O mito da inovação

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Quem nunca ouviu o ditado “nada se cria, tudo se copia” e não se irritou com ele? (Bem, eu já.) Separei um excelente trecho do livro Relevance, de Tim Manners, que nos mostra que esse imprudente ditado precisa de um pequeno ajuste. A partir de uma explicação do que é a tão cultuada inovação, o mais sensato seria dizer “talvez nada se crie, mas tudo se melhora”.

Motor a vapor (steam engine)A questão é a seguinte: assim como a criatividade, a inovação é considerada misteriosa. Algumas pessoas acreditam que se você tentar analisar a criatividade minuciosamente, você acabará destruindo-a.

Mas diferente da criatividade, inovação é uma questão de prática, resolver problemas e fazer as coisas darem certo. A criatividade só precisa ser esperta. Então, em vários casos, a inovação é vista com padrões superiores ao da criatividade, só que ela é muito mais simples e muito menos misteriosa. Mas isso não nos faz parar de ver inovação com um certo mistério, muitas vezes repetindo o mito de que os inovadores são, de alguma forma, diferentes do resto de nós — que eles são, na realidade, seres de outro planeta.

Bill Gates legendariamente largou a faculdade pra abrir a Microsoft (claro que a faculdade que ele largou foi, hum.. Harvard). Semelhante ao caso de Steve Wozniak, um excêntrico imigrante que acidentalmente mudou o mundo. Essas são realmente grandes histórias. Entretanto, o historiador David Hollinger acha que nós deveríamos parar de alimentar tais lendas. “A celebração desses mitos promove um preocupante anti-intelectualismo e apresenta uma visão distorcida do processo de inovação”, disse o pesquisador ao The New York Times.

Seu argumento é de que caras como Gates e Wozniak estão longe da realidade na qual a maioria das inovações acontecem, “resultado da rotina de grandes equipes e caminhos previsíveis”. Ele pode estar certo, mas se os mitos dominam ou não a inovação é irrelevante. O importante é entender que a inovação existe para resolver problemas e geralmente isso acontece ao velho modo do aprimoramento.

Steve Wozniak precisava de um monitor, de forma que ele pudesse ver o que digitava, então ele descobriu uma maneira de acoplar a TV ao computador. Ele disse que teclados já haviam sido usados em computadores antes, e ele simplesmente achou uma maneira de fazê-los trabalhar numa escala menor, para usuários individuais. Não há nada muito misterioso no que Woz fez, e não é muito diferente de outras famosas inovações. Por exemplo, ao contrário da crença popular, James Watt não inventou o motor a vapor, Eli Whitney não inventou a máquina de processar algodão e Robert Fulton não inventou o navio a vapor. Todas as três invenções na verdade, foram incrementadas ou derivadas de tecnologias já existentes.

No seu livro, A Culture of Improvement (ao pé da letra, “A Cultura da Melhoria”), Robert Friedel notou que essas e outras invenções “foram precedidas por máquinas similares que incorporavam alguns, senão todos, os princípios das famosas invenções”. Sua principal abordagem, segundo a resenha do livro publicada no The Wall Street Journal foi a seguinte: “Muitas vezes a existência de uma patente ou o sucesso de uma empresa manufatureira desviou a atenção da longa e gradual história da criatividade”.

Essa história, diz a resenha, não se trata de “avanço da humanidade ou de uma grande e impessoal força mudando o curso da história. Se trata de ajustes e começos—segurar, empurrar pra frente ou ser desviados por contingências demográficas ou biológicas”. Por exemplo, o nome de Robert Fulton estará sempre associado ao navio a vapor não porque ele o inventou, mas porque ele “teve visão capitalista e coragem” pra descobrir como ganhar dinheiro com aquilo. Em outras palavras, ele era uma espécie de Steve Wozniak e Steve Jobs em um só. [NOTA: Steve Jobs foi fundamental para levantar recursos para a Apple enquanto Wozniak cuidava da parte mais técnica.]