Reclamação é um presente

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As empresas estão sempre querendo vender mais, fidelizar clientes e todos esses objetivos comuns a todo negócio. Eu sou bem estrito quanto até onde a propaganda pode ajudá-los nessa tarefa. Muito pouco.

Por isso, eu insisto na importância de treinar funcionários — não só para vender, mas para sorrir — e nutrir o relacionamento com clientes já conquistados. Não sei se os profissionais não ouvem ou não lembram que atrair um novo cliente é mais caro do que manter um e que reconquistar um cliente é ainda mais caro do que atrair um novo. Isso sem levar em conta que as pessoas costumam relatar muito mais uma má experiência do que uma boa.

Deixe-me contar um caso da minha mãe sobre isso.

Certa vez a minha mãe me mandou um e-mail contando que ela estava se saindo uma “ótima advogada do consumidor”. Algo que eu prefiro chamar de “agir como bom consumidor”. Em pouco tempo, ela havia entrado em contato com Johnson&Johnson, Havaianas, Natura e uma marca de shampoo que ela não mencionou. Em todos os casos, aconteceu algo de errado com o produto ou com a embalagem.”Coisa pequena” como arrebentar a tira da sandália, mas não para a minha mãe. Ela sentou na cadeira e começou a reclamar no corpo do e-mail.

A sabedoria popular nos diria que isso é perda de tempo, talvez alguma empresa respondesse, mas provavelmente o resultado não valeria o esforço. Bem, os tempos mudaram porque todas as empresas responderam não apenas pedindo desculpas, mas oferecendo algo que deixou a minha mãe satisfeita.

Conheço muita gente que pensa que não vale à pena reclamar, até eu penso assim às vezes. Mas a minha mãe usa produtos Johnson&Johnson desde antes de eu nascer e sandálias Havaianas do tempo que só existia azul e branca. Ela não tem direito?

Ela tem. Assim como todo mundo. Mas talvez ela não reclamasse se tivesse comprando pela primeira ou segunda vez, ela simplesmente trocaria de marca, como faz maioria. Segundo uma pesquisa feita nos EUA, para cada 1 que reclama, 26 ficam calados. Vale ressaltar, que o brasileiro é muito menos “chato” que o americano, conhece menos os seus direitos e desiste fácil. Então… receber uma reclamação é um presente.

Essa forma de ver é tão importante que virou o título do livro de 2 consultores americanos: “A Complaint Is a Gift: Recovering Customer Loyalty When Things Go Wrong”.

No entanto, não pode ser levado ao pé-da-letra. Uma vez li que é preciso saber diferenciar os consumidores que reclamam porque querem ter seu problema resolvido dos que apenas estão tendo um péssimo dia. Quando não é esse o caso, a reclamação é uma grande oportunidade de fidelizar o cliente. Agilidade, honestidade e generosidade são as palavras-chave.  Produto bom tem muitos, mas ainda é raro encontrar uma empresa que dê a devida atenção às reclamações. Um bom conselho é o do fundador da antiga loja de departamentos Marshall Field’s, de Chicago, que em 2005 foi comprada pela Macy’s:

“Aqueles compram de mim, me sustentam. Aqueles me elogiam, me agradam. Aqueles que reclamam me ensinam como agradar os outros para que eles venham comprar. Os únicos que me encomodam são aqueles que saem descontentes e não reclamam. Eles não me dão chances de corrigir meus erros e melhorar o meu serviço.”