A criatividade introspectiva

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A criatividade é uma criança que cresce saudável aos cuidados do pai, mas que eventualmente precisa de interferência estranha para crescer ainda mais. Essa minha definição defende um ponto de vista diferente do que estamos acostumados a ouvir, principalmente dentro das empresas: A criatividade coletiva.

O brainstorming é uma criatividade coletiva. Uma técnica com mais de 60 anos de idade (mais velho que o marketing e a publicidade que conhecemos hoje) descrita por Alex Osborn (o ‘O’ da agência BBDO). Dentro das empresas, o brainstorming é considerado a salvação de todos os problemas criativos. Faça uma reunião dessas e você terá muitas ideias valiosas dos seus queridos funcionários. Mas como a vida não é um mar de rosas, não é isso que acontece.

Como todo publicitário de formação, eu sempre fui ‘o cara das ideias’. Para os amigos, para a família e entre departamentos das empresas que trabalhei, eu sempre fui considerado um dos mais criativos. Com o passar do tempo, e eu gostando cada vez mais de ler sobre comportamento, me interessei sobre o processo criativo. Como surgem as ideias? Como ter mais? Todo mundo pode ser criativo? Brainstorming funciona? Anotar é imprescindível?

Sendo o brainstorming quase sinônimo de criatividade dentro das empresas, tornou-se um assunto corriqueiro nas minhas leituras. Já defendi que brainstorming não é tão bom porque geralmente é feito de maneira equivocada. Mas agora quero focar nas pessoas, não no processo.

O colunista Hélio Schwarstman da Folha levantou brilhantemente a questão sobre a introspecção na criatividade. Acho que foi Harvey MacKay que disse quando você ver um funcionário olhando para a parede, elogie-o, porque ele está pensando. É impossível falar em criatividade sem falar em diversidade. As pessoas são diferentes e que bom que elas são. Isso significa que pessoas possuem modo de trabalho diferentes, e quando se trata de criatividade, pessoas menos agitadas parecem ter vantagem.

No livro “Quieto: O poder dos introvertidos em um mundo que não para de falar” (apenas em inglês), os autores publicaram um estudo que avaliava o desempenho de programadores. 62% dos melhores disseram que trabalhavam em um ambiente reservado e que podiam se concentrar. Apenas 19% entre os piores puderam dizer a mesma coisa.

Acredito que a melhor maneira de ser muitas e boas ideias seja sozinho com um bloco de papel. A troca é importante, mas como no caso da criança, é melhor deixar para quando ela estiver mais crescidinha. Nesse momento, ela será madura o bastante para realmente “trocar” e não apenas absorver. É essa troca (discussões, perspectivas novas, advogados do diabo) que faz diferença na criatividade. Você ouve tudo, pondera, e absorve o importante. O brainstorming força uma troca precoce, quando geralmente não existem ideias maduras o suficiente, se é que existem algumas. O melhor a se fazer é recompensar boas ideias o tempo todo, não apenas em reuniões.

A incrível habilidade social do ser humano gerou alguns problemas que o artigo da Folha chamou de “doenças de grupo”. Em poucas palavras, significa que nós nos comportamos de forma diferente sozinhos e em grupo, e que somos muito influenciáveis. Ele cita 2 estudos incríveis que mostram isso. Um que pessoas devolviam mais as carteiras quando elas carregavam fotos de crianças ou de animais (se você não tem foto nem da família, está ferrado!). Outro fazia cair drasticamente as chances de  uma pessoa acertar uma pergunta quando a pessoa anterior havia escolhido uma resposta errada. Por quê? A maioria mudava de opinião.

Quer ter ideias? Provavelmente, você sabe o que mais funciona para você. E, provavelmente, seu chefe não sabe. Se você é chefe, procure saber. Não existem fórmulas ou técnicas milagrosas. É realmente questão de aceitar a opinião o outro, estar 100% aberto ao desconhecido e colocar a cachola pra funcionar.