, salvo algumas poucas profissões, tirar 10 na escola não é a mesma coisa que tirar 10 na carreira.