Quem acompanha o Pequeno Guru aqui e no Twitter sabe o quanto eu sou fã do Dilbert e suas situações que muito nos lembram do dia-a-dia das nossas empresas. Mas quem é o homem por trás do personagem? O que ele faz? Qual sua história? Ele é um artista ou apenas um funcionário frustrado?

Ontem, chegou a minha edição de aniversário de 20 anos de Dilbert. Um livro enorme e mais pesado que um bloco de concreto que conta toda a história desse personagem conhecido em 70 países e publicado em mais de 2000 jornais em todo o mundo. Além de milhares de tirinhas impressas e em um DVD especial, o livro conta a história do seu criador, Scott Adams, uma criança talentosa e que adorava desenhar, mas que por uma crueldade da vida, abandonou a carreira promissora de cartunista pra encarar a dura vida corporativa.

A história de Scott Adams é uma lição de talento, persistência e visão. Scott, em meados de 1990, — quando Dilbert estava “apenas” em 200 jornais — percebeu que a internet era a oportunidade que ele precisava pra fazer Dilbert deslanchar de vez. Mas peraí… antes, deixa eu contar um pouco da vida dele. [Se você não se interessa, leia só as lições.]

A pequena biografia de Scott Adams

O pequeno nova-iorquino Scott, filho de mãe artista e pai economista (ou algo do tipo) já desenhava aos 6 anos, muito bem por sinal. Mas o que mais me impressionou (pelos desenhos da época) não era o desenho em si, mas a história que ele contida

. Depois de alguns anos de desenho com direito a 2º lugar em um concurso para caixa de um cereal, Scott tentou entrar numa escola de artes, foi super bem, os desenhos impressionavam para um garoto de 11 anos, mas ele não passou. Justificativa: ele era muito novo, o curso fora desenvolvido para crianças de 12 anos pra cima. Por 1 ano de diferença, o pequeno Scott não entrou na escola de artes. Resultado: abandonou esse sonho e se dedicou ao colégio. Se formou e foi estudar economia.

Scott foi o pior aluno em artes da sua turma na faculdade, foi barrado em uma entrevista porque não estava usando terno, quase morreu de frio depois que seu carro enguiçou no meio do nada, se mudou pra Califórnia; conseguiu seu primeiro emprego em um banco, depois de ser assaltado 2 vezes em 4 meses pediu demissão; se tornou trainee após sugerir ideias impraticáveis mas que agradaram seu chefe (basicamente pelo senso de humor); virou programador; analista financeiro; agiota; analista de produto, chefe de um grupo de analistas de negócios e conseguiu um MBA. Parece que a coisa estava começando a dar certo. Exceto pelo fato de que Scott jamais conseguiria uma promoção. Motivo: as empresas precisavam diversificar, do ponto de vista racial mesmo. Tinha muito branco e as empresas se viam pressionadas para contratar “pessoas diferentes”.

Em algum momento dessa época, Scott criou o Dilbert, basicamente para ilustrar as apresentações que criava para seus chefes. Dilbert parecia mais jovem, cabeçudo e usava uma pólo em vez da tradicional camisa e gravata. Scott mudou de empresa por não ter perspectiva de crescimento, conseguiu um emprego na Pacific Bell (hoje AT&T) pouco antes de terminar seu MBA. Lá, as coisas iam razoavelmente bem até ele perceber que também não ganharia sua tão sonhada promoção. Então, Scott nos deu a nossa 1ª lição…

LIÇÃO Nº1

O dia que você percebe que seus esforços e resultados não andam juntos, você se liberta. Scott parou de chegar cedo na empresa, sair mais tarde e arrumou tempo pra fazer o que gostava. Em outras palavras, Scott voltou a desenhar pra valer na esperança de aproveitar seu talento como cartunista e se tornar bem-sucedido.

As tentativas

Scott Adams tentou muito vender suas tiras, muito mesmo. Tudo começou com uma carta pra um cara de televisão chamado Jack Cassady, onde pedia dicas de como publicar suas tiras. Cassady foi muito atencioso e incentivou Scott com uma resposta de quase 3 páginas. Scott então enviou várias tiras (ainda não era o Dilbert) para a Playboy e New Yorker. Foi recusado. Então ele desistiu, achou que tinha feito o que pode. Então, 1 ano depois Jack Cassady voltou a escrever, do nada, dizendo pra ele continuar enviando seu trabalho para várias publicações. Isso foi a injeção de ânimo que Scott precisava pra continuar na luta. Dilbert voltou a ser o personagem principal.

Após ver alguns desenhos de seu colega de trabalho, começaram a perguntar qual o nome daquela personagem. Sem a menor vergonha, ele pediu que as pessoas dessem sugestões de nome para o nerd e seu cachorro, até que um dia seu chefe passou e escreveu “Dilbert”. Scott adorou! Como ele queria que o cachorro tivesse uma relação com o dono, escolher o nome pra ele não foi difícil, foi lógico. Batizou o cachorro do Dilbert de Dildog! O nome não colou muito e antes de participar de um concurso de fotografia (sim, Scott enviou um desenho), foi oficialmente batizado de Dogbert.

Empolgado por ter seu desenho publicado no jornal, Scott preparou uma vasta coleção de cartoons da dupla e enviou pra uma grande editora. Foi recusado. Scott abandonou de novo o sonho. Então, meses depois, ele recebe um telefonema. Depois de um pequeno mal entendido, Scott descobre que era a editora de Garfield. Scott conseguiu um “contrato de aprimoramento” (que poderia ou não publicar o material). Scott correu para enviar uma memorável carta de agradecimento à Cassidy. Após 4 meses melhorando seus textos e desenhos, enfim a primeira tira de Dilbert foi publicada em 1988. Mas ainda ia demorar 7 anos até que Scott largasse seu emprego e passasse a viver dos seus cartoons.

LIÇÃO Nº2

Persistência é fundamental, ter alguém que lhe motive nas horas de fraqueza pode salvar o seu sonho.

Os primeiros anos de Dilbert

Após fechar contrato, Scott continuou trabalhando de dia e desenhando à noite, sem saber se aquilo ia lhe render dinheiro algum dia, sequer se iriam renovar o contrato quando ele terminasse. Dilbert ia crescendo a passos de tartaruga. Começou modesto com algumas dúzias de pequenos jornais, muitos nem publicavam antes de ver a repercussão. Em 1990, Dilbert estava em 50 jornais. Em 1992, em 150 jornais. À título de comparação, o maior cartoon da época estava em mais de 2000 jornais.

A começo do sucesso

Scott trabalhava numa empresa de tecnologia, cercado de engenheiros, programadores… caras antenados e por dentro das novidades. Sendo assim, foi um dos primeiros a ter contato com uma coisa chamada correio eletrônico. E foi nesse momento, que pra mim, Scott Adams foi um sujeito visionário e agiu como um verdadeiro homem de negócios, e não um cartunista. Ele sentia que estava agindo no escuro, e que precisava saber o que as pessoas achavam do Dilbert.

LIÇÃO Nº3

O feedback dos seus amigos e da sua família vale menos que o da sua audiência, só esse é capaz de mudar o rumo do seu negócio.

Muito antes da invenção do Outlook Express, Scott Adams recebia centenas de e-mails dos seus leitores. A ideia era simples, ele colocou seu email do AOL em cada tirinha nova publicada. As opiniões eram muito boas, as pessoas adoravam o Dilbert e seu cão rabugento, mas tinha um problema: elas queriam ver mais ele dentro do escritório e não em casa ou andando pela cidade. Quem lê Dilbert sabe o quão raro é, hoje, ver uma tirinha fora do escritório.

Scott Adams era um artista, mas ele agradeceu enormemente sua formação em negócios para deixar a opinião do público sobrepor à sua. A partir daí, Dilbert decolou e o 1º livro foi lançado em 1994. E essa é a nossa 4ª lição.

LIÇÃO Nº4

Crie um canal para receber feedback. Seus clientes/leitores/fornecedores são os únicos capazes de dar a melhor sugestão do mundo.

A internet chegou

Em 1995, Dilbert já estava em 400 jornais e se tornara um exemplo de tudo de trágico (e cômico) que acontecia nas empresas, como demissões em massa, má-administração, espaço de trabalho apertado (o famoso cubículo) e vida hi-tech.  Por trabalhar com tecnologia, Scott vinha percebendo que as pessoas ficavam maravilhadas como a internet, mesmo sem funcionar direito. Durante uma venda, as pessoas se levantavam da cadeira, queriam ver de perto, tocar no teclado… Scott estava certo de que a internet seria o futuro.

LIÇÃO Nº5

Visão é a chave para o sucesso. Perceba o  mundo à sua volta hoje e tente visualizar o futuro.

Em 1995, Dilbert se tornou o 1º cartoon de graça da internet. Isso não apenas tornou o personagem ainda mais popular, como aumentou as vendas. As pessoas viam na internet e entravam em contato com a editora, além disso, era muito mais fácil vender algo “tangível” e altamente inovador.

LIÇÃO Nº6

Tangibilize a venda. Crie algo que se possa apontar, mostrar e lhe poupar palavras.

A partir daí, Scott largou seu emprego (após 7 anos), escreveu “O Princípio Dilbert” — que começou como um editorial para o The Wall Street Journal — ,  virou empresário do ramo de alimentação e famoso no mundo inteiro.

A maior lição

Fato é que a história de Scott Adams não traz nada que já não tenhamos lido, ouvido ou mesmo dito. Mas uma coisa faz toda a diferença: ele viveu tudo isso. Scott foi uma criança talentosa rejeitada pela Escola de Artes. Participou de um programa de trainee, tinha MBA e mesmo assim não alcançou grandes cargos. Pediu conselhos, ouviu sugestões. Ele teve empregos meia-boca, trabalhou de madrugada, chegou cedo no trabalho, saiu tarde, isso tudo sem ser reconhecido. Recebeu inúmeras respostas negativas, desistiu pelo menos 3 vezes do seu sonho, mas nunca o abandonou totalmente. Sempre que surgia uma luz, lá ia ele com seu lápis.

A maior lição que eu tiro desta história é que Scott Adams era uma pessoa comum, parecido com muitos jovens que hoje estão disputando um espaço no mercado de trabalho. Ele tinha sonhos, era talentoso, e estudou o suficiente para adquirir um bom conhecimento. Ele não tinha nada de espetacular (ou as pessoas não percebiam), mas sua visão e persistência fizeram com que um cara normal se tornasse alguém fora-de-série –  um dos mais bem-sucedidos cartunistas que o mundo já viu.